Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > MULHERES EM PAUTA

A imprensa e as primeiras-damas

Por Ligia Martins de Almeida em 01/07/2008 na edição 492

‘Ela conseguiu. Poucas vezes se viu tanta unanimidade. Jornais, rádio, televisão, ao informar que perdemos Ruth Cardoso, destacavam, em primeiro lugar, sua atividade profissional: `Ruth Cardoso, antropóloga´. Em seguida vinha a informação de que era mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A identificação era relativa à sua carreira, aos livros que escreveu, às pesquisas que fez, a seu trabalho como professora. E tudo convivia plenamente com o carinho pelos filhos, os netos e a vida como companheira constante do marido.’ (O Estado de S.Paulo, 29/06/2008)

O artigo de Eva Blay (cientista social, militante feminista, professora da USP e ex-senadora) dado no Estadão foi absolutamente preciso ao analisar a cobertura da imprensa sobre a morte de Ruth Cardoso.

Em meio a dezenas de artigos – até editoriais – sobre o papel da antropóloga que deu nova dimensão ao cargo de primeira-dama, o texto de Eva Blay merece destaque não apenas por fazer o comentário da mídia, mas por ser uma voz feminina falando da mulher que foi um dos mais belos exemplos de discrição e competência neste país, especialmente entre as que ocuparam o posto de primeira-dama:

‘Competente, discreta e avessa à visibilidade pública, não se deixou vencer pelo poder nem pela sina anti-republicana de que esposas de presidentes cuidam da caridade estatal. Compreendeu o espaço de criação política que se abria com a posse de Fernando Henrique e o desafio que lhe tocava quanto a quebrar rotinas e inovar. Ruth criou o Comunidade Solidária para substituir a prática do assistencialismo estatal por uma prática moderna de distribuição de conhecimentos e valorização da cultura e do capital social da própria população pobre.’

Um trabalho diferenciado

A leitura do artigo de Eva Blay torna-se mais interessante ainda no momento em que os jornais começam a relevar o perfil das candidatas a primeira-dama nos Estados Unidos, com direito a escândalos familiares e comentários sobre roupas e estilo pessoal.

Do lado republicano, aparece Cindy, ‘uma belíssima milionária’. A belíssima milionária (18 anos mais moça que o candidato John McCain) já mereceu perfil na sofisticada revista Baazar, falando de sua origem, da fortuna familiar (ela é herdeira da maior distribuidora de cerveja dos EUA) e até de vícios superados (foi dependente de remédios, chegando até a cometer atos ilegais para consegui-los).

Mas, para a imprensa brasileira, o significado que a loira representante da elite norte-americana terá na Casa Branca – no caso do marido ser eleito – tem pouco interesse. Interessa mais a figura da ex-mulher, protagonista de uma trágica história pessoal: vítima de um acidente de carro, deformada fisicamente, acabou abandonada pelo marido e trocada pela jovem rica que impulsionou a campanha política do ex-piloto da Marinha.

Do lado democrata surge Michelle Obama, a jovem negra nascida num bairro pobre de Chicago, advogada de sucesso, formada por duas importantes universidades norte-americanas. Para a imprensa brasileira, Michelle é notícia pelo porte e pelas roupas que veste. Em Veja (edição nº 2067) é mostrada em fotos, comparando-a com Jacqueline Kennedy e Sara Jéssica Parker. ‘Não é coincidência – diz a revista – ‘que as roupas de Michelle tenham um arzinho de Sarah Jéssica Parker, além das evidentes referências a Jacqueline Kennedy, ícone supremo de elegância. Michelle tem um tremendo senso de estilo, mas evidentemente recebe ajuda profissional para se vestir como o que almeja ser: primeira-dama.’

A leitura dessas matérias – as sobre Ruth Cardoso e as mulheres dos candidatos norte-americanos – nos fazem concluir que as mulheres precisam ser muito especiais para merecer um tratamento diferenciado por parte da imprensa. Enquanto foi primeira-dama (denominação que ela abominava), Ruth Cardoso deixou a mídia numa posição difícil: fazia um trabalho diferenciado e não dava margem a comentários sobre suas roupas, maquilagem, fofocas e outros detalhes sobre mulheres que parecem ser o tema predileto da imprensa quando o assunto feminino está em pauta.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/07/2008 EDSON CARRILHO

    O senador Pedro Simon (PMDB-RS), membro titular da comissão de
    Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal, lamentou na
    quinta-feira (10/7) a decisão judicial que proíbe o governador Roberto
    Requião de fazer críticas durante a programação da TV Paraná Educativa. As
    opiniões do governador do Paraná têm gerado altíssimas multas por parte da
    Justiça como forma de intimidação. “Tudo isso é lamentável. Volto a dizer
    que um governante que expõe e discute as ações de governo num programa de
    TV é exemplo para o País. A exposição e discussão dos projetos e
    pensamentos do governador Requião são importantes e a TV Educativa deve
    sim ser utilizada para fazer este debate e para mostrar as realizações do
    Governo do Estado”, destacou Simon. Pedro Simon, que é bacharel em
    Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade
    Católica de Porto Alegre, pela Faculdade de Direito de Roma (Itália) e
    Universidade Sorbonne de Paris (França), sustenta que está havendo um
    exagero da Justiça em relação ao governador Roberto Requião. “Não é o que
    ocorre, por exemplo, no Rio Grande do Sul, onde a governadora se expressa
    livremente, onde a imprensa não tem o mesmo tipo de comportamento da do
    Paraná, que a todo instante nega o direito de defesa do governador

  2. Comentou em 01/07/2008 luiz reis

    Peço desculpas por eventual insensibilidade para a ocasião, mas por que a Dona Ruth foi levada pela mídia a um patamar de excelência tal que nunca vi antes? Será que não é apenas uma tentativa de fazer comparação com a atual primeira-dama de forma velada? Não reconheço na figura da ex-primeira dama a figura ímpar de que tanto a mídia falou… se era assim tão espetacular e o marido a ouvia em todas as situações, conforme a própria mídia nos induz a aceitar, porque o governo do marido foi tão ruim para a classe mais pobre? Em minha modestíssima opinião tratava-se de mais uma aristocrata de gabinete que achava que sabia o que era melhor para os desfavorecidos sem nunca ter pisado em uma favela ou região pobre deste país. Tal e qual o marido. Nunca passou necessidade e sabia dos sonhos e desejos dos pobres por meio de pesquisas científicas e estudos à distância da realidade. Tal e qual o marido.
    Desculpem-me a eventual ilação a respeito de D. Ruth, mas é meu entendimento à respeito dela e de outras figuras ditas intelectuais mas que jamais irão alcançar o nível de conhecimento sobre as necessidades do povo pois durante o dia passam suas horas em bibliotecas e escritórios e à noite vão para suas mansões, distantes em metros e realidades da maioria da população.
    Reconheço a necessidade do conhecimento e luto diariamente por isso, mas não aceito a tal discriminação da mídia.

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