Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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FEITOS & DESFEITAS > PCC ATACA EM SÃO PAULO

A situação está sob controle

Por Nelson Hoineff em 16/05/2006 na edição 381

O governador de São Paulo Cláudio Lembo entrou para a História com uma afirmativa que, se pueril, tem uma notável carga emblemática. A situação, é claro, está sob controle dos bandidos há muito tempo. Mas a frase do governador paulista expressa de forma estupenda o que se passa em muitos outros palácios de governo. Seus ocupantes comem brioche enquanto fazem a festa com o soldo da maquina administrativa. Não têm tempo – e muito menos motivo – para olhar pela janela. Se olhassem, poderiam ver a quem obedece a população que paga essa conta.


Não é desde o Dia das Mães que as gentes de São Paulo ou do Rio de Janeiro têm suas vidas organizadas e consentidas por meliantes cuidadosamente cultivados por quem se elege com a promessa de combatê-los. A lei de fato, os códigos de comportamento e os valores éticos são os estabelecidos pelo tráfico desde que o populismo se impregnou nas veias por onde corre a miséria. O comércio, o transporte, as escolas, tudo reza pela mesma cartilha. A ordem social é mantida pelos efêmeros padrões de tolerância do terrorismo urbano. Mas a situação está sob controle – exatamente como o suicida que passa pela janela pode assegurar que até aí vai tudo bem.


Episódio simbólico


A situação está sob controle. O que a mídia tem feito para lembrar à sociedade quem está no controle da situação?


Como exceção, dando destaque a reportagens sérias sobre o crescimento desordenado das favelas, como aconteceu recentemente em O Globo. Como regra, promovendo a pirotecnia da bobagem, elucubrando sobre providências como a necessidade de se desfilar de lenço branco a cada vez que uma presa tem impacto midiático, e por aí afora.


Quando isso acontece, a mídia se transforma numa brava aliada dos malfeitores investidos de mandato político. São eles que historicamente estimulam a criação de núcleos paralelos de poder onde a população não tem nada a perder – mas tem muitos votos a dar.


A submissão ao oficialismo, quando se trata de segurança pública em regiões em guerra civil, como São Paulo ou Rio de Janeiro, é como os lencinhos brancos na orla. Rende a cumplicidade fácil, a rápida impressão do engajamento na ‘luta pela paz’. Gera boas fotos, comparáveis apenas aos expressivos tons cinzentos da marginalidade glamurizada, para deleite das peruas que finalmente podem comentar o que não está nas colunas sociais. A pieguice é a principal aliada do discurso demagógico.


Este, é mais fácil de ser encontrado do que bocas-de-fumo. Enquanto São Paulo ardia, o ex-secretário de Segurança Pública do Rio, Anthony Garotinho, aparecia no programa Canal Livre, da Band, explicando o que se deve fazer para conter a violência urbana. O episódio é carregado de simbolismo. Poucas horas antes, o secretário de Segurança de São Paulo vaticinava que um celular pode ser mais perigoso que uma arma. Pois uma câmera pode ser mais perigosa que um celular.


Explicações de praxe


Quando não está explicitamente na defesa de bandidos de colarinho branco que nos casos mais torpes pagam as suas contas (o que, diga-se, tornou-se menos freqüente na grande imprensa), a mídia come o mesmo brioche assado nos fornos palacianos. Sonega à sociedade brasileira a foto que poderia ser tirada daquela janela, esconde a imagem do que está acontecendo na paisagem urbana do país.


São Paulo vai se acalmar, a Copa do Mundo vai começar e logo depois a campanha eleitoral estará nas ruas. Os veículos vão respeitar a lei eleitoral e eventualmente um candidato ganhará alguns segundos de direito de resposta. As coisas estarão em seu lugar.


Tudo não passou de um susto. São Paulo viveu um espasmo de violência que não mais se repetirá e que será devidamente explicado pelos sociólogos. A população pode ter certeza que está tudo sob controle.

