Domingo, 19 de Abril de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 18 - nº 846

ENTRE ASPAS > MÍDIA & ELEIÇÕES

A relação conflituosa entre moral e política

Por Daniel Moreira de Souza em 20/07/2010 na edição 599

Eu sei que este é o enésimo texto sobre a relação conflituosa entre moral e política. Mesmo assim, serei o centésimo primeiro a falar sobre o tema. Sabe como é, eleição chegando, é comum a confusão entre moral e política. Mas não podemos confundir.

De acordo com o filósofo francês André Comte Sponville, a ‘moral não nos diz em quem votar, mas sim, em quem não votar’. Portanto, se você vai votar na Marina Silva por ela ser evangélica, você está usando a sua moral para resolver algo que é do campo da política. Se você não vai votar na Marina por ela ser evangélica, saiba que estará agindo de forma correta.

Lembram-se do caso Bill Clinton e Monica Levinsky? Do ponto de vista político, qual foi o erro do presidente Clinton? Ter feito sexo com a estagiária da Casa Branca, ou ter usado o espaço e o cargo público para o qual foi eleito para fazer sexo com a referida estagiária? Se escolher a segunda opção, agirá de forma correta.

Alguns veículos midiáticos e alguns jornalistas adoram fazer essa ‘confusão de ordens’, como diz Sponville. Devemos avaliar um político sobre o ponto de vista dos aspectos legais, e não morais. Quando alguém diz que não gosta de um determinado político por ele ser feio, arrogante ou mulherengo, eu sinto muito, pois você é um canalha moralizador.

O aspecto político, e não as ações

Vamos definir moral. Para Sponville, moral é:

‘É o conjunto do que um indivíduo se impõe ou proíbe a si mesmo, não para, antes de mais nada, aumentar sua felicidade ou seu bem-estar próprios, o que não passaria de egoísmo, mas para levar em conta os interesses ou os direitos do outro, mas para não ser um canalha, mas para permanecer fiel a certa ideia da humanidade e de si. A moral responde à pergunta; ‘O que devo fazer?’ É o conjunto dos meus deveres, em outras palavras, dos imperativos que reconheço legítimos – mesmo que, às vezes, como todo o mundo, eu os viole. É a lei que imponho a mim mesmo, ou que deveria me impor, independentemente do olhar do outro e de qualquer sanção ou recompensa esperadas.’

O objetivo da moral é deixar de ser individual e se tornar coletiva, universal. ‘Os canalhas moralizadores são aqueles que, ao invés de pensarem em `O que eu devo ser´, se preocupam com `o que os políticos devem ser´.’ Se Clinton traiu sua esposa, do ponto de vista político, isso não me interessa. Agora, se ele utilizou seu cargo, como presidente, para trair sua esposa, aí sim, me interessa.

È comum encontrarmos reportagens relatando casos extraconjugais de políticos ou práticas privadas dos mesmos como se fossem importantes para nós, eleitores. A discussão deveria ser outra: será que ele utilizou a sua posição como político para tais práticas? Será que a cerveja que determinado político consome o atrapalha em seu trabalho? Será que a sua religião o atrapalha em seus julgamentos legais como legislador? Essa é que deveria ser a discussão quanto ao aspecto político, e não as ações em si.

Competência política e administrativa

Então, quer dizer que os políticos devem ser sujeitos imorais? Claro que não. Só acredito que isso não deve interferir em nossos julgamentos políticos. Volto a ressaltar: se acredita que determinado político é imoral (um conceito particular e subjetivo), não vote nele. O que não pode acontecer é alguém votar em um determinado político por ele ser um sujeito moral.

Ao ler um jornal, ou assistir a um determinado telejornal, não faça julgamentos morais acerca de um candidato, caso queira votar nele. Procure, no mesmo, competência política e administrativa, e não se ele é bonito, legal ou católico.

Para entender melhor as diferenças entre moral e política, recomendo o excepcional livro O Capitalismo é Moral?, de André Comte Sponville.

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Geógrafo, Contagem, MG

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