Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA OMISSA

A quem interessa o silêncio sobre o Haiti?

Por Tiago Almeida em 13/07/2010 na edição 598

Muitos jornais deram notícia do recente conflito ocorrido entre a população haitiana e as tropas da ONU. A rede estadunidense de TV CNN afirmou que esse foi ‘um dos confrontos mais graves desde o terremoto’. O que escapou ao telespectador brasileiro, e também à grande maioria do público leitor de jornais e revistas, foi o fato de que esse conflito começou porque soldados brasileiros da Minustah invadiram a Faculdade de Etnologia da Universidade do Estado do Haiti para prender um líder estudantil. Como essa notícia repercutiu por toda a imprensa internacional, a ONU já admitiu que foram lançadas trinta e duas bombas dentro da Universidade durante a entrada ilegal do exército brasileiro e abriu uma investigação sobre o fato.


A ironia é que a Minustah foi organizada pela própria ONU depois dos conflitos ocorridos no Haiti, após o golpe de Estado do exército estadunidense que, em 2004, com o apoio da França, expulsou o presidente Jean-Bertrand Aristide, hoje exilado na África do Sul. Se, inicialmente, a Minustah era uma missão de manutenção da paz no Haiti, hoje, liderada pelo exército brasileiro e composta de destacamentos de exércitos de mais de trinta países, ela já tomou todo o controle militar, político e econômico daquele país. Não se espera, portanto, muita coisa do julgamento da ONU sobre a ONU após a sua própria investigação e, infelizmente, pela cobertura da imprensa nacional, tampouco devemos esperar do julgamento do povo brasileiro, que mal tem notícia do que acontece por lá. Do que acontece por lá e por aqui, pois outra notícia sem grande repercussão na imprensa brasileira, como parte da Jornada Internacional em Solidariedade ao Povo do Haiti, defende a substituição das forças de ocupação pela presença de médicos, enfermeiros e engenheiros. Manifestantes entregaram uma carta ao presidente Lula, protestando contra a invasão da universidade e pedindo a imediata retirada das tropas.


Coisa bem estranha essa, pois pelo que vimos na televisão, o pedido por médicos e enfermeiros chega a parecer desnecessário e quase absurdo diante de toda a ajuda humanitária dispensada pelo exército brasileiro ao povo do Haiti, como até o rapper MV Bill, atendendo a convocação da ONU, foi defender no Domingão do Faustão tempos atrás. Mas a verdade é que esse tipo de intervenção nunca foi a prioridade do Brasil naquele país. Mesmo durante os dias imediatamente seguintes ao terremoto, a imprensa internacional denunciou que o socorro médico demorou a chegar porque todas as pistas de pouso estavam fechadas pela Minustah e pelo exército dos EUA, que hasteou a sua bandeira no palácio presidencial do Haiti.


‘Ocupação imperialista’


Durante a ocupação militar da ilha, logo depois do terremoto, mais de dez mil soldados estadunidenses foram enviados ao país, mas a população teve que sobreviver sozinha por dias, lidando com seus mortos, feridos e doentes, sem água ou energia elétrica, contando com a solidariedade exclusiva dos próprios haitianos, enquanto a Minustah cuidava da segurança dos estrangeiros no país, ciceroneava a imprensa e reprimia brutalmente os crimes. O jornal britânico Daily Telegraph declarou que o governo dos Estados Unidos também preparou um plano militar de emergência para controlar a migração maciça vinda do Haiti, enquanto o Departamento de Segurança Interna habilitava centros de retenção em Guantánamo.


Desde o início de maio, a população haitiana foi às ruas para diversas manifestações que exigem a saída do presidente René Préval e a retirada da Minustah, que age com violência durante a repressão. No seu aniversário de trinta anos, a Central Autônoma dos Trabalhadores do Haiti, que está na base da Comissão Internacional de Inquérito que apura as consequências da ocupação estrangeira, declarou em relatório que vai participar ‘ativamente de todas as iniciativas para exigir a saída do presidente Préval e para convocar uma assembleia constituinte’. Já no período de chuvas no Haiti, com os desabrigados dos terremotos de janeiro ainda vivendo em barracas improvisadas, até o ator e cineasta Sean Penn denunciou: ‘Nessa cidade em ruínas, cinco hospitais operacionais foram fechados por falta de financiamento.’ Penn ainda disse que casos de difteria já foram diagnosticados no campo de Piétonville, que abriga mais de 50 mil pessoas.


Para que se tenha uma ideia da gravidade do problema e do papel desempenhado nele pelo Brasil, uma ‘Carta da 4ª Internacional’ foi divulgada pela revista Newsweek e vários jornais ao redor do mundo, afirmando: ‘O movimento operário oficial em escala internacional viu com complacência a ação da Minustah, em razão do fato de que era o governo Lula, originado no PT do Brasil, que lhe dava caução.’ Em tempo: a Seção Brasileira da 4ª Internacional Corrente ‘O Trabalho’ – do PT promove o diálogo interno no partido e é responsável pelos únicos meios de comunicação de circulação impressa ocupados da avaliação crítica da presença e liderança das tropas brasileiras no Haiti. Mas, além de possuírem divulgação e distribuição bastante limitadas, seus jornal e revista sofrem de uma grave desconfiança por parte da opinião pública em função do seu posicionamento político declarado. Como se o silêncio sobre um assunto dessa gravidade para o Brasil, e com tanta repercussão em outros países, já não fosse também um posicionamento político.


Resta saber até quando correremos o risco de assistir novamente o MV Bill no Domingão do Faustão como porta-voz das favelas, fazendo o elogio da ação humanitária do Brasil no Haiti neste estranho laço que une, lá e aqui, a ONU, a Rede Globo, a CUFA e outras ONG´s brasileiras, enquanto a comunidade política internacional continua denunciando o que já chamaram de ‘ocupação imperialista’ do Brasil e dos EUA no Haiti. Os brasileiros parecem ser os últimos a receber esse tipo de informação que, de qualquer forma, também demorou a ser bem compreendida em todo o mundo e, suspeito, depois do terremoto e das imagens nos jornais da ajuda internacional liderada ‘de forma insuficiente, tardia e violenta’ pelo exército brasileiro, também vai demorar a ser bem entendida por aqui.

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