Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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FEITOS & DESFEITAS >

A notícia como arma

Por Cássio Gusson em 23/06/2009 na edição 543

Independente do fato de Ahmadinejad ser eleito através de um processo eleitoral fraudado ou não, é certo que os recentes conflitos no Irã revelam a importância da comunicação como instrumento belicioso.

Ações como a restrição da velocidade da banda larga, bloqueio de SMS, retirada das credenciais de jornalistas internacionais, repressão a troca de informações, entre outras, refletem acima de tudo uma constante preocupação do governo com as informações que circulam fora do país. Até certo ponto, esta preocupação é extremamente válida, considerando o histórico da relação Irã-EUA, porém, as recentes ‘restrições’ à imprensa e à liberdade de expressão revelam que a notícia ganhou um status ‘bélico’.

A partir do momento em que o país persa visualizou que as palavras empregadas para divulgar uma ‘informação’ têm um poder muito similar àquelas usadas na teocracia, a imprensa deixou de ser apenas um dos elementos a integrar a sociedade e passou a ser um dos elementos a serem dominados pelo regime. A primeira batalha foi travada entre o Kalameh Sabaz, jornal de propriedade de Mousavi, e a imprensa estatal iraniana. Dentro deste contexto, de ambos os lados a ‘notícia’ se tornou uma importante arma em um processo de legitimação deste ou daquele resultado.

A solução dos insatisfeitos

Este cenário expandiu-se e ganhou dimensões fora das fronteiras iranianas e, devido a todo seu caráter conturbado, exacerbou sentimentos dentro e fora do regime. Se, por um lado, se defende a ‘ingerência internacional’, pelo outro defende-se a democracia nos moldes ocidentais. É neste cenário que o Irã impõe restrições à imprensa e à liberdade de expressão, para que o ‘inimigo’ não possa usar esta ‘arma’, que pode ser ‘carregada’ em seu próprio ‘acampamento’.

A notícia, como um determinado olhar sobre o processo de formação do contemporâneo, revelou-se um instrumento bélico importantíssimo em um cenário de comunicações globalizadas e não mais tuteladas por organismos de imprensa, mas pelos próprios ‘atores da notícia’. Mousavi soube perceber antes do regime esta nova configuração e, graças a uma ação repressiva do próprio Irã, conseguiu converter a ‘notícia’ em sua principal arma de afirmação. Afinal, a imprensa internacional, sem a possibilidade de averiguar os fatos e aliado à ‘linha dura’ do regime, passou a divulgar boatos e salientar as manifestações como se elas representassem abertamente a maioria do povo iraniano. Mousavi, aos olhos internacionais, tornou-se a única solução dos insatisfeitos.

Um poder passível de manipulação

De certa forma, encurraladas por uma situação que ajudaram a construir, as autoridades iranianas, como podemos perceber pelas declarações de Khamenei, não viram outra saída senão, além de realizar o ‘contra-ataque’ da informação (em uma perspectiva interna), minimizar ao máximo o poder das ‘notícias’ que os partidários de Mousavi possam gerar e isto inclui, certamente, a imprensa internacional e todo tipo de comunicação que esta possa fazer com aqueles contrários ao regime.

Não há meios claros de saber como esta ‘guerra’ da informação está impulsionando a opinião pública iraniana em uma perspectiva interna – afinal, enquanto uns são os ditadores, outros são a oposição Gucci. O certo, porém, é que há novas configurações no cenário mundial e neste a comunicação demonstra ser um poder cada vez mais importante e passível de manipulação.

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Documentarista e diretor de Comunicação, Jundiaí, SP

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