Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ENTRE ASPAS > COBERTURA DA COPA

A religião do futebol

Por José Alexandre da Silva em 13/07/2010 na edição 598

A prática religiosa pode ser quase tão antiga quanto a própria humanidade. Na ânsia de ancorar sua existência, os seres humanos criaram narrativas cheias de seres fantásticos e na maioria dos casos relacionados a aspectos da natureza. A partir de então, tais seres seriam responsáveis por desgraças e tragédias nos seus momentos de mau humor. Para melhorar o ânimo destes, as pessoas passaram a cultuá-los, reverenciá-los e prestar sacrifícios. Conforme as sociedades se tornaram complexas, os sistemas religiosos também se complexificaram. Atualmente, alguns estudiosos defendem que religião é uma necessidade do ser humano. Discordamos, mas defendemos a hipótese de que o futebol tem um papel religioso para parte significativa da população.

Globo Esporte (01/07/2010): uma reportagem lança a especulação sobre quando sairão os gols dos jogadores camisa 10 da Argentina e do Brasil, Messi e Káká (nesta Copa, não mais). Um dos entrevistados é um menino argentino aparentando dez anos que declara: ‘Para mim, Messi é um Messias, um Deus.’ Qual o papel da imprensa na criação da imagem dos jogadores de futebol como heróis ou até deuses? A fala do garoto argentino poderia ser a de qualquer criança brasileira. Bastaria apenas trocar o nome do jogador. Reportagens sobre jogadores que cresceram como crianças humildes e atualmente são encarados como heróis abundam em nosso país.

‘Nossa autoestima como nação se apoia na bola’

Jornal Nacional (2/07/2010): a seleção brasileira perde para a holandesa por 2×1. Uma reportagem exibe depoimentos de alguns jogadores sobre os motivos da derrota. Na grande maioria estão contritos, culpados, em lágrimas. A mesma também mostra imagens de alguns torcedores com os olhos molhados. Um, em especial, manifesta sua indignação pela seleção estar fora da competição, ou melhor, por ‘nós’ não termos mais a possibilidade de sermos hexa. Os principais lances são revistos, revividos ao som de uma trilha melancólica. O telejornal criou uma espécie de exegese da derrota.

No Correio Braziliense (02/07/2010), o escritor Frei Betto dá nome aos bois: ‘Futebol é arte e religião.’ Entre lembranças da infância e outras considerações: ‘No Brasil, futebol é religião. E jogo, liturgia. O torcedor tem fé no seu time. Ainda que o time seja o lanterninha, o torcedor acredita piamente que dias melhores virão. Por isso, honra a camisa, vai ao estádio, mistura-se à multidão, grita, xinga, aplaude, chora de tristeza ou alegria, qual devoto que deposita todas as suas esperanças no santo de sua invocação.’ O autor constrói a imagem de torcedor como um fiel cujo templo religioso é o campo de futebol.

Como vemos acima, o sentimento do torcedor que vai ao estádio não é diferente do fiel que reza para um santo ou realiza oferendas a um orixá. Talvez seja ainda mais intenso, mais forte. No Brasil, o futebol certamente extrapola a dimensão religiosa. Ainda na pena de Frei Betto: ‘Nossa autoestima como nação se apoia, sobretudo, na bola. Não ganhamos nenhum Prêmio Nobel; nosso único santo, frei Galvão, ainda é pouco conhecido; e nossa maior invenção – o avião – é questionada pelos norte-americanos. Porém, somos o único país do mundo pentacampeão de futebol.’ Ainda assim, a derrota do Brasil para a Holanda certamente gerou mais tristeza que qualquer dos elementos citados pelo escritor poderia.

O papel da imprensa

O garoto que considera o argentino Messi um deus também não poderá vê-lo realizar algum gol nesta Copa. Os fiéis brasileiros já não vão poder gozar das graças que seus deuses prometeram realizar. Esse revés dificilmente vai tirar a fé dos torcedores na seleção. O milagre não realizado não chega a enlamear a imagem do santos, foi apenas adiado por quatro anos. Ser jogador de futebol vai continuar sendo o sonho de muitos garotos pobres, serem deuses num campo de futebol com as arquibancadas cheias de fiéis vibrantes. Muitos vão tentar, mas poucos serão os escolhidos. Os que conseguirem vão ter seus nomes reverenciados por várias gerações, salários polpudos e lindas mulheres em idade reprodutiva à sua disposição. Quem não quer?

Enquanto não chega 2014, que os fiéis se contentem com a exegese da derrota que mobiliza profissionais de diversas áreas, de psicólogos a pais e mães de santo. Pois para nós, brasileiros, ter uma seleção pentacampeã de futebol anestesia o fato de não termos produzido mentes dignas de um Nobel ou de sermos um país também cheio de pobreza e desigualdade. Assim, é mais difícil tratar o futebol de forma mais ou menos racional, como vemos em ‘Futebol sem choro’ (Correio Braziliense, 03/07/2010): apenas um jogo de onze contra onze. Refletir sobre o papel que a imprensa tem na construção da dimensão religiosa do futebol não vai tornar a seleção brasileira melhor, mas pode criar uma cobertura melhor.

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Professor de História, Ponta Grossa, PR

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