Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > ENTREVISTA / NINA SIMÕES

A versatilidade dos documentários interativos

Por André Deak em 22/03/2011 na edição 634

Nina Simões faz documentários interativos. Webdocumentários. Docufragmentários. O nome não importa, mas ela é uma das poucas pessoas que está pesquisando e produzindo sobre o tema. No dia 23 de março (quarta-feira), ela apresenta via Skype a oficina ‘Documentários Interativos na Era da Convergência’ no Paço das Artes, na USP (mais informações e inscrições aqui). O evento é parte do ciclo de conferências, desconferências e oficinas que a Cidade do Conhecimento organiza em parceria com o Consórcio Pro-Ideal (União Europeia) e o Núcleo de Política e Gestão de Tecnologia e Inovação (PGT) entre os dias 22 e 26 de março, na USP.

Ela também estará em Bristol, no i-Docs, dia 25 de março. O i-Docs é um laboratório/simpósio para o avanço do desenvolvimento dos projetos de documentários interativos. Lá ela irá apresentar o paper Transmedia Storytelling: Immersive and Participatory Stories. Fizemos uma conversa, via Skype, e Nina respondeu também algumas questões por email sobre o tema da oficina.

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Para começar, seria bacana você contar um pouco da tua história, desses anos todos fora do Brasil e um pouco dos projetos futuros.

Nina Simões – Enquanto estudei comunicação social, em São Paulo, trabalhava como publicitária e também fazia parte de um grupo onde discutíamos a necessidade da democratização dos meios de comunicação no Brasil. A grande maioria de nossas reuniões aconteciam na Barra Funda. Estou falando do final dos anos 80 e de toda aquela onda vermelha que levou muitas pessoas a debaterem propostas transformadoras. Aprendi muito durante aquela época, mas na verdade foi através de meu amigo João Kruger, e muitas cervejas, que descobri a campanha política do Geraldo Siqueira, do PT. O pessoal do comitê estava à procura de alguém que coordenasse a campanha – e então saí de uma empresa que vendia anúncios para trabalhar na venda de um candidato. Rapidamente deu para sentir a diferença. A campanhado Gê sempre foi regada a muitas discussões políticas, atividades culturais e muita festa. Naquele ano de 1989, o Lula e o Gê perderam a eleição. Todo mundo ficou muito triste, e eu aproveitei o cansaço pós-campanha e resolvi viajar por um tempo.

Cheguei a Londres em 1990 e no início as coisas não foram fáceis. Eu mal falava inglês e não tinha um passaporte europeu, portanto a minha condição era de estrangeira, sem direito a trabalho legal. As coisas começaram a mudar depois de algum tempo, quando comecei a frequentar reuniões e debates organizados pela Brazil Network, uma instituição social dedicada ao debate das questões sociais e políticas do Brasil. Obter o meu passaporte português (minha mãe é portuguesa) também foi decisivo na minha permanência em Londres, pois em vez de procurar trabalhos como babysitter ou cleaner, passei a estudar produção de vídeos no Goldsmith College e cheguei até a Undercurrents Video Magazine, uma news agency dedicada a produzir vídeos sobre questões sociais, culturais e políticas. Depois da Undercurrents, trabalhei também em produções para o Channel 4 e BBC, onde tive a oportunidade de passar vários meses viajando pela Amazônia e pesquisando o envolvimento da Inglaterra na compra ilegal de mogno na Amazônia.

A experiência teatral com o MST

Em paralelo a estas produções, trabalhei também para a Brazil Network, como editora e coordenadora de eventos. Entre as várias pessoas que participaram de nossas conferências e reuniões, duas foram especialmente marcantes: Hilda de Souza Martinz, do MST, e o jornalista Lúcio Flavio Pinto. Viajei com Hilda pela Inglaterra e Escócia para apresentar um video que editei sobre o massacre de Eldorado dos Carajás e durante nossa viagem ouvi muitas histórias sobre o movimento. Depois disso rolou o doutorado e um novo quadro se abriu… Falo sobre isso depois. No momento, estou prestes a lançar um projeto transmídia que também envolverá o Brasil. Aliás, transmídia é o tema que estarei debatendo durante o symposium i-docs, que acontecerá aqui na cidade de Bristol no dia 25 de março.

Conta um pouco do processo de construção do Rehearsing Reality. De onde veio a ideia? Como foi realizado?

