Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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FEITOS & DESFEITAS > ELEIÇÃO NA CÂMARA

A política real driblou a mídia

Por Luiz Carlos Santana em 22/02/2005 na edição 317

A eleição de Severino Cavalcanti para presidente da Câmara dos Deputados revelou que a cobertura política precisa, no mínimo, passar por uma reciclagem. Pauteiros, editores, comentaristas e especialistas de plantão se esqueceram da velha máxima de que resultado de eleição secreta é como se dizia antigamente quanto ao sexo de criança ainda no ventre materno: só se conhece depois de aberta a urna. A tentação de antecipar quem seria o eleito levou muitos experientes profissionais da crônica política a uma das maiores barrigas da história do jornalismo brasileiro.

O exemplo mais notório foi o do debate na Rádio CBN entre os deputados com maiores chances de vitória. O premiadíssimo jornalista Heródoto Barbeiro foi especialmente a Brasília e mediou o encontro entre os candidatos: o oficial do PT e do Planalto, Luiz Eduardo Greenhalgh, o rebelde traído do PT, Virgílio Guimarães, e, como contraponto – afinal, é imprescindível ouvir o outro lado, pelo menos para aparentar neutralidade –, o líder do PFL, José Carlos Aleluia. O problema é que deixaram de lado os outros dois candidatos: Severino Cavalcanti, rotulado de corporativista, e Jair Bolsonaro, que só merece alguma atenção da mídia pelo extremismo das suas posições. Deu no que deu: os ‘eleitos’ do debate perderam a eleição real.

A mesma situação ocorreu em outros veículos. Não tão explicitamente como no caso do debate da CBN, mas demonstrando que a cobertura da eleição da mesa da Câmara estava permeada por uma postura até certo ponto arrogante, que insistia em desprezar qualquer outro resultado que não fosse o que interessava ao partido dos eventuais ocupantes do Palácio do Planalto. A prepotência, característica tangencial dos gatekeepers da nossa imprensa, fez com que a prudência e a ética jornalística fossem suplantadas pela lógica do rolo compressor que vem marcando a prática do Poder Executivo em relação ao Legislativo, na história política brasileira.

Acordos de cúpula

É surpreendente que profissionais vividos tenham se esquecido de que a política, além de uma ciência, é uma atividade humana. Portanto, não é possível enquadrá-la cabalmente na lógica matemática das probabilidades. Apesar das grandes discussões atualmente serem ambientadas pela mídia, a realidade da articulação política – em especial a que se desenvolve no âmbito dos parlamentos – ainda contempla a negociação de bastidores, a conversa ao pé do ouvido e outras circunstâncias menos visíveis que ajudam a decidir votações.

Outro erro é a insistência em chamar o grupo de deputados desprezados pelos jornalistas de integrantes do ‘baixo clero’. Um tratamento pejorativo que esconde um preconceito incompatível com o jornalismo ético. Quem pensa assim comete o grande equívoco de ignorar que o voto do líder do governo tem o mesmo peso do voto do representante dos eleitores de algum rincão brasileiro. Aliás, independentemente de qualquer juízo que se possa fazer do comportamento dos parlamentares, todos foram eleitos, têm a delegação de uma boa parcela da população, e deveriam ter o mesmo respeito por parte da imprensa em geral. Se há problemas no sistema político-eleitoral que possibilita a ascensão de oportunistas a todos os níveis do poder, isso é outra discussão, que deveria estar na pauta da mídia.

Vejamos, daqui para a frente, qual será a atitude dos representantes do ‘alto clero’ da cobertura política, depois da rasteira severina. A política brasileira é maior que os acordos de cúpula. Os tais especialistas da cobertura política deveriam ter sempre isto em mente.

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Professor da UniEuro de Brasília, mestre em Comunicação pela UnB e jornalista da TV Senado

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