Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > SENTIDO DA LIBERDADE

Além do bem e do mal

Por Rodrigo C. Vargas em 19/01/2010 na edição 573

Foi a busca pela liberdade que nos trouxe até aqui. A urgência a essa necessidade só se faz viva quando é possível apontar uma direção. Nietzsche, em Genealogia da Moral, aponta firmemente o norte e dissolve as pulsões conceituais do binômio bom e mau, o que acaba por fim em tudo aquilo que pede oposição, contradição e espelho, ou seja, os valores morais. Uma prática revelada sob a forma de força aristocrata de auto-ajuda, de manutenção da figura heróica do senhor, em troca da condição infeliz marginal.

A grande mídia reproduz o ensaio das castas conduzido pelas mesmas pontuações trágicas. Um bom exemplo é como o crescimento do país é tratado. Ora filtrado por um nacionalismo estadista inconveniente e vertical, ora pautado no desespero do espetáculo que capta o som do tiro, mas prefere dançar ao invés de saber se foi atingido pelas costas.

É tão fácil perceber o tratado clássico do menosprezo classista. Os casos dos assassinatos de duas crianças: a paulistana Isabella Nardoni e a cearense Alanis Maria. As mortes foram chocantes e provocaram a reação de indignação da população. A diferença está no alcance dessa repercussão. O assassino de Isabella é o próprio pai, advogado de classe média. Alanis foi morta por um presidiário fugitivo cearense, condenado por estupro. O que fez o primeiro caso estampar capas de jornais e revistas de todo o país e ser arrastado por semanas nos principais telejornais? Os dois crimes foram bárbaros e os dois assassinos covardes, mas para a maioria quem tem formação universitária e dinheiro provavelmente não cometeria um crime assim. Esse critério é levado em conta no momento em que os editores escolhem o que vai ou não ser publicado, ou veiculado.

O vazio da experiência

Quando Schopenhauer escreveu sobre a linguagem e as palavras, definiu: ‘A voz dos animais serve unicamente para expressar a vontade, em suas excitações e movimentos, mas a voz humana também serve para expressar o conhecimento.’ Schopenhauer não percebeu que a voz também é conceito e, portanto, também subexiste como representante de uma posição humana, trocando assim de posto com o que é considerado bárbaro, não-humano.

Voltando ao sentido de liberdade, vê-se claramente nos olhos dos falsos livres o vazio da experiência de possuir pernas e não ter para onde ir, de ter mãos e não saber escrever ou de ter olhos e não enxergar o belo. A condição a que somos submetidos é fraca como inspiração humana, mas potente como representação de uns poucos. É possível mudar essas práticas, mas para isso é preciso reconhecer que elas existem.

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Jornalista

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