Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA EM DEBATE

A necessidade de uma nova imprensa

Por Gilson Caroni Filho em 02/10/2007 na edição 453

O deputado federal Ciro Gomes (PSB) foi certeiro ao definir a importância do holofote no comportamento político da oposição, em entrevista concedida à revista Imprensa, em dezembro de 2005. Em meio a crises que pareciam anunciar novos retrocessos político-institucionais, o então ministro da Integração Nacional diagnosticou com precisão:

‘Eu participo da vida pública brasileira há 30 anos e é a primeira crise pautada por garotos alucinados por aparecer na televisão. E eles estão tocando a República! Eu acompanho a CPI, vejo parlamentares que olham para a câmera e dizem: `Senhor presidente, senhores deputados, senhores depoentes e senhores telespectadores´! O que é isso? Os excessos são mais prováveis, pois há uma sensação de que as informações são descartáveis. Só que não é bem assim, há valores imateriais fundamentais em jogo e eu gostaria de ressaltar aqui a importância da linguagem.’

Dois anos se passaram, os atores fizeram novas oficinas, ensaiaram textos no plenário, armazenaram informações, mas, a julgar pelos resultados, a teatralização da política não logrou os resultados esperados. A construção de representações sociais dominantes não obteve o êxito habitual. A velha mídia não descobriu o novo público. E foi aí que começou a história de sua coleção de derrotas.

Alguma fratura travou o espetáculo. Ao contrário das últimas décadas, produções como o ‘Mensalão’, ‘Aloprados’ e ‘Apagão Aéreo’ se tornaram, passado o impacto inicial, fracassos de crítica e de público. Organizações Globo, Civitas, Mesquitas e outros barões da imprensa brasileira parecem não ter acertado a mão, e o resultado são melancólicos folhetins sem qualquer vestígio de arte. Farsas baratas para produções que exigiram vultuosas somas e transformismos colossais.

Péssima direção e elenco de baixíssimo nível? Certamente, mas isso não é tudo. Nem sempre basta a imagem como critério da história. Às vezes, a trama, por mais recurso visuais que disponha, requer retórica convincente. Sem ela, inexiste a legitimação que precede o êxtase, e o plano que oculta o golpismo latente das elites se torna se torna visível demais.

Massa crítica

A crença em um desmesurado poder manipulatório da mídia revela indigência de análise. O espetáculo só é possível porque a produção simbólica não se esgota em seu campo. Como destaca Silverstone, a circulação de significados, sua rica intertextualidade, não faz do senso comum um alvo passivo de versões deliberadamente distorcidas. Ele também produz, significa a partir de mediações da sua própria vida concreta. Não auscultar seu cambiante sistema simbólico custa caro aos pretensos ‘formadores de opinião’.

Em suma, o êxito de qualquer projeto ideológico depende de profunda afinidade eletiva entre produtores-consumidores e consumidores-produtores de bens simbólicos. Sem troca não há fluxo eficaz. O que a grande imprensa ignorou – e parece continuar ignorando – é a crescente organização da sociedade civil. Sua capacidade de não só recusar a narrativa oferecida, como construir uma eficiente articulação contra-hegemônica. A mídia se perdeu de si mesma quando acreditou que seus estatutos de verdade eram imunes a qualquer alteração substantiva da formação social onde pretende interferir.

Cabe ao campo democrático-popular não alimentar ilusões. Se os meios de comunicação são fatores centrais e constitutivos de uma nova esfera pública em formação, não se deve esperar conversões éticas de uma imprensa cuja estruturação está umbilicalmente ligada ao destino de conhecidas oligarquias. Trabalhar com contradições internas do campo comunicativo existente é uma aposta fadada ao fracasso. Com a experiência acumulada em veículos como Carta Maior, Caros Amigos e Brasil de Fato, entre tantos outros, talvez tenha chegado a hora de investir em um grande jornal de esquerda. Como viabilizá-lo operacionalmente não cabe no espaço desse artigo, mas com a massa crítica acumulada já passou da hora. Essa é a questão central da democracia brasileira. Precisamos inventar a imprensa democrática.

******

Professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, RJ

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/10/2007 Ivan Moraes

    ‘Péssima direção e elenco de baixíssimo nível? Certamente, mas isso não é tudo.’: depois que a superba teoria de Chomski foi apropriada ficou tudo tao simples, eh so ter o poder de contar a historia que o mundo fica melhor da noite para o dia. Infelizmente, contar historias requer QI: a gente fica assistindo esses showzinhos ruinzinhos pra burro e fica se perguntando ‘mas esse povo ta pensando que eu tou com cara de otario?’

