Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > CICARELLI vs. YOUTUBE

A volta da censura?

Por Vinícius Sacramento em 16/01/2007 na edição 416

Nos últimos dias, além da guerra urbana que toma conta de nossas cidades, observamos que mais um confronto – desta vez judicial – se desenhara: Daniella Cicarelli, modelo e apresentadora da MTV Brasil, resolveu processar o portal Google, dono do site de compartilhamento de vídeos YouTube (www.youtube.com).

Para quem não se lembra, no dia 18 de setembro de 2006, estourou um novo escândalo da ex-mulher do atacante Ronaldo: um vídeo, que mostrava Cicarelli em uma praia espanhola, em cenas picantes e supostamente transando com seu namorado, Renato Malzoni Filho, foi parar no YouTube, compartilhado por um usuário do site. Desde então, milhões de pessoas já viram as cenas e o tal vídeo foi parar até nos camelôs do centro do Rio de Janeiro.

Entramos em 2007, o caso foi parar na Justiça e uma atitude polêmica prejudicou milhares de brasileiros: em decisão inédita, o desembargador Ênio Santarelli Zuliani decidiu mandar bloquear o acesso ao YouTube por parte de brasileiros porque o mesmo não retirou todas as cópias do vídeo da modelo de seu arquivo. Tecnicamente falando, é possível bloquear o acesso a um site para todo um país, através de filtros nos acessos de brasileiros à internet, mas, além de caro, esse processo poderia levar meses, talvez anos.

Reivindicação é justa

Logo as operadoras Telefonica – concessionária de telefonia em São Paulo – e Brasil Telecom – que atua em estados do Centro-Sul do país – instalaram os filtros e seus respectivos usuários se viram impedidos de acessar o site, mesmo que não fossem ver as cenas picantes de Cicarelli e seu namorado. Uma chuva de protestos se formou e até sites na internet manifestaram sua opinião.

Foi criada uma página na rede mundial que incita a opinião pública a boicotar Daniella Cicarelli, não comprando produtos anunciados pela mesma e não assistindo o Beija Sapo, programa de relacionamentos apresentado pela modelo na MTV. O site, assinado por um internauta identificado apenas como ‘Dono da Verdade’, critica a posição da modelo de prejudicar os usuários de internet no Brasil. O site humorístico Kibe Loco, do publicitário Antonio Pedro Tabet, postou uma montagem também convocando as pessoas ao boicote à Cicarelli. Até bem pouco tempo, o site também utilizava o YouTube para postar seus vídeos.

A reivindicação popular é justa. Afinal, vários músicos, comediantes, jovens cineastas e jornalistas utilizam o YouTube para divulgar seus trabalhos, devido ao grande fluxo de visitantes no site. Além do público em geral, que é quem mantém a página nova conferindo e postando milhares de vídeos diariamente. ‘Querendo ou não querendo, quem incluiu o Brasil no time de Irã, Cuba e China (países que censuram a internet sem nenhum pudor) foi o poder judiciário brasileiro’, afirmava a newsletter do portal de imprensa O Jornalista.

Boicote à apresentadora

‘Bloqueio’ é apenas um eufemismo para censura! O ato de cercear a liberdade de visitar sites, considerando seu conteúdo inofensivo, é ferir não só o direito de escolha do consumidor, mas também a liberdade de imprensa e os direitos humanos. A modelo alega invasão de privacidade, mas ela e seu namorado não estavam dentro de sua casa, portanto esse argumento cai. O fato é que se ela não se cuidou e deixou-se filmar por um paparazzo em carícias inapropriadas num local público, como uma praia, o problema é exclusivamente dela, e não do site que publicou o vídeo, nem dos usuários.

Até às 18h da última terça-feira, 9 de janeiro, segundo sua assessoria de imprensa, a MTV já havia recebido mais de 80 mil e-mails criticando Daniela Cicarelli. Em grande parte das mensagens, as pessoas exigiam a demissão da apresentadora em represália à censura do YouTube, ou deixariam de assistir à emissora, aderindo assim ao boicote.

E o boicote continua: diversas comunidades foram criadas no site de relacionamentos Orkut para defender o boicote à apresentadora. Até as 20h30 da quarta-feira (10/1), mais de 300 pessoas haviam entrado nessas comunidades, sem contar os tópicos de outras comunidades que discutiam o assunto.

Antes que seja tarde

Diante da polêmica, foi publicada uma nova decisão judicial, do mesmo desembargador, que anula a primeira e bloqueia o acesso – não, ao YouTube por inteiro, mas apenas ao polêmico vídeo de Daniella Cicarelli e Tato Malzoni. As operadoras desbloquearam em parte o acesso ao YouTube e os protestos começam a diminuir. Segundo o site Consultor Jurídico (www.consultorjuridico.com.br), a nova decisão manda ‘restabelecer o sinal do site YouTube, solicitando que as operadoras restabeleçam o acesso e informem ao Tribunal as razões técnicas da suposta impossibilidade de serem bloqueados os endereços eletrônicos’.

Porém, é hora de refletir: hoje bloqueiam um vídeo, amanhã podem bloquear uma reportagem, e depois, um programa, uma emissora; se não reagirmos logo, quando nos dermos conta já será tarde demais para rompermos novamente a barreira da censura no jornalismo e no entretenimento dos brasileiros.

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Estudante de Jornalismo, Queimados, RJ

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