Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DE EXAME

A apologia do consumo e do caos

Por Danilo Pretti Di Giorgi em 20/11/2007 na edição 460

Qual seria o significado de ‘moderno’? Como seria um ‘país moderno’? Depois de ler a edição especial de 40 anos da revista Exame de outubro, cuja capa gritava ‘1967-2007, a construção de um país moderno’ – mas que para mim apresenta idéias ultrapassadas –, resolvi recorrer ao dicionário. Na minha busca, o sentido que mais se aproxima do que imagino que o editor da revista tenha tentado transmitir é o que traz a idéia de contemporaneidade, de atualidade.

A capa é ilustrada com uma montagem de fotografias daqueles prédios de vidro escurecido, de arquitetura futurista, edifícios normalmente pouco eficientes energeticamente, com pouco aproveitamento da luz solar e lacrados de forma a tornar essencial o uso constante de aparelhos de ar condicionado e luzes artificiais. Modernos?

Com as informações de que dispomos hoje sobre a crise ambiental, em especial do clima, ‘moderno’, no meu entender, é pensar um novo mundo, onde o ser humano consiga reconstruir suas idéias e sua forma de vida para alcançar uma nova relação, mais benigna, com o planeta. Reduzir a demanda por energia e o consumo são essenciais para atingir essa meta.

EUA, o objetivo

Mas o pessoal que fez a revista não parece pensar assim. A palavra ‘moderno’ é repetida incontáveis vezes nas reportagens, sempre associada à proliferação de automóveis e shopping-centers, à explosão do consumo e ao inchaço das cidades. Monstruosidades como a Grande São Paulo, um aglomerado insustentável de 18 milhões de seres humanos, são colocadas como prova de que o Brasil está indo no caminho certo. De que o país saiu de uma economia ‘agrária, atrasada e fechada (…) para transformar-se numa economia moderna e relevante para o mundo’.

No final da matéria principal (e só ali), em um breve parágrafo, são espremidas as dívidas sociais do país. Detalhes como a fome, a violência, a vexaminosa concentração de renda e uma taxa de analfabetismo superior à média da América Latina não podem atrapalhar uma festa tão bonita e luxuosa do Brasil ‘moderno’. Por falar nisso, a Daslu, claro, é citada como prova do sucesso do nosso modelo de país.

Toda a lógica das reportagens especiais pode ser resumida na idéia de que a felicidade humana mora no consumo, no crescimento do poder de compra e em quanto um povo é capaz de comprar bens supérfluos (aliás, a palavra ‘supérfluo’, que fazia muito sucesso antigamente, parece agora ter saído de moda. Sinal dos tempos). Os Estados Unidos, ‘a sociedade de consumo por definição’, são colocados como objetivo a ser alcançado por nós, brasileiros.

Apenas textos editoriais

A esta altura você pode estar se perguntando como eu poderia esperar algo diferente de uma revista de direita. Tem razão, e eu não espero. O que quero, voltando à questão colocada no início do texto, é questionar o conceito de ‘moderno’, usado pela revista para defender o aumento da produção e do consumo e a transferência das pessoas do campo, para que se acumulem nas cidades e sejam substituídas por máquinas.

Como podem os responsáveis pelos textos daquela revista ignorar a realidade que nos cerca a todos, eles incluídos? Como podem propor como ideal para o futuro que todos os povos atinjam o padrão de consumo dos norte-americanos, quando se sabe que isto é impossível? É do conhecimento de todos que não dispomos de recursos naturais para tanto.

A Exame, assim como a revista Veja, transformou-se, já há alguns anos, numa revista editorialista. Não existem mais reportagens; apenas textos editoriais reafirmando a forma de pensar do Grupo Abril. Uma reportagem recente da Veja também comemora, ignorando a questão ambiental, o recorde em 2007 na venda de carros (2,5 milhões) e de celulares (50 milhões).

Como resolver o enigma

O que seria do mundo se todo habitante adulto dirigisse seu próprio carro? Que seria do Brasil e de outros países marginalizados se chegássemos às taxas norte-americanas de quase um carro por habitante? Do ar? Do trânsito?

