Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 9 E 10/8

Agência Carta Maior

12/08/2008 na edição 498

JORNALISMO ECONÔMICO
Gilson Caroni Filho

O estranho humor de Miriam Leitão

‘Se, como destaca o professor Afonso de Albuquerque, as formas narrativas empregadas no jornalismo ultrapassam a explicação dos eventos noticiados, ‘constituindo também um recurso importante do qual os jornalistas se valem para legitimar a sua própria autoridade descritiva dos fatos e interpretativa dos fatos’, o que a rádio CBN apresentou no dia 5 de agosto de 2008 é um exemplo lapidar de como a mídia nativa trafega com desenvoltura do seu ofício original para o espetáculo mambembe, sem qualquer noção do ridículo.

Comentando a palestra do presidente Luís Inácio Lula da Silva para empresários argentinos e brasileiros, em Buenos Aires, Heródoto Barbeiro e Miriam Leitão demonstraram que espirituosidade em matéria informativa requer talento que os dois não têm.

Entre encontrar o equilíbrio, esclarecendo ao ouvinte o que aconteceu, e praticar um humor de gosto duvidoso, a escolha pela vulgaridade lhes pareceu o caminho mais apropriado. Afinal três eram os alvos: Lula, sua colega argentina, Cristina Kirchner, e o presidente venezuelano, Hugo Chávez. Um trio que, como reza a linha editorial dos veículos em que trabalham, merece desqualificação permanente. Nada de ironia fina, com informações subentendidas, tiradas inteligentes que revelem argúcia, brilho e preparo intelectual. Afinal, quando se trata de liderança latino-americana que destoa do velho receituário, o grotesco é licença poética de ‘boas’ redações. Não seria diferente na rádio que ‘toca notícia’.

Uma declaração de Lula e o encontro trilateral com Chávez, não previsto oficialmente, serviram de pretexto para uma sucessão de tiradas de duplo sentido. ‘Gags’ jornalísticas, quem diria, ao melhor estilo ‘Casseta & Planeta’.

O que segue abaixo é um novo formato de jornalismo humorístico, que parece desconhecer a linha tênue que separa o bom-humor da pilhéria grosseira. Um dueto ‘neocon’, com insinuações de duplo sentido.

Heródoto- Bom dia, Miriam.

Miriam – Bom dia, Heródoto, bom dia, ouvintes.

Heródoto – Miriam, o que você acha dessa declaração do presidente?

O áudio traz um trecho da fala do presidente Lula: ‘Do ponto de vista do crescimento econômico, por que Deus nos fez grudados, por que coloca um homem e uma mulher juntos? Para que cada um olhe para um lado? Não, é para se olharem’. Heródoto retoma a conversa:

– Será que nós estamos falando de casamento, Miriam?

Miriam – Pois é, que coisa intensa, né? Uma declaração intensa do presidente Lula, né? Porque Deus nos fez grudadinhos…

Heródoto – risos.

Miriam – Aí chegou um terceiro que não foi convidado. Isso é que foi chato, isso é que foi muito

Heródoto – risos.

Miriam – Muito chato.

Heródoto – risos.

Miriam – Tava rolando o maior ‘climão’. Aí chegou o Hugo Chávez. Cara, esse cara não tem simancol!.

Heródoto -Não tem, né (risos)? Tamos aqui. Olha nós aqui outra vez.

Miriam – Pois é, esse já atrapalhou vários encontros bilaterais.

Heródoto – Ah, então o que faremos do nosso casamento argentino?

Daí pra frente, a jornalista resolve falar ‘sério’. Ou seja, ataca a idéia de criação de um Gasoduto do Sul, de uma empresa aérea trilateral e reclama que Chávez terminou por atrapalhar um diálogo ‘mercado-mercado’.

Desce a lona do circo global. Há um momento que do ridículo não existe retorno. É quando o estúdio radiofônico se transforma em picadeiro.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.’

 

 

EM TEMPO, 30 ANOS
Agência Carta Maior

Jornal Em Tempo comemora 30 anos

‘Filho da experiência do jornal Movimento e precursor do boletim da Democracia Socialista, corrente do Partido dos Trabalhadores, o jornal Em Tempo marcou época com capas memoráveis e denúncias contra a ditadura. O deputado estadual do Rio Grande do Sul e dirigente petista Raul Pont organizou, na capital gaúcha, um reencontro dos fundadores do jornal na década de 70. ‘Hoje nós vamos repartir os dividendos dos acionistas do Em Tempo’, comentou Pont, com a lista dos primeiros colaboradores do jornal em mãos.

‘Brizola não é mais aquele’. ‘Gramsci na crista da onda’. ‘Transas de Roberto Carlos’. ‘Discutindo o eurocomunismo’. ‘Mais um operário sofre violência em Minas’. As manchetes do primeiro número do jornal Em Tempo, de 23 de janeiro de 1978, são uma boa bússola do que a esquerda pensava na época e do conteúdo que recheou o jornal nas décadas seguintes.

