Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & SAÚDE

A verdade definitiva

Por Paulo Bento Bandarra em 04/02/2008 na edição 471

Embate-se na imprensa no Rio Grande do Sul dois grupos tentando conquistar a opinião pública para impor o seu ponto de vista. De um lado, um grupo unido por uma lista de assinaturas que circulou pela internet para depois chamar a atenção dos jornais. Formados por psicólogos, advogados, antropólogos e educadores (Zero Hora, 22/01) e, estranhamente, com o apoio do Nuances – Grupo pela livre Expressão Sexual e a Marcha Mundial das Mulheres (ZH, 27/01). A nota de contestação compara o projeto à ‘práticas de extermínio’ e de motivação ‘eugenista’.

Mais de uma vez comentei aqui que a nossa imprensa não tem ajudado a sociedade a evoluir, e cometemos os mesmos disparates cometidos em tempos que nem se sonhava com Gutenberg e os seus tipos mágicos viabilizando o jornal, e proporcionando a maior difusão da cultura, informação e desmascarando falsidades.

A celeuma teve início quando souberam por alto, pois todos confessam que não têm a mínima idéia de como se fará a pesquisa, propostas por um grupo de Neurociências da PUC-RS e outro no Departamento de Genética da UFRGS, liderados pelos professores Jader Costa da Costa, pela PUC, e pelo professor Doutor em Genética Médica Renato Zamora Flores. Formularam um plano de estudo para mapearem inicialmente o cérebro de 50 adolescentes presos na Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul (Fase) (ex-Febem) por homicídio. Início de uma linha de pesquisa para averiguar de existe algum sinal diferente no cérebro nestas situações comparados com a população da mesma idade sem problemas.

E aqui que eu vejo a inutilidade da imprensa para a formação de homens melhores do que no passado distante. Veja o caso de Meleto, Ânito e Lícon que acusaram, há 2.500 anos, Sócrates de perverter a juventude a levá-las a desacreditar nos deuses da ‘cidade’ do quais os políticos se serviam para impor a sua autoridade. Hoje ninguém sabe quem foram estes ilustres desconhecidos a não ser por este ato mesquinho de pessoas ignorantes que resultou na morte daquele sábio. Em plena democracia grega. E nem aqueles deuses não servem para outra coisa a não ser piadas.

Galileu foi avaliado pelos cientistas da época e impedido pelo Papa de continuar suas pesquisas sob risco de pena capital, pois o conhecimento seria corrupto para a moral em que se baseava o poder da época. Descobrir mais era mais perigoso do que manter o que já se sabia.

Passado ressuscitado

Numa ressurreição destes instrumentos do passado, na qual dei apenas dois exemplos das centenas da história, um grupo de salvadores e defensores do conhecimento perigoso e danoso de ser revolucionário deseja passar para história como seguidores daqueles da ‘verdade já suficiente’ como as que já foram consideradas nos exemplos dados acima. Ou, como acusaram o mongol Ulugh Begh, o Galileu islâmico, de querer desvendar os segredos de Alá. Portanto, passível de morte. Lembremos que há pouco o laboratório de genética da UFRGS sofreu um atentado quando se colocou fogo criminoso no mesmo.

O que deveria ser uma hipótese pacífica, visto a sua singeleza de proposta, tomou no Rio Grande do Sul as páginas dos jornais tentando mobilizar as pessoas contra tal busca de ampliar o conhecimento. O que não deveria ter ocorrido nem dentro da Universidade, a tentativa de impedir o saber por qualquer meio (Ana Luiza Castro, psicóloga do Juizado da Infância e Juventude de Porto Alegre, não descarta contestar na Justiça ou fazer queixa ao Ministério Público – como, por sinal, foi feito de forma legal com Sócrates e Galileu) de maneira histriônica pela mídia. Levaram para o público leigo através da imprensa com uma falsa e exagerada argumentação: ‘práticas de extermínio’ e de motivação ‘eugenista’! Não é isto o que realmente é um arrivismo desmedido?

As descobertas das formas de como as pessoas adquiriam tuberculose, hanseníase ou febre-amarela proporcionou o seu controle racional anos mais tarde. E a revolta da vacina em 1904 contrasta com hoje ao mostrar o desconforto atual das pessoas pela falta dela, tal a sua função essencial. O paralelo entre a violência e a tuberculose é pertinente em vista das causas sociais envolvidas em ambas.