Fico em dúvida se este pessoal realmente ainda não entendeu a gravidade da situação ecológica ‘moderna’ ou se estamos lidando com hipocrisia pura. Chego à conclusão, ao ler, na mesma edição, uma reportagem orientando os empresários sobre as formas de aplicação mais eficientes de seus programas sócio-ambientais, que a ficha não caiu. A responsabilidade ambiental é vista apenas na sua casca, apenas como forma de melhorar a imagem da empresa, sem reflexão sobre seu real sentido e sem aprofundamento no tema.

Existe um abismo, em textos de um mesmo veículo de comunicação, entre a defesa do ambientalismo como ideal, de um lado, e a defesa de atitudes que vão contra os princípios que mostram ser realmente efetivos na batalha contra o descontrole climático, de outro. Isso é comum não apenas nas páginas de revistas reacionárias, mas dentro de nós mesmos.

Também não é fácil lidar com a situação para aqueles entre nós para os quais a ficha já caiu, para quem já entendeu a gravidade da situação e sabe que não há outro caminho a seguir que não o de uma mudança radical nos hábitos, costumes e formas de nos relacionarmos com tudo o que nos rodeia no planeta. Como resolver este enigma vivendo dentro de um sistema ainda baseado nas formas ultrapassadas – para alguns, modernas – de lidar com a realidade que nos cerca é um enigma cuja resposta deve ser encontrada por cada um, numa busca dentro de si mesmo.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/11/2007 Edward Wilson Martins

    Excelente artigo… !! Lembro de um livro que li na faculdade (ainda o tenho na minha estante), ‘A Utopia ou a Morte’, de René Dumont, lá se vão 30 anos, onde se denunciava o consumismo, a destruição dos recursos naturais, que são finitos, até a exaustão, seguindo o modelo norte-americano e europeu, de consumo. Naquela época vivíamos mais centrados e entusiasmados na possibilidade da utopia, de o mundo não se tornar esse caos que estamos vivendo hoje. Havia essa esperança. Durante todos esses anos, fomos massacrados pela propaganda consumista, consumir mais, para produzir mais, para gerar mais empregos, mais crescimento, numa lógica absurda e destrutiva, confirmando a profecia de René Dumont, daquela época. E esse quadro se agrava com a explosão demográfica, sem controle, sem planejamento, principalmente entre a população pobre. Profundamente lamentável que uma revista de grande circulação nacional dissemine idéias tão retrógradas, mofadas, superadas e ainda as apresente ao público leitor como sendo ‘modernas’. Sorte, que ainda tenhamos o OI para denunciar essas mazelas da imprensa, que só pode ser explicada pela ignorância ou pela corrupção, ou pelas duas coisas ao mesmo tempo.

  2. Comentou em 23/11/2007 Edward Wilson Martins

    Excelente artigo… !! Lembro de um livro que li na faculdade (ainda o tenho na minha estante), ‘A Utopia ou a Morte’, de René Dumont, lá se vão 30 anos, onde se denunciava o consumismo, a destruição dos recursos naturais, que são finitos, até a exaustão, seguindo o modelo norte-americano e europeu, de consumo. Naquela época vivíamos mais centrados e entusiasmados na possibilidade da utopia, de o mundo não se tornar esse caos que estamos vivendo hoje. Havia essa esperança. Durante todos esses anos, fomos massacrados pela propaganda consumista, consumir mais, para produzir mais, para gerar mais empregos, mais crescimento, numa lógica absurda e destrutiva, confirmando a profecia de René Dumont, daquela época. E esse quadro se agrava com a explosão demográfica, sem controle, sem planejamento, principalmente entre a população pobre. Profundamente lamentável que uma revista de grande circulação nacional dissemine idéias tão retrógradas, mofadas, superadas e ainda as apresente ao público leitor como sendo ‘modernas’. Sorte, que ainda tenhamos o OI para denunciar essas mazelas da imprensa, que só pode ser explicada pela ignorância ou pela corrupção, ou pelas duas coisas ao mesmo tempo.

  3. Comentou em 23/11/2007 Marco Antônio Leite

    Modernismo é termos um povo educado, culto, com saúde, casa própria, emprego, salário decente, entre outras modernidades na área social. Modernismo, é termos um classe política que trabalhe em prol da sociedade pôr inteiro, roubem o mínimo e, que os ladrões do colarinho passado cumpram cadeias pesados, igual aos bandidos do colarinho amarrotado. Isso é modernidade, prédio assim ou assado não ganha jogo, só beneficia meia dúzia de “malacos” e espertos!

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