Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & ESPORTE

A ‘tempestade brasileira’ do surfe

Por Anderson David Gomes dos Santos em 19/05/2015 na edição 851

“Por conta da final do mundial de surfe, não exibiremos a matéria sobre o UFC.” O final do Esporte Espetacular, programa dominical dedicado aos esportes na Rede Globo, deu os sinais da mudança do “segundo esporte do brasileiro”. Em meio à crise do futebol brasileiro após o 7 a 1 na semifinal da Copa do Mundo Fifa Brasil 2014, o surfe desde o ano passado substitui o espaço do “brasileiro com muito orgulho, com muito amor”, como gritavam os torcedores no Rio-Pro no último domingo.

Alguns pesquisadores de esportes no Brasil costumam dizer que aqui há dois esportes no gosto dos torcedores: o futebol e aquele em que naquele momento um brasileiro esteja vencendo. Vivemos mais um desses períodos em que, apesar de não abandonarmos o esporte bretão, é outro que ganha o destaque dos noticiários como o que podemos vencer.

Como relembrou o repórter Edson Viana ao longo da transmissão da final da etapa brasileira da Liga Mundial de Surfe, a reação da torcida, e aqui destacamos também dos meios de comunicação, já foi assim com Ayrton Senna na Fórmula 1, com Gustavo Kuerten no tênis, mas também com Acelino “Popó” Freitas no boxe, com Daiane dos Santos na ginástica, dentre outros casos que se destacam mais especialmente quando o futebol passa por momentos de crise, caso atual.

Ainda que a “Brazilian Storm” (“Tempestade Brasileira”), nome que batiza a atual geração de surfistas brasileiros nas competições mundiais, venha sendo mostrada há alguns anos no mesmo Esporte Espetacular a partir do reality show Nas ondas…, ninguém imaginaria a um ano assistir ao vivo em TV aberta minutos da final de uma etapa do mundial de surfe, ainda que ocorrendo aqui no Brasil.

Projetos sociais e exemplos de vida

O título mundial inédito de Gabriel Medina no ano passado, esperado algumas etapas antes do final, garantiu a visibilidade e o patrocínio para colocar um esporte tradicional no litoral brasileiro nas telas da TV aberta por mais tempo. Ainda que não faça tanto sentido nesta temporada, devido aos maus resultados do atual campeão, o Nas ondas do campeão tem espaço nos programas esportivos da Globo e também nos jornalísticos.

Não se sabe o que ocorreria caso Medina não conseguisse o título que se avizinhava desde o início da temporada passada. Confesso que temia sobre os efeitos disso, já que o foco era enorme, com direito à cobertura em tempo real nos sites esportivos locais, materiais nos programas de TV sobre o andamento das últimas etapas e, no caso de Pipeline, derradeira delas, cobertura maior, com presença de celebridades brasileiras na praia.

A temporada deste ano, com títulos de brasileiros em três das quatro etapas da liga e, no momento, com os dois líderes do ranking mundial nascidos no Brasil, demonstra algo que os grandes grupos de comunicação perseguem: diminuir a aleatoriedade em comentar bens culturais, que estão ainda mais presentes quando se trata de uma prática esportiva.

Assim, se não tem Gabriel Medina na busca de títulos, há Adriano de Souza e/ou Filipe Toledo para justificar a opção por dar ainda maior espaço na temporada para o surfe, com direito a matérias clássicas para atrair a emoção, caso de projetos sociais desenvolvidos através do surfe e exemplos de vida envolvendo crianças que têm como sonho encontrar seus ídolos. Algo que, dos esportes radicais, o skate, com nomes como Bob Burnquist e Sandro Dias, não conseguiu, apesar de ter também grande popularidade entre os jovens brasileiros.

O surfe na crista da onda

A confirmação das expectativas sobre a “Brazilian Storm” chegou no momento em que a aposta de “segundo esporte” anterior caiu. O UFC vem perdendo espaço nos últimos anos no Brasil, especialmente por conta de Anderson Silva, principal nome das Artes Marciais Mistas (MMA) do mundo, que perdeu seu cinturão de peso médio após longos anos; fato seguido pela fratura na perna na luta seguinte; e, o pior, a acusação de doping no início deste ano – crise esta refletida na organização, que “perdeu” outro grande nome por atividades fora do octógono, John Jones, preso por atropelar uma grávida nos Estados Unidos. Ainda que José Aldo siga com seu cinturão dos pesos penas – e traga uma origem pobre, artifício usado para gerar matérias emotivas –, o impacto vem sendo grande e a busca por novos nomes que atraiam a atenção no Brasil segue.

Dos esportes coletivos, justo o que tinha uma estrutura mais equilibrada e, consequentemente, com resultados mais frequentes, perdeu-se em acusações sobre mau uso do dinheiro da publicidade. Ainda que os resultados não tenham mudado tanto, os problemas na administração do vôlei brasileiro podem gerar uma queda de interesses sobre o esporte.

Assim, o momento é do surfe estar na crista da onda (desculpem, o trocadilho). Não nos assustemos que, mesmo que as etapas da liga mundial de surfe dependam das condições naturais, na etapa brasileira da temporada do ano que vem ouçamos Galvão Bueno narrando a final, como fez na estreia do UFC na Globo. Para o segundo esporte mais querido dos brasileiros num dado momento, como é o surfe atualmente, basta que um brasileiro ao menos siga vencendo e esteja na disputa em 2016.

***

Anderson David Gomes dos Santos é professor da Universidade Federal de Alagoas, jornalista e mestre em Ciências da Comunicação

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem