Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > JOGOS PAN-AMERICANOS

A revolução cubana e a cobertura da Globo

Por Ivan Pinheiro em 07/08/2007 na edição 445

‘Acrescentam tais notícias que, nas cidades do interior (na área de Sierra Maestra), registraram-se vários atos de sabotagem, inclusive um atentando contra uma escola rural.’ [O Globo, 1º de agosto de 1957 – pág. 9 do Segundo Caderno, 1/8/1007 (sobre atividades da guerrilha em Cuba, comandada por Fidel Castro)]

‘– Ele (Fidel) já se aposentou. Quem manda agora é seu irmão – disse o sapateiro Eduardo Diaz.’ [O Globo, 2 de agosto de 2007 – página 32 do Caderno Economia, 02/08/07 (sobre especulações a respeito de divergências entre Fidel e Raul Castro)

As Organizações Globo comemoram 50 anos de luta sem tréguas contra a Revolução Cubana. Que coerência! A campanha sistemática começou antes mesmo da entrada vitoriosa dos guerrilheiros em Havana, em 1º de janeiro de 1959.

São 50 anos de manipulação. Você consegue imaginar Fidel Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos cometendo atentado contra uma escola rural e, mais tarde, entrando gloriosamente em Havana, recebidos com festa por onde passavam? Você acredita que algum repórter entrevistou o ‘sapateiro Eduardo Diaz’, em Cuba?

Durante este tempo, Fidel já esteve para ser ‘derrubado’ e a economia cubana ‘faliu’ dezenas de vezes. Logo após a queda do Muro de Berlim e da União Soviética, a contagem regressiva do fim do ‘regime cubano’ era acionada o tempo todo. O grande debate era quantos dias duraria a ‘ditadura de Fidel’.

Na cobertura dos Jogos Pan-Americanos não podia ser diferente. Pelo contrário, teria que ser pior. A doença de Fidel aumentou o ódio do imperialismo, ao qual O Globo serve, pois desmoralizou uma mentira repetida durante décadas: sem ele, o socialismo acabaria. Lembram-se das imagens no Jornal Nacional quando do afastamento de Fidel? Os exilados cubanos em Miami fazendo festa e os ‘analistas’ anunciando a derradeira contagem regressiva.

Vôo da ‘debandada’

Foi ridícula a cobertura do Pan pela imprensa brasileira, em especial a da Rede Globo. Só o indomável Fausto Wolff teve a coragem de denunciá-la, em sua coluna no Jornal do Brasil. Não era uma cobertura do Pan, como espetáculo esportivo. Era a cobertura das vitórias do Brasil no Pan! Uma competição indisfarçável com os cubanos pelo segundo lugar nas medalhas.

Quem visse a Globo durante o dia, assistia, em flashes ao vivo, no meio da programação, a todas as vitórias do Brasil. À noite, quando se exibia o quadro de medalhas, muitos de nós devíamos nos perguntar como Cuba continuava na frente do Brasil, se durante o dia não ganhava nada. Só se via cubano ganhando medalha quando o confronto era contra o Brasil e nossas chances eram boas. E não ouvíamos o hino nacional cubano! No caso dos venezuelanos, como seus esportes principais não coincidem com os do Brasil, simplesmente não os vimos ganhar medalhas. Alguém se lembra do uniforme venezuelano? E, no entanto, a Venezuela ganhou 69 medalhas, chegando à frente da Argentina, pela primeira vez na história dos Jogos Pan-Americanos.

A cobertura histérica e ‘patrioteira’ da Globo, no indefectível estilo Galvão Bueno e com os gritinhos de ‘Brasil!’, empurrou a torcida brasileira para um comportamento patético contra os ‘inimigos’. Vaiavam-se atletas estrangeiros até nos momentos em que o esportista precisava concentração, desequilibrando o mais importante dos fatores numa competição: a igualdade de condições.

Mas nada se comparou à mais grosseira das manipulações da Globo no Pan: a ‘debandada’ da equipe cubana no sábado (28/7) à noite. Com duas equipes ao vivo, uma na Vila do Pan e outra no aeroporto do Galeão, a reportagem mostrava os atletas voltando para Cuba, enquanto o repórter informava ao distinto público que toda a delegação estava indo embora, por ordem do governo, porque no dia seguinte haveria uma ‘defecção em massa’.

Ali, a Globo queria ir à forra pela ousadia dos cubanos de chegarem à frente do Brasil. Aproveitando-se de um erro da delegação cubana (não ter deixado alguns atletas do vôlei para receber as medalhas de bronze) e da defecção de três atletas (numa delegação de 520) que aceitaram ser comprados como mercadoria na esperança de ficarem ricos no exterior, a emissora mentiu descaradamente e acabou pautando toda a imprensa no dia seguinte.

O desmentido saiu nas últimas páginas dos jornais de segunda-feira (30/7), em espaço reduzido. Mas o estrago estava feito. A verdade – do conhecimento prévio da ODEPA, do COI e do governo brasileiro – era outra. Como fizeram todas as delegações estrangeiras, inclusive a norte-americana, os atletas estrangeiros chegavam e saiam em função do cronograma dos jogos, na medida que algumas modalidades acabavam e outras iniciavam. O vôo da ‘debandada dos cubanos’, no sábado à noite, era o penúltimo da volta gradual da delegação cubana, que dispunha de um único avião fretado, da Cubana de Aviación.

