Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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A classe média, a mídia e seus umbigos

Por Flávio Herculano em 22/07/2008 na edição 495

A classe média brasileira só olha para o próprio umbigo. Fechada em suas salas de jantar, ou mesmo durante seus passeios ao shopping, está sempre ligada na fatura do cartão de crédito, na taxa de juros do CDC, no aumento do plano de saúde… Em seus momentos de maior drama, volta-se aos inconvenientes do dia-a-dia em sociedade, inconvenientes que afligem sua família ou que apenas pairam sobre suas cabeças, como uma ameaça permanente.

Nesse caso, haja reclamação quanto à violência urbana, trânsito, inflação e por aí segue. Dramas que estão longe do campo das ideologias ou do existencialismo. Afinal, na selva cotidiana, somos obrigados a nos voltar para as preocupações mais primitivas: a busca do alimento (leia-se ‘grana’) e a nossa própria sobrevivência. Natural que seja assim.

O curioso é que a mídia toma para si as dores dessa classe média, focando-se nos problemas de uma única parcela da sociedade. Com isso, esquece que existem outros dramas, até maiores, que por esta própria dimensão tornaram-se banais. De tão freqüentes, de tão presentes, não são mais notícia. De modo contraditório, são problemas que, por serem grandes, tornaram-se invisíveis.

Outra leitura

Aí, me refiro aos problemas que afligem os pobres e miseráveis. Tráfico, pequenas chacinas, truculência policial, fome. Problemas que só ganham visibilidade quando descem o morro e, justamente, se chocam com a classe média, afetando diretamente algumas famílias e pairando sobre a cabeça de outras.

Quanto à pauta da mídia, podemos perceber que, exceto pelos escândalos de corrupção, ela está sempre voltada para a classe média. É o aniversário de 10 anos de queda do edifício Palace II, o assassinato de jovens da classe média por policiais despreparados, a morte de Isabella Nardoni, o caos aéreo e, novamente, segue a lista.

Sob o olhar da classe média, podemos ter outra leitura destes fatos: a insegurança para investir em um bom apartamento, mesmo que ele esteja na Barra da Tijuca (Palace II); a ameaça que ronda os nossos ambientes, vestida em farda do Estado (violência policial); a desestruturação da família, que é o pilar de apoio a todo cidadão (caso Isabella); e a insegurança que compromete o nosso direito de ir e vir (caos aéreo).

Não há espaço para reações

São dramas que não causariam a mesma comoção caso o caos tomasse conta de rodoviárias país afora; caso Isabella fosse negra e pobre; caso mostrassem policiais subindo o morro, torturando e matando; ou se divulgassem cenas dos barracos que são soterrados por encostas e que desabam em dias de chuva. Nestes casos, as classes A e B, público-alvo dos maiores anunciantes da TV, não se identificariam.

Ao chocar-se com os fatos que pautam a mídia, o brasileiro médio não apenas lamenta pelos personagens do drama em questão. Ele se vê na possibilidade de um dia também ser vítima. Em seu medo, sente-se indignado contra as autoridades, que não tomam qualquer providência para evitar que estas tragédias do cotidiano se alastrem até ele e sua família. Mas engole sua indignação, assistindo passivamente à notícia na TV. Afinal, em nossa selva cotidiana, não há espaço para grandes reações, mas apenas para batalhar pelo pão e rezar pela própria vida.

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Jornalista, Palmas, TO

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