Sábado, 25 de Abril de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 18 - nº 847

FEITOS & DESFEITAS > CRIME NA MÍDIA

A morte de um dentista

Por Alexandre Cruz Almeida em 17/02/2004 na edição 264

A gente abre o jornal e lê a notícia: ‘Policiais matam dentista’, e já ficamos condoídos: meu deus, que mundo é esse em que nem os dentistas estão a salvo da violência?!

Lendo a reportagem, entretanto, alguns fatos novos vão surgindo.

Primeiro, o dentista era negro, o que foi provavelmente a causa dos disparos. Um rapazinho loiro do bairro paulistano de Higienópolis teria merecido o benefício da dúvida antes de ser sumariamente assassinado. Como afirmou o pai da vítima, ‘se estivesse escrito ’eu sou dentista’ em sua testa, hoje ele estaria vivo’.

Segundo, o dentista negro não era dentista. Sim, o rapaz era formado em Odontologia. Aliás, um dos detalhes humanos mais vulturinamente explorados pela imprensa é que ele tinha se formado somente cinco dias antes da tragédia.

Ora, formado em Odontologia não é dentista, assim como formado em Direito não é advogado. Quem se forma em Odontologia é bacharel em Odontologia, quem se forma em Direito é bacharel em Direito. Dentista é quem atua profissionalmente como dentista. Advogado é quem atua profissionalmente como advogado. A obtenção do diploma é somente um pré-requisito para ser dentista mas, por si só, não faz de ninguém dentista.

Resta então uma enorme dúvida: por que a imprensa bate tanto na tecla de que ele era dentista?

Importância intrínseca

Falemos sinceramente. O jornal está pendurado na banca, você está passando atrasado para o trabalho e vê de relance a manchete ‘Rapaz da periferia é morto por PMs’. Você pára para ler? Claro que não. Você ainda pensa: ‘Caramba, só falta agora noticiarem que ’chuva cai e molha tudo’!’ e segue viagem, apertando o passo.

Uma manchete dessas não chama atenção de ninguém. ‘Filhote de elefante nasce prematuro’ seria mais bombástico que isso.

Uma manchete mais precisa poderia ser ‘Rapaz negro é morto por PMs’. Afinal, ser negro foi o que presumivelmente fez ele levar os tiros.

Gostaria de pensar que a manchete não foi essa para evitar a aparência de preconceito. Mas não foi isso, não. Essa não foi a manchete porque, também, não seria notícia. ‘Polícia mata mais um negro, e daí? O filhote do elefante está passando bem?’

Então, se era para usar um critério descritivo que nada tem a ver com os tiros em si, por que não experimentar manchetes como ‘PMs matam rapaz de camisa azul’ ou ‘Asmático é morto pela PM’?

Mas nada disso é notícia.

O único modo de criar a notícia é fazendo o rapaz parecer mais importante do que é. O que equivale dizer que sua importância intrínseca de ser humano, cidadão e filho não vale absolutamente nada.

Os PMs teriam concordado em gênero, número e grau.

De quem é a culpa?

Por um lado, a culpa não é dos PMs, que ganham um salário de fome, têm um treinamento insuficiente e uma taxa de mortalidade maior que a de um homem-bomba palestino. Poucos soldados de forças regulares do Ocidente já estiveram em mais combates do que um PM médio do Rio e São Paulo.

Alguém mal pago, mal treinado e mal equipado, patrulhando território hostil, é naturalmente arisco. Atira por qualquer coisa e pergunta depois. Sabe que os bandidos também atiram primeiro.

Por outro lado, a culpa também não é da imprensa. A imprensa é o termômetro da sociedade. A imprensa não quer dominar as mentes dos leitores ou impor sua ideologia: em geral, a imprensa só quer vender jornal.

Os profissionais do jornalismo sabem que, certo ou errado, lamentável ou louvável, a manchete ‘rapaz negro da periferia é morto por PMs’ não vende jornal. ‘Dentista é morto por PMs’, vende.

Preconceito racial é terrível, mas preconceito social é pior ainda. O rapaz morreu por ser negro e, agora, a imprensa o está matando de novo.

Flávio San’Ana não era dentista, mas não ser dentista não deveria ser demérito algum. Não ser dentista não deveria tornar ninguém cidadão de segunda classe. Não ser dentista não deveria aumentar as chances de um contribuinte ser morto em um encontro casual com os membros uniformizados da força policial encarregada da segurança das ruas.

Culpar a imprensa é atirar no mensageiro. Será que estaríamos discutindo essa questão se a manchete, o tempo todo, tivesse sido apenas ‘Rapaz negro da periferia é morto por PMs’?

A culpa é de todos nós.

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Colunista da Tribuna da Imprensa; mantém o blog Liberal Libertário Libertino <http://www.liberallibertariolibertino.blogspot.com/>; e-mail <cruzalmeida@sobresites.com>

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