Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 31/12/05 E 1/01/06

Agência Carta Maior

03/01/2006 na edição 362



CRISE POLÍTICA
Mauro Santayana

Partidos e homens, 2/1/2006

‘A entrevista exclusiva, concedida por Lula à Globo, poderia ter sido usada para dizer das suas idéias e das idéias de seu partido, mas o presidente não teve oportunidade. O entrevistador não foi um entrevistador, mais parecia um delegado da Polícia Federal.

Um dos graves males da política é o personalismo, que dificulta o predomínio das idéias e coloca em homens carismáticos a condução da vida pública. Todos os partidos brasileiros têm sofrido dessa distorção, que, na América Latina, encontra sua origem no caudilhismo ibérico e nas raízes africanas e autóctones das chefias tribais. Quando o partido é criado por uma personalidade invulgar, como foi o caso do Partido dos Trabalhadores – e do PDT – essa fragilidade é mais evidente. O PT, partido que contou com a presença de grandes intelectuais entre os fundadores, não conseguiu, neste quarto de século, criar doutrina política clara.

Mesmo tendo vago programa declaratório de esquerda, sua equipe dirigente decidiu agir contra a própria bandeira, ao aceitar as regras do mercado neoliberal. Não lhe será fácil retornar a seu curso natural, que se encontra vazio, à espera de um partido firmemente de esquerda. As dissidências registradas, e organizadas, como a do PSOL, não chegaram a reunir militantes nem a preocupar a burguesia, para usar a linguagem conhecida.

Em defesa do presidente da República e principal personalidade do partido, usa-se o argumento da Realpolitik, ou seja, da imposição das circunstâncias. Mas os partidos reformadores – e essa era a promessa do PT – existem exatamente para contrariar as circunstâncias com a vontade política. Não tendo atuado assim, a organização cai no grupo dos chamados partidos burgueses, e se alia à corrente social-democrática européia, cuja missão histórica tem sido a de conter o velho ímpeto revolucionário dos assalariados, quando a eles se alia a intelligentsia engajada.

É também certo que, desde a sua origem, o PT não foi um partido monolítico – mas não existem partidos monolíticos. O PT nasceu para distinguir-se da oposição de centro-esquerda que se reunia no PMDB. A fragmentação do PMDB era de interesse do governo militar, como garantia de que a distensão seria, como pretendiam seus estrategistas, ‘lenta e gradual’. Daí a decisão de acabar com o bipartidarismo imposto. Se o jogo político continuasse na disputa entre a Arena e o PMDB, o partido de Ulysses e de Tancredo ganharia todos os pleitos eleitorais, colocando o regime em xeque-mate, antes que estivesse preparado para a retirada. Não se condene o PT por aproveitar a brecha. Naquele tempo, o partido se considerava à margem do jogo costumeiro, tanto assim que, em nome de seu purismo, recusou-se a votar em Tancredo no Colégio Eleitoral e expulsou, sem piedade, os parlamentares eleitos sob sua legenda que contrariaram a decisão.

Há, hoje, visível desacordo entre Lula e algumas personalidades históricas do partido. Ao que parece, o presidente e os que o seguem mais de perto acreditam que o seu carisma e o resultado do trabalho do governo em favor dos mais pobres garantem a vitória eleitoral. Mesmo que Lula tenha a maioria dos votos populares e se reeleja, o partido não será o mesmo. Ele perderá os que se encontram mais próximos do neoliberalismo – como ocorreu com o senador Cristovam Buarque – e os que se encontram mais à esquerda, como já ocorreu com a senadora Heloísa Helena. Os eleitores mais à direita, provavelmente se somarão ao PSDB, seja no apoio a Serra, se ele se eleger, seja na oposição ao próprio Lula, no caso de sua vitória. Os mais à esquerda provavelmente votarão com o Partido Socialista, ou com o PDT, se não preferirem o PC do B. O PSOL não parece destinado a grandes vôos. Seu discurso, carregado de raiva pessoal, principalmente no caso de José Dirceu, assustou muitos de seus prováveis militantes e eleitores.

