Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > CORRESPONDENTE DE GUERRA

A linha tênue entre a informação e a propaganda

Por Sarah Piasentin em 20/11/2007 na edição 460

Estava eufórica quando entrei no prédio azul da rua Rego Freitas, perto da Consolação, no centro de São Paulo. Oito meses em Portugal me possibilitaram conhecer muitas pessoas, mas quis o destino que fosse apenas no Brasil que eu encontrasse um dos profissionais que escreveram a história recente da TV portuguesa.

Carlos Fino é correspondente de guerra. Ex-jornalista da estatal RTP (Rádio e Televisão de Portugal), hoje é conselheiro de imprensa da embaixada de Portugal no Brasil. Um nome que dispensa apresentações aos brasileiros que acompanharam pela TV Cultura as entradas ‘em directo’ de Fino, que estava em Bagdá desde o começo da Guerra do Iraque, em 2003.

Fino não quis dizer palavras desconhecidas aos convidados, mostrou-se bastante familiarizado com o idioma ‘brasileiro’, mas não escondeu sua origem lusitana. Passando sua experiência aos estudantes de Jornalismo, alertou sobre os ímpetos que muitos têm de dar ‘furos’, o que pode ser a causa da eliminação de um correspondente.

O português deu uma definição interessante sobre a correspondência, dizendo que ela é ‘esquizofrênica’, algo que se situa na tênue linha entre a informação e a propaganda. Concordo com ele. A informação é parte importante da guerra, e não se pode publicar tudo que dizem os multilaterais discursos inflamados.

Há vida fora das redações

Das muitas provocações e respostas, um ditado português ficou gravado: ‘em tempos de guerra não se limpam armas’. Arrisco dizer que em tempos de entrevista não se baixam canetas.

Fino mostrou sua habilidade como jornalista, através de seus gestos medidos e palavras escolhidas com a sabedoria do que a troca de um ‘sim’ por um ‘talvez’ pode fazer. Mesmo que tenha devolvido seu registro profissional aos portugueses, afirmou que é um repórter entre parênteses e confessou: ‘O jornalismo é a melhor profissão do mundo.’

Nosso convidado contava suas ‘estórias’ como se fossem um filme. Uma passagem lembrou-me Hemingway, em um texto que fala de um jornalista que quis mostrar a seu país o terror em Madri, sem sequer ter saído à rua. Ouvindo os relatos, eu tentava imaginar aquele senhor de terno com um microfone nas mãos, no meio do deserto, reportando a Lisboa as últimas notícias de mais um dia de ataques.

‘As jovens gerações podem ser tentadas a olhar para as imagens que vêem nas televisões desses conflitos armados como se fossem um mero jogo de vídeo, não se dando conta dos altíssimos riscos que as situações do terreno implicam’, disse Carlos Fino. A tecnologia tem avançado muito. Desde a Guerra do Golfo em 1990 e até os conflitos atuais, as coberturas de ataques estão realmente cada vez mais parecidas com joguinhos de computador. Que os jornalistas de hoje e os ‘repórteres do futuro’ não se esqueçam de que há vida fora das redações e dos quartos de hotel.

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Estudante de Jornalismo da Universidade Mackenzie, São Paulo, SP

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