Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS & LEITORES

A notícia como mercadoria

Por Affonso Romano de Sant’Anna em 03/07/2007 na edição 440

De repente, surgiu na minha cabeça esta expressão: ‘Notícia como mercadoria’. Achei-a intrigante e a repeti como quem a digere, mas, agora, com espanto, vejam o sinal de exclamação no fim da frase: ‘Notícia como mercadoria!’. O que esta sentença estaria querendo me dizer? Como surgiu? De onde veio, se aparentemente não a estava procurando, já que estava silvestremente andando em meio das árvores de minha casa de campo?


De pronto, localizei sua origem e assim tornou-se mais nítido pensar no seu significado. Eu havia terminado a leitura de vários jornais e revistas (sobretudo do Rio e São Paulo). Havia lido uma reportagem sobre a nova biografia da falecida princesa Diana, na qual se analisa como ela não era tão ingênua nem santa, teve um punhado de amantes mesmo casada e sabia manipular a mídia. Ou pior, estabeleceu-se a partir dela e com ela, um jogo perigoso, ela manipulava a mídia que por sua vez a manipulava. Deu no que deu.


Havia lido também matérias sobre o mercado de arte, onde cinicamente críticos e curadores confessam participar desse jogo duplo se espostejando acriticamente na roleta do mercado. Havia lido sobre essas modelos que cobram para ir a festas, sobre esses casais de BBB que têm contrato comercial para ficarem juntos. Também li a notícia de que aquela milionária Paris Hilton – uma irresponsável (mas esperta) –, que após ser condenada por dirigir embriagada, e tendo com isto aumentado sua cotação no mercado de notícias, cobrou um milhão de dólares para dar uma entrevista na televisão e ainda foi convidada para trabalhar aí regularmente.


Enfim, essa Hilton, como Diana entendeu que ela é a notícia e que a notícia tem preço. Com isto, os meios de comunicação em todo o mundo se dispuseram a expor e a vender essa mercadoria, que também rende em termos de audiência. E perpassando os olhos criticamente pelas várias seções dos jornais, uma coisa terrível se me afigurou e já não se sabia a diferença entre os anúncios expressamente tidos como anúncios e esse outro produto difuso e perverso cultivado pela cultura chamada de pós-moderna; e algo começou a se elaborar no meu inconsciente até que surgisse aquela frase reveladora e arrepiante: ‘Notícia como mercadoria’.


Imprensa faminta


Abro um parêntesis e lembro que houve um tempo em que certas seções nos jornais eram ‘serviço’ desinteressado. O colunista citava pessoas e indicava lugares e produtos sem cobrar e receber. Estava orientando gratuitamente os leitores. Hoje podem-se contar nos dedos as colunas não manipuladas. Ainda não éramos essa sociedade das aparências, da pressa, da velocidade, onde a irresponsabilidade ética se acoplaria à irresponsabilidade estética. Por isto, se me permitem, proponho um novo par a ser desencravado para análise da ideologia de nossa época, onde houve uma perturbadora inversão.


Daquilo que era a eventual ‘irresponsabilidade ética’, passamos a cultuar a ‘ética da irresponsabilidade’ louvando e endossando os piores personagens das novelas e dos noticiários; e onde antigamente se denunciava a eventual ‘irresponsabilidade estética’ de alguns, passou-se a oficializar e a louvar a ‘estética da irresponsabilidade’, que acabou dando num tipo de arte onde a idéia de valor é renegada. Acredito que nessa inversão está a chave do enigma de nosso tempo.


Fecho o parêntesis e retomo o que disse no princípio: os personagens na mídia são mercadoria. Não só as modelos, os jogadores, mas também os artistas, a própria literatura – veja-se a FLIP, lá em Paraty – é uma mercadoria. E as coisas vão se ampliando: os escândalos diários e/ou semanais que jornais e revistas estampam são uma mercadoria. Não sei se somos mais corruptos hoje que ontem, mas antes o escândalo era, sobretudo, um fato moral e ético, não havia recebido a etiqueta de mercadoria. O escândalo como mercadoria não havia sido oficializado. Hoje necessitamos de um escândalo por semana (ou por dia?). Como se alguém gritasse para alguém no almoxarifado: ‘Como anda o estoque de escândalos? Veja lá, renove os pedidos, não podemos deixar o público na mão’.


A imprensa está sedenta, faminta, ela se alimenta de sua própria fome. E como o público, para se proteger, vai ficando insensível, então surge um fenômeno novo – o meta-escândalo, o escândalo de que já não nos escandalizamos mais com os escândalos.

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Poeta e escritor

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/07/2007 Luiz Carlos Bernardo

    De fato, a notícia – como mera informação – não existe. Ela se transformou em negócio ou mercadoria há muito tempo. Na verdade, a notícia tem um conteúdo híbrido. Ela relata uma idéia num primeiro momento e, em seguida, vende-a para o público como se fosse mercadoria informativa ou cultural. E a sociedade paga esse pesado preço.

  2. Comentou em 03/07/2007 Marco Antônio da Costa

    Caro Romano, bom descanso na sua casa de campo, deve ser bom ter uma casa de campo! Ou não? Essa notícia não deve ter de assustado tanto assim, o jornalismo e o jornalista vivem em função de dar furo(não aquele), para faturar muito dinheiro para seus donos e também, tirar alguns. Vivemos num sistema capitalista, portanto tudo se cobra, nada é de graça, mesmo aquela reza temos que pagar através de dizemos. Se a ‘celebridade’ sabe que é notícia, porque não vender suas travessuras para a imprensa em geral, ela sabe que os meios de comunicação ganharão em dobro ou quem sabe triplo. Após a implantação do sistema NEOGLOBALISANTE, quase que geral, às pessoas perderam a noção de moral e ética, hoje qualquer malandrinha da vida vende seu corpo nu a troco de uns trocados. Parafraseando um certo Ministro que não é chegado no trampo, Ou não?

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