Haveria lugar para o PT no futuro, se ele construísse pensamento ideológico de esquerda, consistente, coerente e ajustado às condições da vida moderna, sem concessões à direita. Outra coisa que tem faltado ao PT, e isso dificulta sua consolidação histórica, é o sentimento nacionalista, só presente, de forma clara, na seção gaúcha do partido.

Este é o ano decisivo para o PT. Seria conveniente que a ele retornassem os intelectuais que o deixaram nos últimos meses. Que retornassem para repensar os rumos do PT e do Brasil, nesta hora em que homens da esquerda nacionalista assumem o poder em países vizinhos, e em que o império norte-americano, sob o modelo texano de governar, vem encontrando forte oposição interna, o que pode levar a Casa Branca, obrigada a sair do Iraque, a novas aventuras continentais – e isso nos deve preocupar. Mas os intelectuais não devem ser mero adorno para a bandeira do PT; sua missão é a de trazer idéias para uma agremiação que parece delas mais do que nunca necessitada.

A entrevista exclusiva, concedida pelo presidente à principal rede de televisão, poderia ter sido utilizada para dizer das suas idéias e das idéias de seu partido, mas Lula não teve qualquer oportunidade de ir além de sua defesa e da defesa do PT. O entrevistador não foi, na realidade, um entrevistador: mais parecia um delegado da Polícia Federal ao interrogar qualquer suspeito de corrupção. O privilégio concedido à emissora e ao jornalista – que é um profissional experiente e sabia muito bem de sua responsabilidade – foi outro dos lamentáveis erros de comunicação do governo.

O presidente deveria ter convocado uma entrevista coletiva, com a presença dos veículos que por ela se interessassem, e responder às perguntas de todos. Talvez com a presença de outros jornalistas, algum deles fosse além do interrogatório sobre os casos de corrupção, e desse ao presidente a oportunidade real de mostrar o que fez o seu governo, e ele não se visse – até mesmo pelas circunstâncias – a concentrar seus argumentos na política econômica. Essa, salvo na alegria dos banqueiros, já trouxe conseqüências danosas ao país, conforme os índices confirmados de que crescemos a metade do crescimento médio mundial, e bem abaixo de países vizinhos, como é o caso da Venezuela e da Argentina.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.’



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A imprensa e os marginais, 26/12/2005

‘Ao se tornar jornalista, o indivíduo não faz voto de castidade política, não renuncia ao mundo. O jornalismo devia ser apenas ético, e não técnico, e nada melhor do que o ceticismo para servir de base a uma conduta independente. Independente, e não imparcial.

‘Os jornalistas hoje têm muito mais estudo. Sua educação é melhor, freqüentam as melhores faculdades. Isso os fez ficar mais parecidos com as pessoas que estão no poder. Quando eu era jovem, era diferente. Todas as pessoas com as quais eu trabalhei quando comecei no ‘New York Times’ eram das camadas mais baixas. Não vínhamos de escolas de elite, éramos ‘outsiders’, víamos o mundo com ceticismo.’

Transcrevo a parte final da entrevista do jornalista Gay Talese, que se orgulha de continuar ‘outsider’, a Marcelo Ninio, da Folha de S. Paulo (segunda, 26). Ao fazer essa transcrição, posso dizer com tranqüilidade que assino embaixo. Essa tem sido a minha opinião de sempre, e eu a defendi de forma muito clara, quando – contrariando as entidades sindicais da categoria – me opus à exigência de diploma universitário de jornalista para o exercício profissional. Embora pertença à mesma geração de Talese, não freqüentei escolas, nas quais me iniciasse no jornalismo estudantil, como foi o seu caso. Fui direto da vida para o jornal, quando ainda não havia chegado aos 20 anos. Tanto como lá, ou talvez mais do que lá naquele tempo, poucos eram os jornalistas com diploma universitário; normalmente os diplomados eram bacharéis que preferiam o jornalismo à advocacia. Havia, ainda, estudantes de direito, de origem modesta, que faziam ‘bico’ nos jornais, a fim de engordar a parca mesada recebida da família. Vir de baixo nos conferia a vantagem de ter uma visão vertical do mundo, ao contrário dos procedentes da alta classe média ou das elites, que só tinham (e só têm, hoje) uma experiência de vida bem diferente, circunscrita ao seu meio. Éramos céticos todos os jornalistas honrados. Eram também céticos aqueles que, embora vindo da classe operária, desonravam a profissão, como achacadores ou embutidos. Aquele tempo não era um tempo de santos, nem de ingênuos.