Critério mais justo

Mas a mentira teve perna curta. No domingo (29) de manhã, a direção da Globo soube que o vôo de sábado não era o último e que haviam ficado quase 200 membros da delegação cubana, para a cerimônia de encerramento. Com todo o aparato técnico e equipes já instalados no Maracanã, a Globo resolveu suspender a transmissão, pois seria impossível esconder, ao vivo, a garbosa delegação cubana desfilando em meio às outras, cena que só pudemos assistir porque a Bandeirantes transmitiu. Aliás, só neste canal conseguimos ver os muitos maratonistas cubanos que participaram da competição no domingo de manhã: a Globo os escondeu!

Quanto às defecções, exploradas de forma sensacionalista, fizeram-me lembrar os milhares de atletas brasileiros que atuam no exterior – como praticamente todos os jogadores de nossas seleções de futebol e de vôlei – e que são vendidos, alguns a peso de ouro, até à sua revelia, como mercadorias, por seus proprietários (empresas, clubes e empresários). Na segunda-feira (6/8), informa-nos a Globo, um jovem jogador gaúcho, aos 17 anos, ainda civilmente menor, foi vendido para a Itália pelo equivalmente a 56 milhões de reais. Lembro também, o que é mais triste, dos milhares de brasileiros que fogem daqui para tentar entrar ilegalmente nos Estados Unidos, com risco de vida, para lavar pratos ou entregar pizzas.

Como brasileiro, estou orgulhoso dos nossos atletas que ganharam medalhas, principalmente os que tiveram que lutar muito para vencer, num país capitalista, mesmo em esportes em que não é preciso ser rico, como iatismo ou hipismo. Quem de nós não encheu os olhos de lágrimas ao ver a fita de chegada da maratona ser rompida por um brasileiro de origem humilde? A primeira coisa que me veio à mente foi a certeza de que o Brasil tem tudo para ser o primeiro lugar em medalhas, inclusive olímpicas, quando tivermos aqui uma sociedade justa, democrática, fraterna, sem a exploração do homem pelo homem, como em Cuba, em que brancos, negros e mulatos, homens e mulheres são rigorosamente iguais em direitos e deveres.

Mas, cá entre nós, como internacionalista, estou muito orgulhoso com o primeiro lugar de Cuba neste Pan-Americano, na frente dos Estados Unidos. Primeiro lugar? Alguém pode perguntar: mas não foi segundo? Não. Um amigo já fez as contas, irretorquíveis, baseadas no critério mais justo: a proporção de medalhas por cada milhão de habitantes.

Cuba, primeiro lugar disparado, ganhou neste Pan 11,25 medalhas por um milhão de habitantes. O Canadá, 4,15; a Venezuela, 2,65. E mais uma vitória do Brasil: com 0,89, chegamos na frente dos norte-americanos, que ficaram na lanterna, com 0,79!

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Secretário Geral do PCB

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/08/2007 francisco lemos barros lemos

    a globo e faustao teve a delicadeza no enceramento do pan de trocar a festa de enceramento pela apresentaçao do calipso.

  2. Comentou em 10/08/2007 Paulo Bandarra

    Caro amigo Marco Antônio Leite. Muito interessante a sua respostas. As deserções, por incrível que pareçam você diz, vão para os EUA! Não seria de esperar que elas fossem aos borbotões e de qualquer maneira para chegar naquela ilha tropical das oportunidades de uma vida digna? Desertar é algo livre. Só em Cuba que ela é proibida! (Como era atrás da cortina de ferro, por sinal, esta a sua motivação para ter sido ser criada)! Existem brasileiros vivendo livremente em vários países do mundo que podem ir e vir, assim, num estalar de dedos! E é tantos que querem ir para os EUA ser motorista de TAXI ou lavar pratos que não dá para todas pessoas do mundo que desejam ir para lá ser explorados! E existem vários estrangeiros no Brasil vivendo livremente e que podem abandonar na hora que queiram! Só não existem pessoas presas ou perseguidas por terem desejado sair do país com os seus recursos! Serem tachados de traidores e usados como símbolos de mais cidadãos! Não existe uma colônia de brasileiros proibidos de retornarem ao país! Grande? Grande é o teu coração, não eu!

  3. Comentou em 07/08/2007 Marco Antônio Leite

    Caro Bandarra, você continua pensando somente com o lado direito do cérebro. Vossa senhoria mora e vive numa democratura civil, na qual oitenta% do povo vive abaixo da linha de pobreza, enquanto uma minoria(onde você se inclui) vive do bom e do melhor. Convém dizer que, para você este sistema é um dos melhores do planeta, pois você não esta nem aí com seus irmãos de jornada nesta vida, a qual na morte todos estarão numa só posição, ou seja, na horizontal e o endereço da moradia será o mesmo, bem como todos exalarão mal cheiro, o mal cheiro dos mortos, somente o urubu tem estômago para isso.

  4. Comentou em 07/08/2007 Marco Antônio Leite

    Suponhamos que o Brasil ficasse na frente de Cuba na quantidade de medalhas de OURO, com certeza, não estaria fazendo nada de extraordinário. Pois, Cuba é uma Ilha com pouco mais onze milhões de habitantes e o nosso potente Brasil é um país continental com mais de 180 milhões de habitantes. Somente a reacionária rede Globo do televisão que entende que este país é a maior potência esportiva do planeta, também com um locutor patrioteiro como o santo Galeão Buenos, o que podemos esperar desse conglomerado de pantomima televisivo, somente palhaçada do PAN, PAN, PAN-naca desses fazedores de alienados mundo afora, inclusive brasileiros. Viva Cuba, viva Fidel e Raul Castro. Viva o povo Cubano que é massacrado pêlos Norte Americanos, mas nem pôr isso aceita ser escravo daquela gente, o Brasil não passa de massa de manobra dos Americanos, que mandam e desmandam neste quintal abandonado.

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