Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > FAVELA REAL PARQUE

A questão urbana e o Estado da elite

Por Tatiana Aoki em 18/12/2007 na edição 464

É interessante notar como algumas coisas não mudam. A cidade de São Paulo, que se depara com um grave problema habitacional, abriga cada vez mais pessoas que, não tendo condições de pagar o aluguel e muito menos de pagar a casa própria, são obrigadas a morar em barracos – ou favelas.

Até aí, é um problema de política pública que deve ser resolvido com urgência pelo Estado, uma vez que está na Constituição brasileira a garantia de moradia a todos.

Mas vamos aos fatos. Na terça-feira (11/12), moradores da Favela Real Parque foram desalojadas sem qualquer aviso prévio da Justiça, a qual alega que os moradores estão vivendo em terreno que pertencia a uma empresa ligada ao Estado. Assim, em pouco tempo, a Polícia Militar retirou, de forma violenta, os cidadãos que não têm condições financeiras de morar em um terreno próprio – em contraste ao crescente mercado imobiliário na maior cidade do país. (Vide os anúncios ininterruptos de condomínios nas páginas dos grandes jornais impressos – mas isso é um outro assunto.)

Obviamente, isso não ocorreu sem reação e os moradores da Favela Real Parque protestaram, fechando vias públicas movimentadas de São Paulo.

‘Constranger as autoridades’

Mas a cobertura da grande mídia a respeito do caso foi medíocre. O enfoque da Folha de S.Paulo e do Jornal Nacional, só para falar dos maiores, foi estritamente o ‘caos’ que os ‘favelados’ geraram no trânsito e sequer mencionaram a violência da PM na reintegração de posse, a vulnerabilidade desses moradores e o que acontecerá a eles depois. Sim, só cobriram como recorte o ‘caos’ no trânsito paulistano – que já é um caos, diga-se de passagem.

Para piorar a repercussão, o Estadão de domingo (16/12) fez a proeza de publicar um editorial intitulado ‘A questão urbana’. Não só considerou o ato dos moradores da Favela Real Parque meramente como uma lesão à ordem estabelecida, como também enfocou o termo ‘invasores profissionais’. Isso mesmo que estão lendo, invasores profissionais, como o próprio Estado de S. Paulo afirma: são indivíduos que ‘ocupam determinadas áreas para fazer loteamentos clandestinos, conseguir o ‘cheque-despejo’ de R$ 5 mil da Prefeitura ou obter indenização dos proprietários para sair do local, e estimulam pessoas ingênuas e desinformadas a resistir à execução das ações de reintegração de posse, enfrentando a Polícia Militar e bloqueando vias públicas, com o objetivo de constranger politicamente as autoridades‘ (grifos nossos).

Alguma coisa mudou?

Para o jornal, a solução é, ‘obviamente’, ‘políticas de crédito para a população de baixa renda e construção de conjuntos habitacionais’. Mas o redator enfoca também a necessidade de ‘maior rigor das autoridades para coibir invasões e evitar que o cumprimento de mandatos de reintegração de posse em áreas ocupadas por invasores profissionais gere graves transtornos para a cidade’ (grifo nosso).

O mais frustrante vem agora. Após estudar por dois anos um jornal do interior de São Paulo – um impresso de Penápolis da década de 1930 (O Penapolese) – notei neste uma vasta gama de editoriais reclamando a atuação dos ‘falsos mendigos’, ou seja, pessoas que têm como escolha de ocupação o ofício de mendigo, para explorar os ‘sujeitos de bem’.

Século 21. Na revista piauí, uma longa reportagem a respeito da trajetória do grupo Estado, comandado pela família Mesquita (ver ‘Detrás das dunas do Estadão‘,). Conquanto haja algumas críticas ao oligopólio comunicacional, na realidade o que a revista faz é tecer elogios de como o Estado se renovou, como a linguagem foi modificada, entre outros aspectos da derrocada do provinciano Estadão à modernidade. Mas será que mudou alguma coisa mesmo? Ou a mídia ainda é voz exclusiva da elite letrada, a mesma do fim do século 20?

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Jornalista, São Paulo, SP

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