Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A tragédia como espetáculo e a função da mídia

Por Clary Milnitsky Sapiro em 11/11/2008 na edição 511

As tragédias gregas, segundo Aristóteles, não eram vistas com pessimismo, mas sempre com um fim educativo – já que, se os personagens eram moralmente cegos, pelo amor ou ódio; enfim, pelas paixões, o coro marcava os fatos repetindo e descrevendo os aspectos emocionais e psicológicos das tramas do cotidiano. O coro tinha a missão de representar uma voz coletiva; a voz do público personagem. ‘Na origem, representa a polis, a cidade-Estado, ampliando a ação para além do conflito individual; […] o coro da tragédia grega não se perde nesta concepção: ele funcionava sempre como um espectador ideal que se responsabiliza pelo equilíbrio das emoções e pela moderação dos discursos’ (ver aqui).

Segundo Schlegel, entre outros, o coro tinha várias funções: era personagem da peça; fornecia conselhos, exprimia opiniões, colocava questões, e por vezes tomava parte ativa na ação. Ao coro competia também criticar valores de ordem social e moral e, tinha ainda o papel de representar a voz da opinião pública, reagindo aos acontecimentos e ao comportamento das personagens como o dramaturgo julgava que a audiência reagiria se estivesse no seu lugar. O objetivo era levar a platéia (o público) a refletir (não a repetir – ou cansar da repetição). É possível uma analogia entre a função do coro na tragédia grega e a mídia brasileira do nosso cotidiano?

Quero crer que a mídia já exerce – consideradas as devidas proporções de abrangência de público – a função do coro na tragédia grega. Repete, destaca elementos importantes do drama, sugere um valor moral. Faltam, ainda, elementos cruciais para conferir-lhe o valor que tem inerente. Um elemento é a vigília permanente à sua função social educativa.

Público e ator

Na sociedade contemporânea, os jovens não prestam mais contas de seus afetos somente aos seus ‘diários’, suas turmas, suas famílias: não são mais ‘Romeus e Julietas’ no sentido de suas paixões ficarem restritas a um nível de privacidade que os auxilie na elaboração de suas escolhas e experiências em busca da própria identidade. A começar pelos sites de ‘relacionamento’ (relacionamento?): a rejeição ou o ‘apaixonamento’ são vividos no espaço virtual e público; mais do que isso: são potencialmente globais. Lindemberg Fernandes Alves, um jovem rejeitado na sua paixão, Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, uma adolescente sentindo-se mais mulher e valorizada por negar um pretendente, Nayara da Silva, 15 anos amiga fiel que participou como atora, intermediando a reprodução das lendas das paixões de amor e ódio.

E a mídia televisa? Exerceu sua função educativa de coro funcionando ‘como um espectador ideal que se responsabiliza pelo equilíbrio das emoções e pela moderação dos discursos’? Ou exacerbou os conflitos psicológicos de todos os personagens cegos que só enxergaram (ou temiam – no caso do pai de Eloá) a sua própria ‘visibilidade e exposição’. Isso vale para os maus e os bons, os virtuosos e os pecadores.

Será que esvaziamento do cuidado com o ser humano, em detrimento da seqüência de fatos ‘ao vivo’ com foco nos personagens principais, justifica ‘o coro interminável’ de dados fragmentados, sem um fio condutor responsável e educativo?

Que valor, além da banalização do respeito aos jovens, da solidariedade, da vida (de todos os envolvidos) e demais valores requisitos básicos à convivência social – essa mídia/coro educa ou sugere quando joga luz às tragédias do cotidiano?

Com o drama de Santo André, percebe-se claramente que a mídia pode responsabilizar-se não somente pelo tom do espetáculo, mas funcionar sempre como um espectador ideal (pois é público e ator) responsabilizando-se pelo caráter educativo da informação: o equilíbrio das emoções e a análise comprometida de todos personagens. Condutas humanas fundadas em valores mais nobres advirão da possibilidade de reflexões críticas como parte de nosso cotidiano.

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Phd, pós-doutora pela University of California at Berkeley em Psicologia Educacional e Desenvolvimento Sociomoral, professora na UFRGS e pesquisadora em Construção de Valores, Adolescência Identidade e Violência

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