A história do filho-da-sogra | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
Menu

FEITOS & DESFEITAS > TELEJORNALISMO

A história do filho-da-sogra

Por Paulo José Cunha em 20/05/2008 na edição 486

Quando digo aos meus alunos que redobrem o cuidado com as declarações dos outros, falo com conhecimento de causa. Nada como a experiência para a gente aprender a botar as barbas de molho. Agora puxe uma cadeira, escute este causo e diga se não tenho razão.

No início dos anos 80, saí para fazer uma matéria leve, dessas boas pra encerrar telejornal. Era repórter do DF-TV e comemorava-se, acho que pela primeira vez, o Dia da Sogra. Toda vez que pintava uma pauta curiosa como essa lembravam-se de meu incorrigível bom humor. Ainda bem, porque eu me divertia adoidado.

Claro que o tom da matéria foi o de pôr abaixo o preconceito contra as sogras, essas eternas injustiçadas. A partir da pauta, colhi boas declarações de amor às sogras. Ouvi o desabafo de algumas sogras contra o injusto preconceito de que são vítimas. Produzi imagens de sogras aos beijos com genros e noras. A matéria estava ficando uma beleza. Mas faltava o ‘algo mais’ que faz a diferença. Precisava de declarações de rua, mais espontâneas, pessoas se manifestando abertamente sobre as sogras. Fui à luta.

‘Pensei que estava brincando’

‘Povo fala’ em Brasília só pode ser feito num ponto que fica entre a rodoviária e o Conjunto Nacional, o mais antigo shopping da cidade. Ali no calçadão é um dos poucos lugares da cidade onde junta gente. Cheguei lá e armei o circo. Informava que era uma matéria sobre o Dia da Sogra, e pedia que dissessem o que achavam de suas sogras. Choveram manifestações de carinho e afeição, que preconceito idiota, minha sogra é uma santa, acho isso um absurdo, está mesmo na hora de se acabar com essas gozações com elas, pessoas maravilhosas… E vai por aí. Até aparecer uma senhora que encarou a câmera e o microfone da TV Globo e declarou: ‘Minha sogra? Aquilo é uma jararaca!’

Fiz mais algumas entrevistas, umas imagens de cobertura, juntamos a tralha e fomos editar a matéria, que foi ao ar no DF-2, o telejornal local noturno da Globo-Brasília.

No dia seguinte, ao chegar para trabalhar, encontro o prédio da Globo cercado pela polícia e uma advertência: mandaram avisar que use a entrada lateral porque ‘tem um camarada aí querendo te pegar por causa da matéria de ontem, a da sogra’.

Gelei, mas fui em frente. Os policiais me deixaram conversar com o tal cidadão, mas me recomendaram que eu ficasse atrás do balcão da entrada e não passasse para o outro lado em hipótese alguma. Não se sabia o que podia acontecer. Assim foi feito. O sujeito, brabo como diabo, dizia que era da Polícia Federal, filho da sogra e marido da nora que havia chamado a mãe dele de ‘jararaca’. Ameaçava partir pro pau, até porque a mãe, ao assistir a matéria na noite anterior, havia passado mal e fora internada com uma bruta queda de pressão. Lamentei, mas disse que se alguém tinha culpa não era eu nem minha editora, mas sim, a mulher dele, autora da declaração. Imediatamente ela apareceu ao lado do marido, soltando os cachorros. Calma-calma, calma-calma. Perguntei se ela não sabia que aquele microfone era da Globo. Respondeu que sabia. Perguntei se sabia o que havia declarado. Confirmou. Perguntei se sabia que o que se fala a um microfone, principalmente um microfone identificado, é uma espécie de autorização para ir ao ar. ‘Ah, não, isso não! Eu pensei que o senhor estava brincando…’

O impacto da declaração

Não deu para segurar o riso, fato que elevou ainda mais a tensão. A cena era kafkiana. O marido, filho da sogra ofendida, ficou ainda mais irritado. Ameaçava processar todo mundo, inclusive ‘esse tal de Roberto Marinho’, dizia que ia mandar prender, cozinhar nós todos em azeite quente, baixar o cacete, o diabo.

Resumo da ópera: eu e a editora do DF-TV, Fátima Gomes, pedimos sinceras desculpas. Sugerimos que ao serem abordados por um repórter medissem melhor as palavras. A direção da TV resolveu enviar à sogra um buquê de flores com um cartão onde eu escrevi um pedido de desculpas pela besteira… da nora dela. E demos o caso por encerrado.

Por falar em encerrar, o caso encerra uma lição. Aprende, Paulo José, aprende para nunca mais esquecer: para não levar um tiro por causa da besteira de uma nora desajuizada, deve-se avaliar muito bem o impacto que uma declaração – seja ela de quem for – pode causar a outras pessoas. Juridicamente, uma pessoa adulta é a responsável pelos seus atos, e responde por eles. Mas até conseguir convencer um filho-da-sogra enfurecido que você não tem culpa pelas declarações da mulher dele, o melhor é entender de uma vez que sogra também é mãe, e merece respeito. Que telejornalismo não é a casa da sogra, onde qualquer declaração pode ser editada e colocada no ar. E que tem sempre algum filho-da-sogra solto por aí, doido para te dar um tiro na cara.

******

Jornalista, escritor e professor de telejornalismo na UnB

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem