Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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ENTRE ASPAS > MÍDIA & SAÚDE

Aborto: o que falta discutir

Por Ligia Martins de Almeida em 16/10/2007 na edição 455

O fato de o aborto ser ilegal ou permitido parece não fazer diferença para as mulheres que querem interromper uma gravidez. A conclusão é da Organização Mundial de Saúde, que levantou dados em diferentes países onde o aborto é proibido e permitido por lei. A matéria, do New York Times, foi traduzida e publicada pelo jornal O Estado de São Paulo em 13/10/2007. Os principais pontos levantados:

*** As taxas de aborto são parecidas entre países onde a prática é legal e onde é ilegal.

*** A proibição do aborto não inibe sua prática. A taxa de aborto por 1.000 mulheres, em 2003, foi semelhante na maioria das grandes regiões do mundo – África, Europa e América Latina – ficando entre 25 e 35.

*** Em todo o mundo os abortos correspondem a 13% das mortes de mulheres durante a gravidez ou parto.

*** Cerca de 20 milhões de abortos que podem ser considerados inseguros são feitos todos os anos no mundo e 67 mil mulheres morrem por complicações decorrentes desta prática, a maioria em países em que o aborto é considerado ilegal.

*** O número total de abortos no mundo caiu de 46 milhões, em 1995, para 42 milhões em 2003 – redução de 8,7% em oito anos.

*** A melhor forma de diminuir as taxas de aborto não é considerá-lo ilegal, mas tornar os métodos anticonceptivos mais disponíveis.

A publicação da pesquisa – e a defesa feita pela OMS da maior divulgação da anticonceptivos – certamente vai levantar novamente a discussão sobre descriminalização do aborto no Brasil.

O tema foi discutido pelo ministro da Saúde no início do ano, como lembrou O Estado de São Paulo num box de complementação da matéria: ‘De acordo com pesquisas acadêmicas, são feitos cerca de 1 milhão de abortos ilegais todos os anos no Brasil e cerca de 270 mil mulheres são internadas no Sistema Único de Saúde com complicações decorrentes disso’.

Distribuição de anticoncepcionais

Talvez esteja na hora da imprensa discutir o assunto sob outro enfoque: em vez de perguntar se o aborto deve ser proibido ou liberado, é hora de perguntar como anda a distribuição de anticoncepcionais para as populações carentes no Brasil.

Seria interessante verificar se o ministro, ao propor a descriminalização do aborto, não está distraindo a atenção do público para o verdadeiro problema: o que o governo está fazendo para impedir que as mulheres, frente à gravidez indesejada, acabem optando pela prática do aborto. O que falta a estas mulheres: informação ou acesso aos anticoncepcionais?

Seria oportuno fazer uma conta para verificar quanto o governo economizaria se distribuísse anticoncepcionais a todas as mulheres que precisam, comparando com o custo de procedimentos do SUS para tentar remediar o problema e, principalmente, quantas mortes poderiam ser evitadas se a população carente tivesse a informação e os cuidados necessários para evitar o aborto.

Seria mais interessante ainda verificar se uma forte campanha de educação das mulheres mais pobres – sobre gravidez e maternidade – poderia acabar com o assassinato de crianças que são jogadas no lixo, nos rios e nas cisternas, porque as mães, despreparadas e desequilibradas, optam pela solução criminosa. Porque não tiveram escolha entre ter ou não ter filhos.

******

Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/10/2007 Jones Dias

    O professor aí de baixo precisa de umas aulas de educação. Comentar partindo para desqualificar o outro sem apresentar nenhum argumento é de uma indigência intelectual assustadora!!!

  2. Comentou em 19/10/2007 Marco Antônio Leite

    Qualquer pessoa da vida, entende que mulher é escrava do homem, só se for do homem mau caráter. A mulher tem todo o direito de decidir o que é melhor para ela, com certeza, ela vai para cama sabendo do que pode advir em fazer sexo com seu companheiro ou similar, após a cópula ela tem apenas duas saídas, uma dar a luz, a outra é o aborto pura e simplesmente. Se você é contra, sai pôr aí recolhendo às crianças abandonadas pela miséria imposto pelo sistema e, leve-as para casa, a fim de dar alimentação, saúde, educação e agregados. Escrever umas mal fadadas linhas para você é fácil, quero ver resolver esse assunto na prática, teoricamente tudo é mais simples. Ademais, não viva achincalhando às mulheres, elas não merecem serem tratadas como infantis.

  3. Comentou em 19/10/2007 alice costa

    O artigo em questão joga a responsabilidade das políticas de planejamento familiar toda nas costas do governo federal.

    A autora esquece (de propósito ?) que está em vigor uma campanha nacional que visa facilitar o acesso de contraceptivos à população de baixa renda?

    Também se esquece que há a responsabilidade estadual e municipal em nas etapas de acesso à saúde e educação da população.