N.S. – Na Inglaterra, é possível você realizar um doutorado prático, ou seja, parte da tese a ser apresentada pode ser em formato audiovisual e o www.rehearsingreality.org foi parte desta experiência. A ideia aconteceu durante uma noite quando fui assistir a uma palestra de Augusto Boal no Soho Theatre, aqui em Londres. Naquela noite, Boal falou sobre as experiências do Teatro do Oprimido pelo mundo e também revelou sua mais nova parceria: O Movimento Sem Terra. A ideia deste projeto era tornar a linguagem do Teatro Forum acessível a vários integrantes do movimento para que eles pudessem utilizá-la como ferramenta pedagógica nas salas de aula e em comunidades do MST.

Eu fiquei particularmente interessada, porque, até então, em todas as minhas visitas a acampamentos e assentamentos do MST, ainda não tinha observado nenhuma atividade cultural além da Mística. Depois da palestra, me apresentei ao Boal e disse que gostaria muito de filmar a experiência teatral com o MST. Isto foi no início de 2001 e até que esta ideia se tornasse uma tese de doutorado, incluindo um documentário interativo, levou algum tempo. Em 2002 ganhei uma bolsa de estudos da Universidade de Artes de Londres e durante dois anos viajei por várias partes do Brasil filmando várias experiências teatrais. Durante aquelas viagens, tive a oportunidade de conhecer e entrevistar muita gente interessante, incluindo o professor Noam Chomsky, que em 2003 estava presente no Forum Social Mundial em Porto Alegre.

Hoje temos várias ferramentas

Quando retornei a Londres tinha muitas horas de filmagem, mas ainda não tinha ideia de como realizar um documentário interativo. Naquela época ainda não existiam as ferramentas e plataformas que existem hoje. Foi aí que descobri o Korsakow System, um software livre que qualquer pessoa pode baixar e trabalhar. Viajei para Amsterdam para uma oficina sobre documentários interativos e durante uma semana com outros 20 cineastas fizemos vários testes com Korsakow. Durante aquela semana, o cineasta Mano Camon ficou interessado em meu trabalho e depois disso o convidei para trabalharmos juntos na edição de Rehearsing Reality.

A edição não foi fácil, pois de alguma forma eu queria realizar um trabalho visual que representasse a linguagem interativa do Teatro Fórum, e o Korsakow e toda a tecnologia da época ainda eram bem fechadas. Trabalhamos muito e especialmente no desenho da barra de navegação. Fiquei feliz com o resultado, concluí o doutorado e desde então estou sendo convidada a apresentar Rehearsing Reality em vários festivais nacionais e internacionais, e em universidades aqui na Inglaterra. A próxima apresentação acontece no dia 29 de março na Universidade de Bristol.

Existem níveis diferentes de interação, desde o processo de participação na construção do roteiro, até na distribuição, no financiamento. Como você entende essas participações? Como seria um documentário completamente interativo?

N.S. – Sim, existem níveis diferentes de interação e esta palavra sempre gera muita confusão na mente das pessoas. Interação e participação são coisas diferentes. Tudo depende de como você quer realizar o teu projeto e do quanto você está aberta para que outras pessoas participem dele. Hoje temos várias ferramentas, plataformas e o remix à nossa disposição, portanto o que precisamos são boas histórias. Com uma boa história, pode-se também ativar uma audiência interessada no tema do teu documentário e estas mesmas pessoas podem eventualmente colaborar de diversas formas em teu projeto.

‘Por que não fazer um documentário interativo?’

O que é um documentário interativo?

N.S. – A palavra interatividade está relacionada a novas tecnologias e ferramentas que são desenhadas para gerar participação dos usuários. Portanto, em poucas palavras, eu definiria o documentário interativo como um convite ao usuário a participar ativamente de um processo de co-criação.

Quais são os maiores exemplos que você conhece hoje de experiências de docs interativos online?

N.S. – Eu gosto muito de Out of my Window, Prison Valley e Pine Point e estou curiosa para ver o resultado de 18DaysInEgypt. Vale a pena lembrar que Out of My Window de Katerina Cizek é um documentário interativo que integra o projeto Highrise, um projeto de quatro anos que só está começando, portanto temos aí uma grande chance de participar de uma escola aberta.

Por que fazer um documentário interativo?

N.S. – Olha, eu acho que com tantas ferramentas e plataformas de distribuição acessíveis, a pergunta deveria ser: ‘Por que não fazer um documentário interativo?’

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Jornalista e editor do www.jornalismodigital.org

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