Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO ESPORTIVO

A arte de não dizer nada

Por Rodrigo Teixeira em 18/03/2008 na edição 477

Infelizmente, há uma grande realidade na imprensa esportiva brasileira: a de que é impossível assistir a uma partida de futebol sem que dois ou três jogadores, além do técnico e árbitros da partida, sejam entrevistados.

Essa busca eterna por depoimentos dos atletas que entram em campo parece ser parte apenas do culto às celebridades que a nossa sociedade de massa enfrenta. Obviamente ninguém está interessado no que esse atleta irá falar, pois, devido à nossa realidade, a maioria dos atletas de futebol tem origem humilde, iletrada e, portanto, a falha na organização de simples frases é notória. O uso de expressões como ‘Graças a Deus a gente venceu’ ou ‘O grupo está sempre unido’, ‘O importante é respeitar a ordem do professor’ e a já consagrada ‘…sempre respeitando o adversário’ torna o ato de assistir a entrevista de um jogador de futebol uma atividade extremamente previsível.

Na TV a cabo, nos canais exclusivos de esportes, é possível dedicar mais tempo ainda a este passatempo, como as incansáveis entrevistas coletivas após os jogos. Nesse caso, são os técnicos que necessitam responder às mesmas perguntas feitas por repórteres de diversos meios. Nesse caso, é louvável a atitude de Muricy Ramalho, que sempre aparece nesse evento de forma amorosamente rabugenta e após a segunda ou terceira pergunta ele se irrita com as mesmices de sempre e passa a utilizar respostas secas e curtas.

A clássica pergunta-padrão

Estamos sofrendo o efeito Big Brother, onde pessoas comuns são alçadas ao status de celebridades sem fazer absolutamente nada e após saírem do programa viram pessoas importantes e capacitadas a aparecer em comerciais, julgar concursos, participar de programas e outras atividades. No caso do futebol, é preciso saber e valorizar o talento dos atletas dentro das quatro linhas, mas saber que fora delas muitos não têm capacidade para serem surpreendidos com as perguntas mais simples possíveis.

Entrando no site globoesporte.com, é possível, por várias vezes ao dia, perceber que, da maioria das manchetes encontradas na home do portal, efetivamente poucas são notícias concretas; a maioria se baseia em trechos de declarações de jogadores e técnicos, além de fofocas sobre namoros, flagras em baladas, acidentes e dramas de familiares, como o que apareceu nesta semana na primeira manchete (‘Namorada de Robinho quase é barrada na chegada a Espanha’), o que, convenhamos, não é efetivamente uma notícia sobre esporte.

Resumindo, será que alguém consegue lembrar de algum jogador, além de Rogério Ceni, que consegue numa entrevista dizer algo que valha relativamente a pena ser respondido? Se não, deveríamos fazer igual aos campeonatos europeus. Já viu na véspera de qualquer partida do velho continente aquela aglomeração de repórteres em campo? E aqui, na comemoração de títulos, onde os boleiros entre abraços e choros junto aos companheiros têm que responder à clássica pergunta-padrão: ‘Qual a importância de conquistar este título?’ E lá vai mais uma seqüência de frases batidas…

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Profissional de marketing, São Paulo, SP

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