O Em Tempo é filho das primeiras experiências de imprensa alternativa que demarcavam espaço contra a ditadura. Distribuído de carro ou bicicleta pelos próprios colaboradores, em bancas de revistas que aceitassem colocá-lo à venda, o jornal teve circulação nacional, e foi referência para os setores de esquerda que tentavam sobreviver ao regime militar.

A matéria principal, da mesma primeira edição, intitulada ‘Racha no poder’, começa assim:

‘Transformado pelas circunstâncias numa real dissidência burguesa que claramente contesta os planos de continuísmo no Planalto através da nomeação do general Figueiredo para a Presidência da República, o senador Magalhães Pinto reúne a cada dia que passa um número maior de adesões e já até estabeleceu o seu plano: rachar, numa primeira etapa, a convenção da Arena e em seguida conquistar o apoio do MDB, apresentando-se como o ‘candidato de União Nacional’.

A ilustração é de Chico Caruso e a matéria segue nas páginas 4 e 5 com ‘ampla cobertura sobre Magalhães e a conjuntura’.

‘A idéia e o projeto do jornal, apesar de oportunos e necessários, não garantiam uma coesão entre os responsáveis por consolidar sucursais, bem como os compromissos decorrentes da sustentação material do projeto. Desde a escolha do nome e a chegada das primeiras edições às ruas, a frente do jornal era um permanente tensionamento. O peso desigual das várias sucursais tornava a disputa editorial e a orientação de cada artigo ou matéria uma disputa de táticas e estratégias entre seus protagonistas’, analisa Pont.

As principais sucursais estavam baseadas em São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre e foram as equipes destas capitais que mantiveram o projeto e o engajamento editorial do jornal. Daí, para a contribuição decisiva na defesa da construção do PT foi um pulo, até o jornal se tornar a principal expressão de uma das correntes internas do partido, a Democracia Socialista. Segundo Pont, ‘a democracia interna, a definição pela perspectiva socialista e a luta e apoio à organização da classe trabalhadora fizeram com que a identificação editorial do Em Tempo com o movimento pró-PT fosse total.

Os primeiros passos do PT determinaram uma coesão mais firme e decidida da linha editorial do jornal. O projeto petista não aglutinava toda a esquerda brasileira, o que fez com que a frente jornalística do Em Tempo sofresse novas defecções e, num determinado momento, o próprio projeto esteve prestes a desaparecer’. A dificuldade de realizar e distribuir um jornal e as divergências políticas de linha editorial foram os grandes motivos para a redução de sucursais e pela troca de periodicidade do jornal, de semanal para mensal.

A história do periódico começa, na verdade, em 1977, com o número zero que seguiu costurando a História com cada matéria. Na edição que circulou entre 20 de fevereiro e 6 de março de 78, ‘Luta pela Anistia em todos os cantos’ é a manchete. ‘Propondo-se a lutar, em todos os cantos, pela anistia ampla, geral e irrestrita, foi lançado no último dia 14, no Rio de Janeiro, o Comitê Brasileiro Pró-Anistia’.

Logo abaixo, em letras grandes: ‘Brasileiros no exílio. Existem atualmente cerca de 200 presos políticos no Brasil, além de 12 mil brasileiros exilados (incluindo familiares)’.

E ainda: 4.582 cassados e 3.783 aposentados pelo AI-5 e demais atos de exceção’. ‘Todos de volta até o natal’, é a última frase da capa da publicação. No número 6, a manchete pergunta: ‘14 anos de regime militar! Até quando?’.

Em maio do mesmo ano, ‘A grande greve do ABC’, ocupa toda a primeira página do Em Tempo, com fotos de fábricas da região paulista. Em julho, foi publicada a lista de policiais e militares acusados por tortura. A capa acusa: ‘Presos denunciam 233 torturadores’.

‘Foi assim, ainda, na luta pela anistia, no apoio à construção da CUT e na defesa das Diretas Já, as grandes manifestações populares que deram ao PT a vanguarda da luta pela democracia. Estivemos, também, no processo de defesa da Assembléia Constituinte, livre e soberana, como bandeira globalizadora na superação do regime militar, e na denúncia dos limites do Congresso Constituinte. O internacionalismo, bandeira tão cara aos socialistas, sempre encontrou no Em Tempo um veículo para sua difusão’, resume Pont.’

 

 

MEMÓRIA CARTIER-BRESSON
Clarissa Pont

O instante decisivo

‘‘Podemos fazer uma imagem na imprensa dizer qualquer coisa. Mostrei minha foto do Papa à minha mãe, que era uma mulher religiosa que lia os pré-socráticos, Demócrito, Heráclito, Espinoza. Ela disse que era minha foto mais religiosa. Um amigo me declarou, pelo contrário, que era a mais anti-religiosa possível’.

Com essa história, Bresson explicou por muitas vezes porque sempre resistiu ao uso do termo fotojornalismo para designar seu trabalho fotográfico. Para ele, as fotos não eram feitas a fim de que uma história fosse contada, mesmo que a possibilidade de fazer suas fotos dependesse do investimento daqueles que queriam contar histórias com suas imagens (Bresson publicou grande parte de seu trabalho em revistas como Life e Paris Match).

