Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > REDE GLOBO

A hegemonia da líder e a anarquia midiática

Por Robson Terra em 10/06/2008 na edição 489

A turbulência que o novo tempo midiático promove na história da Rede Globo de Televisão é sintomática de um novo posicionamento estratégico de dominação. Com a competência de seus profissionais e a influência histórica junto aos detentores do poderes Legislativo e Executivo, que ela ajuda a eleger ou cassar, a vulnerabilidade ainda não se consumou, embora os novos índices de audiência sejam preocupantes.

Enquanto ela continua a dar direção e união à sociedade, promover a escalada de valorização de referências da cultura brasileira em sua programação, a estabilidade está garantida. O seu conteúdo promove subliminarmente o abalo das instituições, apresentando policiais idiotas, famílias desestruturadas, padres comilões, professores aloprados, universidades anárquicas, e reforça a estratégia de demolição de valores com a história do Brasil contada no Fantástico pelo autor Eduardo Bueno de forma irreverente, mas com o aval global de Pedro Bial, a versão pós-moderna de Chacrinha, o velho guerreiro. Eduardo anarquizava e Bial era a consciência.

Se a revisão dos artigos 220 a 223 da Constituição Brasileira, indefinidamente adiada por ‘forças ocultas’, for aprovada, as telefônicas, grandes anunciantes da TV, poderão gerar conteúdo e entrar na concorrência direta com as emissoras brasileiras. Aí se instaura o caos. Concorrência na produção de conteúdo e fuga de anunciantes. Essa reestruturação estratégica de poder conta com o apoio e prestígio do governo que empurra a regulamentação da produção de conteúdo em câmara lenta.

Claro que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi a melhor solução para a emissora, que pretendia ver eleito o candidato da oposição Geraldo Alckmin. Mas com o poder de influência que detém, mandou dois recados sintomáticos no dia da eleição para presidente, em 2006. Na ‘Temperatura Máxima’, exibida na hora da eleição, exibiu o filme O Náufrago, no qual Tom Hanks interpreta um homem que sofre um naufrágio e vive só, por quatro anos, em uma ilha deserta. Na madrugada, com o resultado da eleição definido em favor de Lula, ressuscitou o clássico Os dez mandamentos, de Cecil B. Mille, onde Moisés recebe as tábuas da lei de Deus. Mais metafórico, impossível.

‘Plim-plim’ não seduz como ontem

Na viagem sem destino do navegar aleatoriamente, as salas de bate-papo, vídeos no YouTube, os sites sobre música, quadrinhos, compras, postagem de fotografias, revistas, sexo e jogos, jogos e mais jogos, no entretenimento digital, o usuário da internet abandona a tela da Globo, aos poucos, buscando outras formas de lazer, fantasia e/ou informação.

A democratização da tecnologia de mídia faz de cada cidadão o próprio gerador de discursos e o tempo despendido em ver as fotos ou postar nos fotologs promove uma revolução na geração de imagens sem a imposição ditatorial da emissora A ou B. Todo mundo é mídia. A anarquia midiática não tem limites.

Jovens não querem mais ver TV. Querem ser donos do seu próprio universo de meios e mensagens. Além dos atributos de pesquisa da informação para as tarefas escolares, o jovem, muito ligado à tecnologia, busca novas tribos na net e é aceito no convívio social como alguém que está por dentro e inserido no contexto cultural pós-moderno. As comunidades são consideradas as grandes formas de interação do mundo digital onde os iguais se identificam além do mar. E o pior se vizinha, pois as pesquisas indicam que a terceira idade está vencendo o medo do computador. E todas as saudades estão disponíveis na internet.

E, encerrando com Gabriel Priolli, ‘há, portanto, um novo receptor, e não mais uma única emissora. O público se lança em todas as direções, percorrendo as várias opções, detendo-se alternadamente no que mais o toca e atrai’. De forma sintética, pode-se dizer que, hoje, a Globo enfrenta de um lado, novas maneiras de ver TV e, de outros, novas maneiras de fazer TV. O ‘plim-plim’ não seduz como ontem. Mas ainda não é o ‘fim-fim’.

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Jornalista e professor, Juiz de Fora, MG

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