Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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A Guerra dos Mundos nas chamas de Moema

Por Mauricio Pontes em 27/05/2008 na edição 487

Entardecer de 20 de maio de 2008. Na TV, chamas, fumaça, desencontro de informações. Mais um acidente aéreo terrível atingiu o coração de São Paulo, causado pela irresponsabilidade, pela insensibilidade e pelo descaso com a vida humana. Só que desta vez o acidente não existiu; ele foi produzido inexplicavelmente pela mente fértil e ágil de alguém no interior de uma redação, que, ingênua ou levianamente, levou ao ar a notícia do acidente inexistente com o requinte de nomear a companhia pseudo-acidentada. E não foi qualquer um: aconteceu no maior canal especializado em notícias da TV fechada, despertando a reação em cadeia típica de alguns veículos on line.

Uma mídia que às vezes parece desejar o pior produziu e extinguiu um acidente que deixa, sim, conseqüências irreparáveis: é possível imaginar a angústia dos familiares de passageiros que voavam naquela companhia no momento da divulgação; dos profissionais que nela trabalham; dos demais profissionais de aviação, tão castigados por dois terríveis acidentes e dois anos de crise aérea; e da credibilidade de uma imprensa que às vezes se mostra infantil, despreparada para o potencial de suas novas e velozes ferramentas, obcecada pelo furo a qualquer preço e despreocupada com a ‘barriga’.

Aprendizado e seriedade

Os desmentidos, como de costume, não mereceram muito espaço. De uma hora para outra, o acidente aéreo desapareceu, como por mágica. Deixou de ter existido. Ah, se o mesmo tivesse ocorrido com os dois desastres anteriores… Mas a realidade naqueles casos foi mais impiedosa e eles não eram erros jornalísticos. Ironicamente, no último acidente com uma empresa aérea brasileira, os veículos entraram ao vivo, sem dimensionar a gravidade da tragédia. Falou-se, inicialmente, de um pequeno avião, de um incêndio em uma aeronave vazia em um hangar de manutenção e tantas outras versões desencontradas foram ao ar, enquanto repórteres passavam pelo constrangimento de buscar frases de efeito para descrever o que estava acontecendo. Hoje, felizmente, eis que no lugar do acidente aéreo surgiu um incêndio em uma fábrica de colchões, sem vítimas fatais, mas sem que mais se explicasse e dispersando a cobertura. Em menor escala, para quem teve acesso aos primeiros informes e não à errata, era Orson Welles narrando dramaticamente a Guerra dos Mundos ao vivo na TV e na web – e em Moema.

Os breves instantes em que a notícia esteve no ar, replicada por tradicionais portais de notícias (estes inserem e retiram instantaneamente suas manchetes; o dramático ‘parem as rotativas!’ deu lugar ao inconseqüente ‘subam o novo post!’) foram duradouros e angustiantes para quem estava envolvido com a operação em Congonhas naquela hora, passageiros ou funcionários. É bem verdade que diversos veículos ponderaram e esperaram antes de seguir na mesma onda, evidenciando que o bom-senso ainda acompanha os bons profissionais.

Mas, voltando aos apressados pessimistas, o que acontece nestes casos? A mesma imprensa cujo papel é inestimável ao fiscalizar a democracia e a seriedade das instituições, conhecerá o valor da autocrítica, será capaz de praticar um mea culpa, de apurar responsabilidades em suas próprias fileiras e de transformar erros em lições? Que as conseqüências venham na forma de aprendizado, de reflexão, de qualidade e de mais seriedade de quem tem o dever de informar; não, de trazer o terror para nossos lares e corações.

Um singelo desabafo.

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Gestor de crises e especialista em segurança de vôo

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