Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > CRISE ALIMENTAR

A imprensa e o debate dos biocombustíveis

Por Paulo Bento Bandarra em 17/06/2008 na edição 490

A leitura do artigo do jornalista Luciano Martins Costa,’A lavoura que a imprensa não vê‘, estimulou este comentário.

A nossa mídia, na medida em que é nacionalista, puxa a brasa para a nossa opção de ter feito o biocombustível de etanol tirado da cana de açúcar. E não tem analisado a questão de forma isenta pensando em todas as possibilidades que um assunto desta importância deve ter. Aceitamos atacar a opção norte-americana do uso do milho como fonte energética com a idéia de que esta fonte compete com os alimentos derivados do milho. Existe a falácia de que o milho será tirado da mesa e que o açúcar, fonte de vários alimentos importantes, não seria. Na verdade, quem planta irá abandonar os alimentos pelo que pagar mais. Não existem diferenças de terras para alimentos ou para biocombustíveis. Quem decide isto é o investidor e o plantador. E ele fará a opção que melhor remuneração (retorno financeiro e segurança no investimento) for dada. Seja milho, beterraba, girassol ou cana de açúcar.

Mais vida animal e vegetal

A opção atual brasileira para o álcool veicular (anidro) é oriunda da moagem da cana de açúcar e o uso do refugo na queima em usinas, visto seu restolho ser muito fibroso e pouquíssimo nutritivo. Existe a co-geração de energia através da queima do bagaço de cana. O biodiesel, fabricado a partir de fontes renováveis (girassol, amendoim, soja, mamona ou gordura animal), é um combustível que emite menos poluentes que o diesel. Neste caso, claramente compete teoricamente com os alimentos e as suas áreas. Para aumentar sua competitividade, os custos de produção do biodiesel podem ser minimizados através da venda dos co-produtos gerados durante o processo de transesterificação, tais como a glicerina, adubo e ração protéica vegetal. Os derivados do milho já estão presentes em sabonetes, cosméticos e loções pós-barba, a pasta dental e a graxa dos sapatos, o giz, a tinta e materiais adesivos.

O que ocorre com a cana, que produz alimentos da mesma forma que o milho, é que ela é transformada em álcool, produz o vinhoto poluente e seu bagaço é queimado em usinas de geração de energia. Ou seja, a produção agrícola toda vai direto para a combustão. Toda a energia e toda a formação de produtos orgânicos gerados pelas plantas viram CO2 imediatamente após o seu uso. Mas se compararmos com o milho, que produz igualmente álcool, a sobra da retirada do açúcar para fermentação dos grãos é toda matéria orgânica que será transformada em proteína animal pelo uso da ração. Além de virar proteína animal, de alto valor alimentar e sempre escassa no mundo, seus dejetos serão devolvidos à natureza como adubo animal, fertilizando pastos ou plantações. Sendo, portanto, produtos orgânicos reinvestidos no ambiente gerando mais vida animal e vegetal. Ou aproveitados em biodigestores. Um caminho melhor do que a devolução maciça de CO2 na natureza.

Discurso nacionalista

Entre queimar carvão e petróleo para gerar energia, claro que seria melhor usar o bagaço de cana. Mas entre queimar esta matéria orgânica e transformá-la em uma cadeia de geração de vida biológica, integrada até na alimentação de proteínas para consumo humano, claro que a segunda é menos poluente e produz subprodutos melhores e mais integrados à pirâmide alimentar da vida. Quanto mais retardarmos a volta do carbono à atmosfera, melhor para a natureza.

O manejo da agricultura, portanto, deve ser a base do que deve ser plantado e incentivado, como ocorre com a agricultura em geral. Não plantamos arroz em detrimento do feijão, ou criamos gado abandonando os suínos. Assim, creio que não se pode abandonar a opção do milho, girassol ou outras sementes pensando em alimentos, mas sim, pensar em produção suficiente para todas as necessidades. Que, no futuro, deverá suprir também as necessidades da indústria de derivados de petróleo com matéria-prima como tintas, vernizes, plásticos etc.

A imprensa, que aceita o discurso nacionalista dos biocombustíveis, deve lembrar que já fomos auto-suficientes em carros zero movidos a álcool no passado, mas somos até hoje importadores de trigo. Que importávamos arroz da Tailândia enquanto arruinávamos financeiramente os nossos produtores de arroz no país. Não transformamos milho para produzir etanol, mas importamos milho para alimentação, que, mesmo assim, não produzimos nem perto do suficiente.

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Médico, Porto Alegre, RS

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