Temos que ver o nosso ofício com menos presunção e mais modéstia do que aquela que Keynes aconselhava aos economistas, que, a seu ver, deviam igualar-se aos dentistas. Sou mais radical, porque os dentistas não só normalmente ganham mais, mas também devem ter aquela precisão técnica da qual prescindimos. Nosso ofício devia ser apenas ético, e não técnico, e nada melhor do que o ceticismo para servir de base a uma conduta independente. Independente, e não imparcial. O jornalista não é, por outro lado, emasculado político. No Brasil de antes de 1964 quase todos os jornais eram partidários, quando não eram venais. Seria melhor se fossem independentes, mas, pelo menos, sendo partidários, permitiam aos profissionais mais destacados trabalhar naqueles mais próximos de sua posição ideológica ou política, ou de sua própria venalidade.

Ao se tornar jornalista, o indivíduo não faz voto de castidade política, não renuncia ao mundo. Ao contrário. Mas há – e isso é importante lembrar – o compromisso com os fatos. O jornalista pode até mesmo defender um criminoso, se a sua consciência o leva a isso, mas não pode falsear as informações sobre o crime cometido. E os jornalistas de opinião, qualquer seja ela, devem ter toda a liberdade, sem falsear os fatos, a fim de que os leitores possam pesar os argumentos de uns e de outros, de direita e de esquerda, do governo e da oposição, antes de escolher seu caminho.

As relações entre o jornalismo e o poder são difíceis. Os jornalistas conscientes de sua condição sabem que, salvo os poucos casos excepcionais de afinidade intelectual e ideológica, sem falar na amizade espontânea que surge no convívio profissional, os poderosos de um modo geral não nos estimam. Procuram sempre usar os jornalistas para os seus objetivos, como diz Talese em seu depoimento. Quando muito têm algum respeito pelos jornalistas independentes.

O jornalista norte-americano tem sido um crítico veemente do ‘establishment’ de seu país, como reitera nessa entrevista, ao desmascarar o governo Bush e mostrar que só os pobres estão combatendo e morrendo no Iraque. Lembra que, até a guerra do Vietnã, os filhos da elite combatiam e morriam nas Forças Armadas, porque o alistamento era compulsório. Com o alistamento voluntário, são os pobres, geralmente os negros e imigrantes miseráveis que vão para o front. É uma forma de sobrevivência, quando há a sorte da sobrevivência. Sendo assim, a sociedade norte-americana não está sendo atingida pela guerra, o que facilita a manipulação e o cerceamento da opinião pública por parte do governo. E mesmo os democratas se sentem intimidados, como ocorre a Hilary Clinton, que teme ser considerada antipatriótica e não critica o governo. No jornalismo ocorre o mesmo. Na sua opinião, a imprensa norte-americana se encontra em profunda crise.

Mas seria injusto considerar essa crise dos meios de comunicação como isolada da crise geral da sociedade moderna, que o neoliberalismo tornou ainda mais injusta, brutal, mentirosa, anti-humana. O jornalismo está em crise como se encontram em crise todas as instituições com as quais ele se relaciona, como ‘meio’ entre os poderosos e os oprimidos, os ricos e os pobres, o governo e os cidadãos. Isso ocorre nos Estados Unidos, na Europa, no Brasil, enfim, em qualquer lugar do mundo onde a imprensa é aparentemente separada do Estado, mas dependente, de uma forma ou de outra, dos poderes de fato, que têm ditado o ‘pensamento único’ dos anos 90, exacerbado em 11 de Setembro.

Talese compara a situação da imprensa em seu país ao totalitarismo católico medieval, quando os opositores da Igreja eram demônios infiéis. ‘Era o bem contra o mal, exatamente como temos hoje nos Estados Unidos, com mocinhos e bandidos’. Contra essa situação há quem resista, seja como donos de jornais, seja como jornalistas – e é nessa resistência que se encontra a esperança de que possamos recuperar a plena capacidade de julgar e a liberdade de escolha dos sistemas democráticos.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.’



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