Imaginar que as idéias possam viver sem o corpo que lhe dá a vida é o que o Dr. António Damásio chama em seu livro do ‘Erro de Descartes’. O erro de uma psicologia que separa o corpo físico biológico do mundo sensível por uma ‘alma’ abstrata que vive independente. Uma psicologia que nada sabe do real, mas alega saber tudo do imaterial. Que tem uma existência autônoma da matéria. Neste caso, o que a antropologia e a psicologia, e claro, Nuances – Grupo pela livre Expressão Sexual e a Marcha Mundial das Mulheres, consideram válido revelar para estar de acordo com as suas alegadas verdades ‘espirituais’. Ao contrário dos pesquisadores, esboçam uma convicção de que será encontrado algo inexoravelmente, mas alegam que este achado deve ser mantido oculto. No entanto, saber se uma doença tem substrato físico ou não é fundamental.

A pesquisa proposta por cientistas da UFRGS e da PUC insere-se neste tipo de luta para desvendar o desconhecido. Sem saber identificar a causa da tuberculose, jamais aquelas pessoas teriam sido curadas, e os milhões de pessoas inocentes que puderam ser protegidas de vir adquirir este mal sorrateiro que veio ser perfeitamente dominado. Todos sabemos que a pobreza, a falta de nutrição adequada, a vida sem meios sanitários proporcionam a existência da doença. Mas nada teria algum efeito se não soubéssemos deste detalhe material, real, palpável, diagnosticável, verificável. Afinal, parece que é óbvio que não é possível se resolver enigmas que não se conhece as causas. Nesta medida que se insere o estudo hora proposto ainda em fase de planejamento. Não se sabe antes (a priori) o que se vai obter algum resultado justamente pesquisando (a posteriori). Se vai se obter algum resultado é ainda uma incógnita, quanto mais um dano alegado. Será um primeiro passo de uma caminhada para tentar atingir o um melhor conhecimento do assunto. Além de prevenir a ocorrência de vítimas inocentes da violência, desprezadas pelos defensores da impunidade, proporcionará uma esperança para os jovens e futuros adultos para não acabarem mortos, presos a melhor parte da vida, ou viverem na marginalidade por não poderem controlar-se. Algo que possa ser descoberto no fim ser tão tratável como os casos neurológicos hoje dominados! Não é possível iniciar uma caminhada sem o primeiro passo.

A psicóloga Karen Edeiweis, Presidente do Conselho Regional de Psicologia do RGS (ZH, quinta-feira, 24/01), manifesta o seu repúdio pelo mapear o cérebro dos adolescentes considerando-se insatisfeita com que se investigue ‘as bases biológicas’ da violência. ‘Questiona os efeitos e as possíveis conseqüências em função de sustentar e tentar um entendimento maniqueísta, reducionista e individualista das questões que envolvam o tema da criminalidade’. Mas como afirmar isto se nem foi colocado em prática e resultaram em algum fruto os dados da pesquisa pretendida?

Sabendo tudo que há para saber

Juntando-se ao grupo dos que temem as descobertas deletérias da ciência para a humanidade, no artigo ‘Miséria social, pseudociência e arrivismo’, pelo psiquiatra Luis Guilherme Streb, que sem nenhum resultado na mão, ataca a pretendida avaliação (ZH, sábado; 26/01). Como médico, ironiza a ciência ao debochar ‘de que serve introduzir adolescentes em tubos de ressonância nuclear para ver os seus cérebros é um disparate em nosso contexto’! É triste verificar que o profissional não conhece o exame (ressonância magnética) e nem para que o mesmo tem sido usado no mundo todo hoje em dia! E conclui o seu artigo: ‘Diante do sarcasmo de um sábio geneticista local, só nos resta concluir que alguns cientistas têm, sim, sua função mental no pé’. Sócrates dizia que ‘só sabia que nada sabia’, e os atuais defensores da verdade já suficiente alegam que ‘só sabem que já sabem tudo que há para saber’!

Lembremos que estes mesmos que atacam o desprezível ‘biologismo’ da mentes foram os mesmos que demonizaram há 50 anos as mães como sendo a causa de todos os males e a fonte de todas as frustrações, todos os vícios e toda a origem dos crimes. Que era proibido proibir, e que propunham tratamentos como a masturbação e o manipular de fezes humanas como fatos salutares do desenvolvimento. Alegaram que a liberação sexual levaria uma sociedade sem crimes sexuais e mais sadia pela eliminação do mal: a frustração sexual promovida por pais castradores e avós anuladores. São os herdeiros das idéias sobrenaturais da origem espiritual do homem sem relação com o mundo material. Os filhotes de deuses que tudo podem vivendo como intrusos em corpos animados alheios!

