Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DE ISTOÉ

A omissão dos campeões de votos

Por Walter Rossignoli em 06/02/2007 na edição 419

‘O que os cidadãos brasileiros se perguntam, neste turbilhão de tragédias de todos os tipos, é qual será a próxima onda. Não se tem garantia em parte alguma e ainda não se encontram líderes genuinamente preocupados com o suporte da população. No Brasil dos dias de hoje, os cidadãos fazem parte de uma classe inferior, cheios de obrigações, mas sem direitos. Ao primeiro problema, são arremessados de um lado para outro, sem nenhum tipo de amparo institucional.’

O trecho acima, assinado por Alan Rodrigues e Carina Rabelo, não está – como se poderia supor – estampado na seção ‘Carta dos leitores’, comum em periódicos brasileiros, que costumam publicar nessa parte apenas o que lhes convém e não fere interesses do grupo jornalístico.

Alan e Carina são jornalistas e escreveram a matéria ‘Uma tragédia brasileira’, em IstoÉ nº 1.943 (24/01/2007), um belo texto que capta muito do nosso sentimento diante dessas chagas cotidianas que atropelam os brasileiros.

Aqui em Juiz de Fora (MG), onde também sofremos com enchentes, pudemos assistir, de forma mais detalhada, à trágica situação em Miraí, vitimada por fortes chuvas e um lamaçal destruidor, proveniente da queda de uma barragem de empresa particular. Uma tristeza! Quando assistimos ao ocorrido, é mais que natural que aguardemos o pronunciamento do governador, eleito por esmagadora maioria. Ficamos pensando: o Aécio não vai faltar, daqui a pouco ele fala e traz seu conforto e as providências do estado. Alan e Carina dão conta de que ele ‘não estava lá para tentar minimizar a dor de seus cidadãos. Optou por levar até o final suas férias na neve de Aspen, nos Estados Unidos, onde alternou sessões de esqui com, talvez, alguns telefonemas para auxiliares’.

Contradição salutar

Na citada matéria, a tragédia nas obras do metrô paulista não chega a ser detalhada nas suas causas até porque serão necessárias mais investigações, mas a questão do distanciamento das autoridades não escapou aos olhos magoados dos autores. Os gêmeos Edgar e Guilherme se tornaram repentinamente órfãos (a mãe, Valéria Alves Marmit, assim como outras seis pessoas, foi tragada pela terra). Assistimos a tudo isso, de longe e de perto, pois a tevê aproxima e, quando começa a dar cara à estatística, não há quem não se entristeça e ficamos esperando uma palavra dos campeões de votos.

Alan e Carina destacam a demora do governador José Serra em chegar ao local; quanto ao presidente Lula, eles informam que ‘estava de férias no Guarujá, a pouco mais de uma hora de São Paulo, mas não viu motivo para se incomodar’. A matéria encerra dizendo que os senhores que cobiçavam a Presidência da Câmara também não apareceram para se solidarizar com os irmãos sofridos. Vale lembrar que muitas pessoas ficaram desabrigadas, pois tiveram de ‘evacuar suas residências, cujos telhados tremiam, paredes rachavam e tinham o chão rebaixado’. Um horror!

Salutar e democrática contradição salta às vistas na matéria sob análise, pois a mesma Editora Três que na edição 1.941 homenageia as autoridades aqui citadas parece não manietar seus colaboradores e lhes dá palavra livre.

Colunismo político-social

Parece evidente, também, que o fato de as autoridades não terem respondido com a imediata presença ou voz solidária não evidencia descaso ou desamor, mas um silêncio estratégico, que, em última análise, revela certo constrangimento diante da ineficácia do Estado brasileiro de garantir mais segurança aos cidadãos.

Nem tudo está perdido, entretanto. Quando Alan e Carina, ecoando a voz de todos nós – num jornalismo inequivocamente corajoso – espetam os políticos em seu silêncio ou distanciamento, abrem-lhes, também, as portas para a divulgação de ações efetivas no sentido de reparar o que ainda é reparável.

Acostumados a um certo tipo de jornalismo político que muitas vezes faz colunismo social exibindo políticos em luxuosas vitrinas, alegra-nos, enquanto leitores, ver a materialização impressa de nossas aflições diante de um Brasil ainda corrigível.

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Professor

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