  2. Comentou em 05/10/2007 Paulo Roberto Farias

    Sr Sérgio Piccinato. O senhor só pode estar de brincadeira. Quer aumentar os preconceitos contra os metalúrgicos, só pode ser. Procure se informar sobre a imprensa européia, tanto a francesa quanto a italiana antes de vir aqui e despejar um monte de bobagem. Já basta um jornalista folclórico que, a essa hora, deve estar escrevendo mais um artigo sensacional que será lido, aplaudido por todos e reproduzido em vários sites de Santos

  3. Comentou em 05/10/2007 Paulo Roberto Farias

    Sr Sérgio Piccinato. O senhor só pode estar de brincadeira. Quer aumentar os preconceitos contra os metalúrgicos, só pode ser. Procure se informar sobre a imprensa européia, tanto a francesa quanto a italiana antes de vir aqui e despejar um monte de bobagem. Já basta um jornalista folclórico que, a essa hora, deve estar escrevendo mais um artigo sensacional que será lido, aplaudido por todos e reproduzido em vários sites de Santos

  4. Comentou em 04/10/2007 Aloísio Santos Souza

    O artigo é dos bons. Não há como negar a qualidade dele. Chora direita, chora. Bons tempos aqueles que vocês não ouviam verdades.

  5. Comentou em 04/10/2007 Aloísio Santos Souza

    O artigo é dos bons. Não há como negar a qualidade dele. Chora direita, chora. Bons tempos aqueles que vocês não ouviam verdades.

  6. Comentou em 04/10/2007 Hélio Souza

    Só para completar as informações dadas pelo Cid Elias, já que ele não comentou todos os itens do Professor Eustáquio, informarei que os doláres na cueca foi invenção dos tucanos e o land rover do Silvio Pereira é pura invenção da mídia golpista. E, para informar ao Professor, foi sem querer que o MALA escreveu seu nome errado, pois ele só sabe copiar os textos fornecidos pelo PT cearense.

  7. Comentou em 04/10/2007 Marcelo Ramos

    Pessoal, depois de ler um bom artigo como esse, não percam tempo com os representantes ‘de tudo isso que taí’, como dizia o Brizola. Como observou Fernanda Vanessa, é um ótimo artigo que desperta a fúria dos ‘doutrinados’. De mais a mais, a revolução está se fazendo. Devagar mas sempre. Eu acho que a coisa vai acontecer que nem a teoria do centésimo macaco: quando um número suficiente de pessoas ficar consciente da manipulação informativa que acontece, vai acontecer um salto qualitativo que vai sair do silêncio. E como muito bem colocou o Gilson, ‘com a massa crítica acumulada já passou da hora. Essa é a questão central da democracia brasileira. Precisamos inventar a imprensa democrática.’

  8. Comentou em 03/10/2007 Ivan Berger

    Não entendi a censura. Rábula agora é ofensa ? Já fui xingado de coisa bem pior e passou. Além do mais, não conheço termo melhor para definir certos comentaristas que só sabem refutar as opiniões alheias através de ataques pessoais.

  9. Comentou em 02/10/2007 Fernando Franco

    Excelente. Um dia teremos mais opções e uma sociedade democrática. Não será fácil, mas será possível.

  10. Comentou em 02/10/2007 Andréa Guedes

    Seria ótimo que a dobradinha OI/ Carta Maior se repetisse em outros artigos. Tanto lá como cá se publcam ótimos artigos sobre a imprensa e suas tramóias. Belo recado do professor Caroni

  11. Comentou em 02/10/2007 Andréa Guedes

    Seria ótimo que a dobradinha OI/ Carta Maior se repetisse em outros artigos. Tanto lá como cá se publcam ótimos artigos sobre a imprensa e suas tramóias. Belo recado do professor Caroni

  12. Comentou em 02/10/2007 Ítalo Cardoso

    Reitero aqui o que deixe registrado em Carta Maior.A quebra do monopólio pode não ter mudanças evidentes, mas pelo menos não teremos que engolir quando a rede globo fala em nome da maioria da população para defender posição político-partidária, muitas vezes em véspera de eleições, visando influenciar resultado da verdadeira vontade da sociedade. Aproveito para cumprimentar os companheiros do Observatório que travam uma bela luta na fiscalização da imprensa.

  13. Comentou em 02/10/2007 Guilherme Mathias Martins

    Não tenham dúvida. A democratização da mídia é questão central para a democracia brasileira. Esse artigo não era para estar aqui, escondinho, era para ser manchete. Ou quando toca no nervo, o melhor é esconder? Grande Gilson Caroni Filho que, em 2007, está recolocando o Observatório no trilhos da democracia progressista

  14. Comentou em 02/10/2007 Guilherme Mathias Martins

    Não tenham dúvida. A democratização da mídia é questão central para a democracia brasileira. Esse artigo não era para estar aqui, escondinho, era para ser manchete. Ou quando toca no nervo, o melhor é esconder? Grande Gilson Caroni Filho que, em 2007, está recolocando o Observatório no trilhos da democracia progressista

  15. Comentou em 14/01/2007 Edilberto IÁBEL

    Vocês não acham que o recente episódio envolvendo a Band e a Abril mereceria virar tema do programa?

  16. Comentou em 14/01/2007 Edilberto IÁBEL

    Vocês não acham que o recente episódio envolvendo a Band e a Abril mereceria virar tema do programa?

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