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/05/2006 Elson Alexandre Esclapes

    Tem uma frase do Jean de Baudrillard que não me sai da cabeça desde segunda feira: “O terrorismo é filho da imprensa.” De que adianta terrorismo sem televisão? E apenas lembrando um outro autor francês de que estamos na “sociedade do espetáculo” (Guy Debbord). Pois bem, partindo dessas premissas, parti para o seguinte quadro de hipóteses:

    a)O PCC leu Jean de Baudrillard (ou quiçá fez algum treinamento com Bin Laden?) e decidiu partir para cima da polícia de São Paulo por duas frentes: uma física e outra virtual. Lembrando ainda um outro francês (Lacan), o gozo do PCC esta em desmoralizar a polícia paulista.

    b)Para tanto, se utilizou no primeiro caso do confronto direto, com assassinatos de policiais e revoltas em penitenciárias. Até a madrugada de segunda feira, essa estratégia ainda não causara, por si só o estrago visto na segunda feira.

    c)Durante a madrugada, o PCC manda seus capangas colocarem fogo em ônibus (se é que foram eles), e causam a paralisia do transporte publico – esse sim com capacidade de causar pânico. Enganam-se aqueles que pensam que paulista dá alguma importância se policial é baleado a sangue frio por bandidos.

    d)Espalhando boatos de bombas aqui e ali, e com a ajuda da imprensa local, que ficou mais perdida que cego em tiroteio, noticiando tudo ao mesmo instante, se instalou o caos. Com isso o PCC consegue atingir o maior patrimônio de um sistema de segurança: sua confiabilidade.

    e)Enquanto o governo se esforçava para acalmar a população, todas as emissoras, Globo, Record, Band, etc … derrubaram sua programação para se por a serviço da boataria e do PCC.

    f)Depois ainda vêm a Folha de São Paulo divulgando estatística sobre a percepção da criminalidade um dia depois da segunda feira fatídica. E não me venham dizer que um instituto de pesquisa nunca ouviu falar no conceito de inferência em estatística.

    g)Quando tudo cessa, acusam o mesmo governo que disse que era para ficar calmo e que a situação não era para tanto de ter feito acordo com o PCC. Mas será que não era justamente isso que o PCC queria que se veiculasse, tornando o governo ainda mais frágil?

    h)Não tenho parentes no governo, não sou eleitor do PSDB ou PFL, e tampouco escrevo para defender o governo, que também tem suas culpas.

    Resumindo: segunda-feira, dia 15/05/2006, o dia que São Paulo parou pela boataria alimentada pela imprensa.

    Alexandre Esclapes
    Psicanalista

  2. Comentou em 18/05/2006 Elson Alexandre Esclapes

    Tem uma frase do Jean de Baudrillard que não me sai da cabeça desde segunda feira: “O terrorismo é filho da imprensa.” De que adianta terrorismo sem televisão? E apenas lembrando um outro autor francês de que estamos na “sociedade do espetáculo” (Guy Debbord). Pois bem, partindo dessas premissas, parti para o seguinte quadro de hipóteses:

    a)O PCC leu Jean de Baudrillard (ou quiçá fez algum treinamento com Bin Laden?) e decidiu partir para cima da polícia de São Paulo por duas frentes: uma física e outra virtual. Lembrando ainda um outro francês (Lacan), o gozo do PCC esta em desmoralizar a polícia paulista.

    b)Para tanto, se utilizou no primeiro caso do confronto direto, com assassinatos de policiais e revoltas em penitenciárias. Até a madrugada de segunda feira, essa estratégia ainda não causara, por si só o estrago visto na segunda feira.

    c)Durante a madrugada, o PCC manda seus capangas colocarem fogo em ônibus (se é que foram eles), e causam a paralisia do transporte publico – esse sim com capacidade de causar pânico. Enganam-se aqueles que pensam que paulista dá alguma importância se policial é baleado a sangue frio por bandidos.

    d)Espalhando boatos de bombas aqui e ali, e com a ajuda da imprensa local, que ficou mais perdida que cego em tiroteio, noticiando tudo ao mesmo instante, se instalou o caos. Com isso o PCC consegue atingir o maior patrimônio de um sistema de segurança: sua confiabilidade.

    e)Enquanto o governo se esforçava para acalmar a população, todas as emissoras, Globo, Record, Band, etc … derrubaram sua programação para se por a serviço da boataria e do PCC.

    f)Depois ainda vêm a Folha de São Paulo divulgando estatística sobre a percepção da criminalidade um dia depois da segunda feira fatídica. E não me venham dizer que um instituto de pesquisa nunca ouviu falar no conceito de inferência em estatística.

    g)Quando tudo cessa, acusam o mesmo governo que disse que era para ficar calmo e que a situação não era para tanto de ter feito acordo com o PCC. Mas será que não era justamente isso que o PCC queria que se veiculasse, tornando o governo ainda mais frágil?

    h)Não tenho parentes no governo, não sou eleitor do PSDB ou PFL, e tampouco escrevo para defender o governo, que também tem suas culpas.

    Resumindo: segunda-feira, dia 15/05/2006, o dia que São Paulo parou pela boataria alimentada pela imprensa.

    Alexandre Esclapes
    Psicanalista

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