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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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ENTRE ASPAS > DIREITOS DA MULHER

A violência de um tapinha que não dói

Por Ligia Martins de Almeida em 01/04/2008 na edição 479

A música – se é que aquilo pode ser chamado de música – foi lançada em 2000. Não passava de um refrão coreografado por mocinhas bonitas de barriga de fora, que virou sucesso nas rádios e emissoras de TV. E acabou tendo o destino de todos os similares de mau gosto: caiu no esquecimento. Mas foi lembrada na edição de sábado (29/3) do Estado de S.Paulo, com o título ‘Funkeiros são condenados por Tapinha: hit incitaria à violência contra a mulher’.

Diz a matéria sobre a decisão do juiz Adriano Vitalino dos Santos, da 7ª Vara Civil Federal em Defesa dos Direitos da Mulher:

‘O tapa não é ato banal e inofensivo, como retratado na música, mas que causa dor física na vítima, além do abalo psíquico decorrente da humilhação que o gesto em si constitui. A garantia constitucional da livre manifestação do pensamento, bem como a livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação não pode representar salvo-conduto para a violação de outros valores constitucionais igualmente assegurados.’

Quem se beneficiou com a decisão do juiz? O Fundo Federal em Defesa dos Direitos da Mulher – a quem a equipe de som Furacão 2000 vai ter que pagar 500 mil reais de indenização. O que é esse Fundo, quem o gerencia, que tipo de atividades desenvolve e como usa os recursos de que dispõe, isso a imprensa não esclareceu.

‘Somos as mal-amadas’

Mas há outros beneficiados nessa história: os autores da música e o Furacão 2000 – condenado a pagar a indenização. Beneficiados porque, graças à sentença, acabaram voltando ao noticiário dos jornais e principalmente da internet, onde uma busca simples permite até que se assista ao vídeo com a ‘interpretação’ do sucesso agora esquecido.

O autor da letra – MC Naldinho – ganhou espaço de defesa (como manda o bom jornalismo) e deu a sua versão da história:

‘Não agredi nenhuma mulher com a minha música. A idéia surgiu num dia em que dei um `tapinha corretivo` em minha filha e ela retrucou: `Pai, um tapinha não dói`. Tenho orgulho de ser autor e intérprete de um hit que é muito polêmico, mas que me trouxe muitas coisas boas’ (O Estado de S. Paulo, 29/3/2008).

Embora em matérias curtas, a imprensa fez um serviço completo na cobertura do assunto, abrindo espaço para as entidades feministas se manifestarem.

A coordenadora da Themis Assessoria Jurídica e de Estudos do Gênero (co-autora da ação contra os músicos), falou dos efeitos educativos da sentença: ‘Espero que as próximas músicas tenham mais cuidado no tratamento dispensado à mulher. Uma música não pode incitar à violência’.

A ONG Crioula também gostou da sentença, segundo matéria do jornal O Dia (29/3), que ouviu a sua coordenadora, Lucia Xavier: ‘É cultural achar que toda mulher gosta de ser ofendida na cama. Nós, que lutamos contra isso, somos as mal-amadas. No fundo, retrata relação de violência, de falta de afeto e de respeito’.

O que falta discutir

Enquanto se discute se a punição ao funkeiro é ou não censura, passou despercebida uma frase de sua defesa. A de que fez a música inspirado numa reação da filha de três anos ao levar um ‘tapinha corretivo’.

Um tapinha não dói deve ser a música predileta da torturadora de Goiás, Silvia Calabresi, que, segundo a Veja (2/4/2008) não via mal no que fazia: ‘Eu não achava que estava torturando, mas educando’.

A sentença do juiz de Porto Alegre pode ter sido um exagero, especialmente porque faz muito tempo que a música deixou de ser sucesso. Mas talvez sirva para provocar dois debates na imprensa: o primeiro sobre a liberdade de expressão e, o segundo, sobre a violência, não apenas contra mulheres, mas também contra as crianças.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/04/2008 Marco Antônio Leite

    A Justiça fez um golaço ao condenar FUNKEIROS que através de uma mente tacanha e frágil do ponto de vista intelectual a pagar uma indenização para o Fundo Federal em Defesa dos Direitos da Mulher, isto em função da ‘música’ tapinha não dói, só se for às mulheres da convivência dessas pessoas. Ademais, na limitada letra de música no seu bojo trazia muito preconceito e induzia a galera do FUNK a agredir gratuitamente ás mulheres. Parabéns para o Juiz que condenou pessoas que pregam a violência contra as mulheres. Esperamos que esse dinheiro seja revertido em prol das mulheres, por isso sugiro para aqueles que forem manusear essa quantia não tenham bolsos nas calças!

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