Ele se considerava quase um antropólogo, cada reportagem demandava longos períodos em campo, convivendo com os grupos humanos e as características da nova cultura que conhecia. As fotografias eram seu diário. Ainda assim, é inegável que o trabalho dele seja o grande exercício de fotojornalismo do século passado.

As primeiras fotografias são do final da década de 20, os registros fotográficos mais importantes, com a Leica, começam a partir de 1932. Bresson abraçou a fotografia no momento em que o instantâneo fotográfico era inventado, sem poses estáticas, mas cenas congeladas do mundo em movimento. As fotografias realizadas com uma câmera de pequeno porte que permitiram e demarcaram um novo controle sobre a fotografia, aquilo que Bresson gostava de chamar de instante decisivo.

‘Colocadas perto umas das outras, as fotografias de Cartier-Bresson concedem um registro do século XX. Enquanto vemos o mundo através de seus olhos, ele se torna nosso também. Suas imagens são tão poderosas que se transformam em ícones. A cremação de Gandhi, Matisse vestindo um turbante, Giacometti com seu casaco sobre a cabeça enquanto atravessa a Rue d’Alésia na chuva, Faulkner e seu cachorro, Nova Iorque transfigurada ou a Rússia Soviética cochilando em sua letargia’, analisa o diretor da Biblioteca Nacional da França Jean-Noël Jeanneney.

Bresson é parte de uma geração de fotógrafos que, a partir dos anos trinta, conquista relevância histórica. No mesmo grupo, estão fotógrafos como Carl Mydans, Robert Capa, Margaret Bourke-White e André Kertész, Brassaï, Munkacsi, Robert Doisneau, David Douglas Duncan, George Rodger e David Seymour, só para citar alguns. É a primeira geração de fotógrafos que redefine as fronteiras entre os diferentes tipos de fotografia e destrói com a noção de que o fotojornalismo demanda apenas uma fotografia nítida. A partir deles, a forma também será conteúdo.

Bresson nasceu em Chanteloup, nos arredores de Paris, em 22 de agosto de 1908. Na Europa, este início de século é marcado pela crescente utilização de imagens na imprensa. No mesmo ano, por exemplo, nasce o periódico inglês Daily Mirror, dos primeiros a ilustrarem suas páginas apenas com fotografias. Em 1910, na França, o diário Excelsior começa a utilizar fotografias com regularidade e destaque. Em 1933, foi a revista francesa Vu a primeira a publicar uma reportagem de Bresson. A partir daí, o fotógrafo colaborou com a Life, a Paris Match, a Harpeer´s Bazar, a Picture Post, Realités e muitas outras das importantes revistas ilustradas do século XX.

‘Nos anos 30, trabalhei durante alguns meses para o diário comunista Ce Soir, de Louis Aragon. Foi lá que conheci Robert Capa e Chim Seymour, com os quais fundei a agência Magnum, depois da guerra. Éramos os fotógrafos credenciados do jornal. Aragon nos deixava totalmente à vontade. Vivíamos à margem da sociedade; o dinheiro de um era o dinheiro de outro’, relembra Bresson em entrevista a Michel Guerrin, publicada pela Folha de São Paulo em 2004.

A vida de Bresson se confunde com a História. Enquanto o facismo pairava sobre a Europa entre as duas Grandes Guerras, ele se alia à esquerda francesa e, embora não tenha sido filiado ao Partido Comunista, luta contra o facismo durante a década de 30. A Segunda Guerra Mundial inicia e, em 1939, Bresson serve, através da Unidade de Filme e Foto, o Exército Francês. O fotógrafo é capturado em 1940 e mantido prisioneiro em um campo de trabalho forçado alemão até conseguir fugir em fevereiro de 1943. No retorno a Paris, passa a militar na Resistência Francesa, ajudando prisioneiros e fugitivos de guerra. Bresson costumava dizer que as experiências vividas durante a Segunda Guerra haviam sido crucias tanto no próprio trabalho quanto no surgimento da Agência Magnum.

Após a Segunda Guerra, entre 1944 e 1945, Bresson realiza uma série de fotografias que terão grande destaque. São retratos de gente como Henri Matisse, Pablo Picasso, Arthur Miller, Jean Paul Sartre, Samuel Beckett e Truman Capote. Cartier-Bresson ainda volta aos Estados Unidos em 1946. A viagem ocorre para que o fotógrafo participe de uma fatídica exposição póstuma. Seu trabalho seria apresentado no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, acrescido do detalhe de que os organizadores da exposição acreditavam que Bresson teria morrido durante a Segunda Guerra. Após a informação de que ele sobrevivera à guerra, a exposição foi transformada em uma retrospectiva de suas fotos no meio da carreira.

Hoje, um século após o nascimento de Bresson, revisitar seu trabalho é de uma importância histórica única. E em tempos em que fotojornalismo e publicidade vivem de perigosas relações, de importância política, idem.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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