Domingo, 15 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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FEITOS & DESFEITAS >

A mancada jornalística do século

Por Mauricio Stycer em 26/05/2009 na edição 539

O New York Times de segunda-feira (25/5) publica a notícia que um repórter e um editor do jornal tiveram informações quentes sobre o escândalo de Watergate dois meses antes de Bob Woodward e Carl Bernstein darem início, no concorrente Washington Post, à série de reportagens que iria resultar na renúncia do presidente Richard Nixon. A ser verdade o que é relatado, trata-se da maior mancada jornalística da história.

Robert Smith, ex-repórter do Times, resolveu falar depois de saber que o ex-editor Robert H. Phelps incluiu a história em seu livro de memórias, recém-publicado. Segundo Smith, em 1972, dois meses antes da invasão do prédio Watergate, ele almoçou com o então diretor do FBI, L. Patrick Gray, que revelou detalhes explosivos do caso, envolvendo o procurador-geral John Mitchell e dando dicas da ligação da Casa Branca com o escândalo – relacionado a levantamento irregular de fundos para a campanha eleitoral de Nixon e o posterior encobrimento ilegal do caso.

Smith conta que voltou voando para a sucursal do Times em Washington e contou tudo que ouviu para seu chefe, Phelps, que tomou notas e gravou a conversa. A partir daí, a história começa a ficar estranha.

No dia seguinte, Smith deixou o Times e seguiu para a Universidade Yale, para cursar Direito. E dias depois, Phelps partiu para uma viagem de descanso de um mês no Alaska. E o que foi feito com as dicas dadas pelo diretor do FBI? E as anotações? E a gravação? São perguntas que o jornal faz hoje. As respostas são nebulosas.

Outro significado

‘Não tenho idéia’, responde Phelps, hoje com 89 anos. Ex-colegas que ele entrevistou afirmam não ter conhecimento da história. ‘Foi, provavelmente, culpa minha’, ele diz. Smith conta que, durante o almoço com o diretor do FBI, ouviu que o Partido Republicano cometeu ‘truques sujos’ durante a campanha para a eleição de Nixon.

‘Ele (Gray) me disse que o procurador-geral estava envolvido no esforço de esconder o caso.’ O então repórter lembra-se de ter perguntado: ‘Chega até onde? No presidente?’ Segundo Smith, Patrick Gray olhou para ele e não respondeu. ‘Sua resposta estava no seu olhar’.

Escreve o New York Times de segunda-feira (25): ‘Se os relatos dele (Phelps) e de Smith estão corretos, o Times perdeu a chance de sair na frente na grande reportagem da sua geração’.

Outro significado da revelação é que não apenas Mark Felt, o número 2 do FBI, estava passando informações para jornalistas (em 2005, ele revelou ser o ‘Garganta Profunda’, que abasteceu Woodward durante o escândalo), mas também o número 1 da agência estava revelando segredos sobre o caso.

A reportagem do New York Times sobre esse caso surreal pode ser lida aqui.

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