    Basta lembrar os casos de desvio do dinheiro federal destinado à merenda escolar para o bolso privado de prefeitos nos rincões brasileiros para suspeitar que só programas políticos não bastam. A sociedade toda precisa participar e cobrar o cumprimento destas ações.

    Ainda se esquece que a mídia, sobretudo a televisiva, tem muita influência no cotidianno das pessoas e não se esforça para promover este tópico.

    Se há alguém que usa a questão da descriminalização do aborto para tergiversar algo, é justamente os agentes sociais não-governamentais que teriam a obrigação de estimular o debate em busca de outras soluções aplicáveis para a mortantade infantil e feminina decorrente de uma gestação indesejada.

    Enquanto ficamos, como parece querer estes agentes, batendo cabeça com coisas como ‘é assasinato x não é’ crianças inocentes estão nos faróis sendo exploradas por suas famílias, expostas a todo tipo de violência e se prostituindo por R$2,00.

  4. Comentou em 19/10/2007 alice costa

    O artigo em questão joga a responsabilidade das políticas de planejamento familiar toda nas costas do governo federal.

    A autora esquece (de propósito ?) que está em vigor uma campanha nacional que visa facilitar o acesso de contraceptivos à população de baixa renda?

    Também se esquece que há a responsabilidade estadual e municipal em nas etapas de acesso à saúde e educação da população.

    Basta lembrar os casos de desvio do dinheiro federal destinado à merenda escolar para o bolso privado de prefeitos nos rincões brasileiros para suspeitar que só programas políticos não bastam. A sociedade toda precisa participar e cobrar o cumprimento destas ações.

    Ainda se esquece que a mídia, sobretudo a televisiva, tem muita influência no cotidianno das pessoas e não se esforça para promover este tópico.

    Se há alguém que usa a questão da descriminalização do aborto para tergiversar algo, é justamente os agentes sociais não-governamentais que teriam a obrigação de estimular o debate em busca de outras soluções aplicáveis para a mortantade infantil e feminina decorrente de uma gestação indesejada.

    Enquanto ficamos, como parece querer estes agentes, batendo cabeça com coisas como ‘é assasinato x não é’ crianças inocentes estão nos faróis sendo exploradas por suas famílias, expostas a todo tipo de violência e se prostituindo por R$2,00.

  5. Comentou em 17/10/2007 Thiago Conceição

    Marcos Paulo, onde que tem igreja aqui? Aqui não tem igreja alguma! O aborto é um assassinato e já foi demonstrado anteriormente o porquê. É irracional acreditar que isso melhoraria alguma coisa (os dados sobre abortos são falsos, não há evidência de melhoria) e é irresponsabilidade compactuar com a irresponsabilidade alheia. Não é o governo que manda as mulheres abrirem as pernas, mas elas que fazem por livre e espontânea vontade.

  6. Comentou em 16/10/2007 Marcos Paulo Andrade

    Infelizmente a questão do aborto no Brasil quase sempre está polarizado em duas frentes: feministas X igreja. As feministas defendem porque se julgam donas de seu próprio corpo e encaram isso como parte de sua emancipação. A igreja é contra porque é pecado e posiciona-se a favor da vida. Muito longe de ser um direito ou um ‘pecado’ a discussão sobre o tema, que a imprensa tem o dever de alavancar, é muito mais complexo. Mesmo com programas eficientes de planejamento familiar e acesso à anticoncepcionais mulheres continuam recorrendo ao aborto. Quem é contra não apresenta nenhuma solução para o problema. É também preciso analisar o impacto social que a descriminalização teria. Como todo assunto polêmico, não existe consenso. Mas o importante é que o debate continue, principalmente através da mídia.

  7. Comentou em 16/10/2007 Tereza Perazza

    É óbvio que a prevenção é a melhor medida a se tomar para evitar qualquer tipo de situação que se queira evitar. Isso não é diferente no caso do aborto. A autora não descobriu a pólvora. Agora, acho que a autora pretende simplificar a importância da descriminalização do aborto, e como esta é uma medida vital a ser tomada para sanar esse grande problema de saúde pública. Mesmo tendo uma grande política de informação e distribuição de métodos anticoncepcionais, a descriminalização do aborto tem seu espaço e papel único com uma das medidas para se sanar a mortalidade materna por causa de abortos ilegais.

    Acredito que a autora está visualizando a discussão atual pela descriminalização do aborto como uma medida de prevenção de gravidez indesejada. ‘Método preventivo por método preventivo, melhor que seja o anticoncepcional’. O que é uma visão infantilizada e mal informada. Essa percepção não tem nada a ver com o teor da medida; tem a ver com a imaturidade da sociedade brasileira para discutir o assunto.

    O aborto se insere dentro de um direito de exercício da autonomia da mulher sobre seu corpo, e independente das razões que a levaram a tal (seja ela uma mulher informada ou não, que tinha a capacidade de previr ou não), ela tem direito de terminar uma gravidez que não deseje levar adiante.

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