Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > CARNAVAL & CINZAS

Além do senso comum

Por Mauricio Tonetto em 15/03/2011 na edição 633

Os dias de celebração do Carnaval no Brasil se configuram em uma prova de resistência e fidelidade à profissão para nós, jornalistas. Enquanto quase todos estão nas ruas, nos clubes e nos sambódromos festejando, nós suamos muito e dormimos pouco para levar um grande volume de informação para leitores, ouvintes e telespectadores. Longe de reclamar, aproveito a data para refletir sobre o quanto esta profissão é importante para a sociedade. Através do jornalismo, temos a chance de ser alertados, por exemplo, para os excessos do Carnaval e nos conscientizarmos, com uma análise além do senso comum, de que a ‘festa popular’ pertence às elites, que lucram excessivamente e sustentam os vícios que desmoralizam o Brasil no exterior.

Não quero, com este artigo, defender que o Carnaval seja extinto do calendário nacional. É inegável que algumas pessoas ganham com esta data, principalmente aquelas envolvidas com escolas de samba. Porém, o povo que deseja brincar e se divertir com uma certa inocência, como diriam nossos pais e avós, está proibido, a não ser que consuma uma quantidade industrial de álcool ou saiba conviver com um exército de beberrões que não respeitam alguns princípios básicos de convivência. Além disso, é necessário ter sangue frio e cumplicidade para não se abalar com todos os tipos de drogas possíveis. A época do lança-perfume é coisa de cinema retrô.

No Carnaval, as pessoas perdem o senso do perigo. Dirigir embriagado faz parte do jeitinho brasileiro de curtir a data. Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), na terça-feira (8/03) o número de vítimas fatais já superava o de todo o feriado de 2010. No Rio de Janeiro, em Salvador e em São Paulo, brigas de rua provocaram mortes e deixaram dezenas de feridos. Enquanto isso, nos camarotes das celebridades, a realidade era outra. E o povo, tem acesso a esta realidade? Mediante alguns milhares de reais, talvez sim.

Equilíbrio, justiça e maturidade

O Carnaval é um negócio bilionário. As pessoas humildes e trabalhadoras, que dão a vida nos morros para levar aos sambódromos um espetáculo emocionante, são lembradas apenas dois dias por ano. Nos demais, seguem abandonadas em suas ruelas, torcendo para que o crime não chegue às suas famílias. O samba não é apenas amor para elas, mas uma luz, uma necessidade de sobrevivência honesta. Se os donos do Carnaval realmente se importassem com o povo, deixariam essas pessoas viverem à míngua? Para onde vão os bilhões de reais arrecadados com os patrocínios e transações obscuras?

Enquanto lapidamos nas redações e nas ruas as informações que serão entregues nessa cobertura especial, podemos notar o desespero das pessoas que trabalham para garantir as vidas de outras pessoas e nunca são ouvidas. Quem é que se importa com a orientação do policial militar, do policial rodoviário ou do médico? O negócio mesmo é ‘encher a cara e deixar rolar’. Os resultados da imprudência estão nas manchetes dos dias seguintes. Mas quem dá bola para isso?

Para termos o respeito do mundo e uma nação próspera e em paz, é preciso equilíbrio, justiça e maturidade. Se você é uma das pessoas que critica os serviços públicos, reclama da violência e acha que nada funciona no Brasil, mas no Carnaval se permite transgredir as leis, pois é ‘a festa do povo e tudo pode’, reveja seus conceitos e vá além do senso comum. Talvez assim, um por um, possamos comemorar o Ano Novo em 1º de janeiro, e não após o Carnaval.

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Jornalista, Porto Alegre, RS

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/03/2011 Lucas Carlos de Oliveira Silva

    Há muito o carnaval deixou de ser uma festa do povo, aonde a diversão era vestir uma fantasia e sair às ruas cantando marchinhas com os blocos, ou ir a bailes luxuosos aonde a verdadeira festa estava em poder se tornar o que se quisesse ser durante a festa.

    A apropriação pela industria cultural de festejos para que se tornem máquina de lucro não é desconhecida.

    O que me espanta é o descaramento massivo com o qual tem se revelado nos últimos anos. Desde a compra de aparições até sambas-enredo serem entoados mais como gritos de guerra do que como manifestações poético-musicais de uma visão de mundo.

    Há tempos o carnaval não é mais do povo. As vezes não é feito por ele, nem por ele protagonizado, virando apenas uma tentativa esquizofrênica de equiparar-se em luxo e esplendor aos bacanas dos camarotes e as (pseudo) celebridades que ofuscam seu brilho na passarela.

    E já que o povo teve seu brilho roubado, protagoniza durante todo ano um carnaval de horrores, desrespeito e infrações. Talvez tentando recuperar aquele brilho que lhe foi roubado da passarela.

    Em suma, o ano começa depois do carnaval, pois antes ainda temos a esperança de que a festa da carne nos salve de nós mesmos. Depois, é só a certeza do dia-a-dia… Até o próximo ano.

  2. Comentou em 15/03/2011 Mauricio Tonetto

    Caro Hélio, eu sei que utilizei um clichê no final do artigo e ele foi intencional, para provocar o debate. Tenho total ciência de que o ano começa em 1º de janeiro, inclusive para mim e a grande maioria dos jornalistas. O que eu quis dizer é que, salvo exceções, o ano só engrena no Brasil depois do Carnaval. Até essa data, tudo está meio que suspenso, entende? O brasileiro não encara o Carnaval como um feriado comum, ele encara como o fim dum ciclo e começo de outro.

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