Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

FEITOS & DESFEITAS > CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA

A TV que faz o que quer e bem entende

Por Teresa Leonel Rocha Leonel em 09/09/2008 na edição 502

Quem fiscaliza a TV? Por que uma novela de 21h, cujo horário tem uma classificação específica, volta a ser repetida à tarde, quando boa parte das crianças e adolescentes de todas as idades está em frente à TV?

Prova de que não existe mesmo limite nessa questão de classificação de horário. O exemplo, hoje, é a volta da novela de Manoel Carlos Mulheres Apaixonadas, da TV Globo, dirigida por Ricardo Waddington e veiculada pela primeira vem em 2003.

Escrito para um público adulto, o folhetim traz um enredo complexo, narrações reflexivas, temáticas violentas, com ataques físicos e morais entre marido e mulher, ciúmes além dos limites, traições entre casais e, o que não poderia faltar, cenas de sexo quase explícitas entre os personagens Luciana (Camila Pitanga), estudante de medicina, e o médico César (José Mayer).

Mais uma vez, a sociedade se curva diante do poder da Vênus Prateada e nada reclama ou questiona. Afinal, se considerarmos que a novela é para os brasileiros a mesma representação que o cinema tem para os americanos, entenderemos que esta obra (aberta) é um canal indutor de conceitos, formas e modo de ser de uma sociedade.

‘Nada demais’

Se não questionamos, concordamos com isso. Quando deixamos nossas crianças e adolescentes assistirem este tipo de novela, permitimos que elas vivenciem determinadas situações que podem ser postergadas do universo infanto-juvenil.

Temáticas que podem ser vistas em outro momento de maturidade, absorção e reflexão sobre questões que fazem parte integrante de uma estrutura societária, mas que para as elas são desnecessárias neste primeiro momento.

Ao se veicular o folhetim no horário das 21 horas, pai e mãe têm a opção de recomendar a seus filhos menores de 12 anos que não assistam a tais programações. Contudo, na medida em que esta programação é apresentada às 15 horas, deixa de ser ‘algo demais’ para ser ‘algo comum’ e, conseqüentemente, aceita como ‘natural’, ‘nada demais’ para crianças e adolescentes assistirem. Afinal, é uma programação liberada para ser veiculada às três horas da tarde!

Pais pedem socorro

Hoje, estamos consolidando mais uma vez a morte de uma nova sociedade que vai emergir a partir dessas crianças que apreendem conceitos, regras, normas e forma de ver a vida a partir da maior janela de comunicação: a televisão.

Dentro dela, a construção de novelas que em sua maioria emburrecem, engessam e transformam pessoas em meros espectadores de uma vida sem sentido, ilusória e imaginária. Algo que no cotidiano de muitas pessoas singulares está totalmente fora do contexto.

Repugnantes, também, são as atitudes dos que deixam que isso passe desapercebidamente. Muitos pais estão pedindo socorro e a sociedade de amanhã vai agradecer por isso.

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Socióloga e jornalista, especialista no Ensino da Comunicação Social, professora do curso de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia e Faculdade São Francisco de Juazeiro (BA)

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