Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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FEITOS & DESFEITAS >

A vida e a morte na mídia

Por Mônica França em 07/07/2009 na edição 545

O gênio do pop internacional, ovacionado pelo mundo por suas inquietações e inovações artísticas que o colocavam à frente do seu tempo, e que transformou o mercado fonográfico com os milionários vídeo-clips que ditavam padrões estéticos na década de 80 – considerados, inclusive, divisor de águas das produções audiovisuais contemporâneas – foi também a atração número um da mídia.

Este, que foi brilhante nos palcos e arrastou consigo uma legião de fãs em todos os continentes, também preencheu os noticiários com os espetáculos e performances ímpares (como o inesquecível moonwalker que desbancava qualquer imitador despreparado), bem como se tornou foco da imprensa na cobertura dos escândalos sobre denúncias de pedofilia, que o fizeram gastar fortunas com indenizações e fianças, além das diversas polêmicas, ora envolvendo a revelação de que sofria agressões físicas na infância pelo pai, ora pela brancura da pele, cirurgias plásticas e dívidas que o levaram à falência.

Como não seria diferente, após 50 anos de vida (retirando destes 45 só de carreira artística), morre subitamente levantando do túmulo diversas especulações a respeito da sua morte. São tantas as hipóteses içadas sobre o falecimento do astro que não seria improvável aos médicos-legistas confundirem o diagnóstico do resultado da autópsia, ou mesmo errar a causa que aponta para a overdose de drogas, que inevitavelmente causou-lhe uma parada cardíaca.

‘Os piores momentos’

Porém, certeza mesmo, só a cifra que está sendo movimentada no mercado cultural midiático e fonográfico acerca dos tantos assuntos referentes ao astro pop. É assunto que dá para alimentar dezenas de gerações que vierem por aí.

Os jornais estão vendendo a torto e direito, assim como as edições especiais de revistas, CDs e DVDs do músico não param de esgotar os estoques. As TVs, nem se fala. O índice de audiência dispara quando o tema é o cantor. E as rádios tocam suas canções a cada minuto. É uma canção de Michael alternando a canção de outro músico. Desde o trágico dia 25/06, não há espaço suficiente para as notícias referentes ao alastramento da gripe suína no país que está fazendo mais vítimas, nem para a morte da ‘pantera’ Farrah Fawcett que veio a óbito no mesmo dia do ‘Rei do Pop’ e, tão pouco, para a crise instalada no Senado que pede o afastamento imediato do presidente da Casa, José Sarney, devido às recentes descobertas de irregularidades administrativas.

No dia seguinte à morte do ícone norte-americano, como já era de se esperar, lá estava ele mudando a programação habitual dos veículos. Em dado momento, fixei a TV no canal Multishow (a TV paga do grupo Globo) e para surpresa desta que nunca teve o astro pop como ídolo, mas reconhece o trabalho magnífico executado por ele e ressentia o falecimento inesperado, fiquei pasma com a ‘homenagem’ póstuma dedicada pela emissora. O nome do programa, não sei, porque não acompanhei do início, mas se minha memória anda boa tanto quanto minha língua afiada, acima do vídeo tinha em letras brancas garrafais os seguintes dizeres: ‘Os piores momentos da vida de Michael Jackson’.

Conduta apelativa

De arrepiar até mesmo os cabelos implantados do popstar. Um documentário inteirinho dedicado às mazelas da vida do cantor. Parecia até matéria de gaveta, pronta para disparar no momento mais oportuno. Mas justo quando ainda muitos recebiam a notícia da morte do astro e outros tantos faziam vigília para ele ou estavam de luto? O que é que é isso? Haja falta de bom senso.

Não dá para encarar que Michael Jackson viveu apenas de momentos gloriosos, mas destacar apenas os aspectos negativos vividos por este que foi o Rei do Pop, com enxurradas de notícias assombrosas, se não for apelação para atingir altos índices de Ibope, seria o que?

Pelo visto, ninguém está a salvo da conduta apelativa dos meios de comunicação em busca da audiência desenfreada que faça perpetrar o tilintar de suas máquinas registradoras. Nem mesmo quem compromete parte do orçamento mensal em TV por assinatura – onde acreditava ser a escapatória de assuntos vis – está protegido da moléstia midiática.

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Jornalista

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