A psicanalista Rose Gurski, em ‘Os Perigos do Prazer’ (ZH, sexta-feira; 25/01), mostra o outro lado da tese, o resultado por esta busca desenfreada pelo gozo ilimitado sem freios e sem educação! Pois hoje os pais são os culpados por terem dado ouvidos e deixado as coisas correrem como ensinado, tudo pode, nada tem limites, sexo é desenfreado no início da adolescência, não tem limite de velocidade, não tem droga que se recuse, o céu é o limite! Até encontrar uma árvore, uma colisão, uma cadeira de rodas, uma gravidez precoce, uma inseparável dependência de drogas ou doenças incuráveis para amargurar.

Na reportagem especial ‘Não podemos reforçar a exclusão’ com entrevista de Humberto Verona, presidente do Conselho Federal de Psicologia (ZH, 28/01), que confessadamente não conhece a proposta, fica claro que ele não leu e não gostou – uma constante entre os contrários à pesquisa científica. Quem assinou o abaixo-assinado pelo CFP foi a Comissão de Direitos Humanos do Conselho. Além de todos eles desprezarem as vítimas como meros seres descartáveis que foram ‘desintegrados’ pela violência! Um problema que já foi resolvido ‘de per se’ pelos infratores! O que defendiam antes para os pais, permitir tudo sem limites, hoje pregam para o criminoso a mesma solução. Transformar os malfeitores em vítimas e as vítimas em uma questão desprezível!

Mas como ficariam os portadores de epilepsia, os portadores de Grande Mal, os portadores de autismo, esquizofrênicos, psicóticos, depressivos, maníaco-depressivos? Anos de divãs inúteis negando o seu corpo material, tendo que passar anos relatando os sonhos, as relações com a mãe na infância, todas as ‘memórias reprimidas’ que só o terapeuta lembra, para chegar à conclusão final: a mãe é a fonte! Hoje as culpam por não impor limites aos seus filhos por seguirem as ‘modas psicológicas’! Casos que só vieram a ser humanizados apenas pela via farmacológica. Pessoas que puderam passar a dirigir, trabalhar, casar e terem uma vida social. O que ocorreu com os casos de histeria que existiam no século XIX e que Sigmund Freud e Wilhem Fliess alegavam tratar? Passaram para a neurologia e desapareceram como casos para a psicanálise e a psicologia resolver.

Não existe mal maior do que a ignorância, pois nada podemos fazer pelo que não se sabe, ou cultuar relações que não existem na verdade. Descobertas científicas não possuem donos e podem ser usados por todos. A todos é permitido refutar, provar o contrário com um corpo de evidências, ou aprimorar o seu conhecimento com tais informações!

A verdade é que se essas pessoas tiverem alguma alteração neurológica, os métodos de tratá-las atualmente é tão inócuo como se tratavam epiléticos fazendo passes espíritas, psicanálise, tratamentos psicológicos. Nem mesmo o efeito placebo se obterá. Se não aceitarmos o ‘biologismo’, presos pela idéia fantástica, como a do homem valente de Marx, no seu livro Ideologia Alemã, que somos pequenos deuses alheios ao mundo material sensível, evoluindo isolados do reino animal, não trataremos câncer, cretinismo hipotiroideu, tuberculose e muito menos a doença do pânico! E o jornalista como fica numa hora destas?

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Médico

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  1. Comentou em 12/02/2008 Marcelo Ramos

    Ué, sr. Bandarra, quem deseja impedir alguma coisa? O sr. Henrique apenas levantou questões muitíssimo pertinentes, as quais o senhor não respondeu e sobre as quais não falou no artigo. Vou fazer o estilo que o senhor citou, referindo-se ao CFP, ‘não viu e não gostou’, em relação ao seu artigo e não vou me aprofundar no preconceito e desconhecimento gritantes, expressos no parágrafo que contém a seguinte frase: ‘Hoje as culpam [as mães] por não impor limites aos seus filhos por seguirem as ‘modas psicológicas’! Casos que só vieram a ser humanizados apenas pela via farmacológica.’ Quer dizer que a civilização ocidental foi ‘salva’ da psicologia pelos abençoados fármacos? Sr. Como eu disse antes, contento-me em apenas apontar o ridículo de tal frase mas não vou discutí-la.

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