Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DO LEITOR > TURMA DA MÔNICA

A velha discussão da patrulha ideológica

Por Emanuelle Najjar em 02/03/2010 na edição 579

O artigo ‘HQ & Ideologia: Violência na Turma da Mônica‘, publicado neste Observatório pelo jornalista Dioclécio Luz, levanta aquela velha polêmica sobre a influência dos personagens na formação da personalidade de seu público-alvo.

Poderia ter passado despercebido, mas não para mim, que fui durante muitos anos uma leitora fiel das histórias da turminha. E admito que fiquei um tanto chateada ao perceber a forma pela qual o assunto foi abordado: sob a ótica extrema do politicamente correto e do patrulhamento.

A seguir alguns trechos relevantes do artigo.

‘A Mônica, porém, não é um caso, uma personagem de gibi. Ela é um símbolo. Milhares de crianças lêem a Mônica. E o que estão aprendendo?

1) as coisas se resolvem na porrada;

2) a regra é olho por olho, dente por dente;

3) o bulling deve ser praticado;

3) a inteligência ou a sensibilidade não devem ser usados para resolver conflitos’.

Visão torta e generalista

‘O outro aspecto a se observar na Turma da Mônica é o abuso dos clichês. Pelo menos três personagens são clichês: Mônica, como se viu, a que resolve as coisas na porrada; Cascão, que odeia água; Magali, a comilona. Antes de tudo, note-se que são clichês negativos. Ninguém da turma é conhecido por ser inteligente, criativo, sensível, cuidadoso, gentil, amável, isto é, por qualidades humanas, por virtudes humanas. Na verdade, temos, mais uma vez, o incentivo ao bulling – esses três personagens trazem consigo motivos para discriminação e para serem agredidos pelos colegas.’

O autor também estabelece comparações com outros HQs, como Mafalda ou Calvin.

‘É importante registrar que Calvin e Mafalda são personagens com fundamentos sociais revolucionários; são filósofos – eles fazem o leitor refletir sobre o mundo, sobre a sociedade, o nosso modo de vida, a política, os costumes, e claro, a relação dos adultos com as crianças. A turma da Mônica não tem nada disso. Essa gurizada é extremamente conservadora e moralista. Reproduzem as tradições, os costumes, as modas e modos sociais, sem questionamentos. Talvez por isso, a violência com que a Mônica lida com os conflitos seja uma prática comum.’

E depois de ler esse texto, restou em mim uma certa irritação. Talvez por ver a infância de toda uma geração sendo dissecada de uma forma tão generalista. Desqualificada sobre um pretexto repetitivo que não traz nada de relevante. E sendo alguém cuja infância foi rodeada por TV e gibis, acho que posso falar por mim mesma.

Apelar para esse tipo de patrulhamento é tratar o público como se fosse uma massa com mente vazia e pronta para absorver tudo que lhe for passado sem qualquer espécie de seleção ou reflexão. Significa desqualificar a educação recebida dentro de casa e na escola e demonizar um trabalho de décadas em favor de uma visão torta.

Estratégia e arrebatamento

Como leitora, lembro muito bem dos serviços prestados em favor de causas sobre a infância como o prevenção ao uso de drogas, importância da leitura, solidariedade, respeito por seus semelhantes, meio ambiente, inclusão e diversos temas sobre família.

O nível de violência apresentado nos quadrinhos de Maurício de Souza sequer chega perto dos seriados japoneses de super-heróis mesmo que a maior parte deles ainda tivesse a lição de moral no fim do episódio depois de aniquilarem de forma brutal o monstro do dia.

Não sei qual o grau de envolvimento do autor nessa história, se ele realmente teve contato com o tema ou foi apenas alguém que deu uma folheada leve, captou os clichês e estereótipos da forma mais simplista possível e resolveu escrever sobre o assunto.

Injusto comparar Mafalda, Calvin e Turma da Mônica quando o público-alvo é outro. É simplista dizer que há condescendência da mídia para com esses quadrinhos simplesmente por sua relevância econômica. Perpetuar o espírito patrulheiro do politicamente correto com as lições de moral típicas é esquecer que há mil e uma formas de ensinar o respeito ao próximo. Questão de estratégia e arrebatamento.

Esquecer disso, sim, é um clichê.

******

Jornalista, São José do Barreiro, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/03/2010 Eduardo Alex

    A articulista trata de um ponto, entre outros, de extrema relevânica: a abordagem sobre o receptor do produto oferecido pela indústria de bens de massa. É curioso como são as coisas em tempos de ideologia aflorada, principalmente por aqueles que se querem progressistas.
    Quando um desses especialistas tratam do impacto das mensagens dos mais diversos produtos da cultura de massas sobre o consumidor, que mais parece um incapaz que sempre será manipulado, não há choque. Mas quando o Bonner chamou os telespectadores de Hommer, foi aquele celeuma! No fim, tratava-se da mesma coisa: ver o receptor como incapaz.
    Não restam dúvidas de que nossa sociedade vive um momento de falta de vontade crítica, de acomodação ante o que lhe é oferecido pela mídia. Contudo, engana-se quem acha que um telespectador, um leitor é uma caixa vazia recebendo ordens de manipulação. A relação é mais complexa. Edgard Morin trata de tal aspecto em seu Cultura de Massas no Séc. XX (Necrose e Neurose). O receptor influencia, e muito, na forma da produção do que lhe é oferecido. Logo, se há Hommer recebendo informação, há Hommer a produzindo.
    O suposto impacto perverso da Turma da Mônica sobre a infância é algo desproporcional – ainda mais quando se apela a Calvin e à Mafalda, como bem frisou a articulista. O lazer não pode ser sempre encarado como algo alienante – Morin também fala disso na citada obra.

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