Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MULHER NA MÍDIA

Alerta contra a banalização da violência

Por Ligia Martins de Almeida em 30/11/2004 na edição 305

** Aids aumenta entre as mulheres (Estado de S. Paulo, 24/11/04)

** Agressão é o pior problema da mulher (Estado de S. Paulo, 25/11/04)

Não fosse o tema dessas reportagens, seria hora de festejar o fato de um grande jornal dar, dois dias seguidos, manchetes que têm mulher como tema. Em matérias assinadas por mulheres jornalistas.

A primeira matéria traz uma pesquisa da ONU: ‘Não há como falar do controle da epidemia entre o grupo feminino sem falar em melhoria das condições socioeconômicas e igualdade de gênero. Mulheres com baixa escolaridade, baixa renda e que vivem em determinadas culturas estão muito mais sujeitas a problemas como violência e abuso sexual’.

Se fizermos uma pesquisa rápida em jornais, revistas semanais e revistas femininas que estão nas bancas neste momento, vai ser muito difícil encontrar textos jornalísticos que discutam a situação das mulheres, especialmente as de baixa escolaridade e baixa renda.

Mundo de fantasia

As revistas femininas parecem preferir jogar esse tipo de assunto para baixo do tapete, com a desculpa de que não é exatamente um problema da sua leitora – a mulher de classe A e B, com boa escolaridade e poder aquisitivo de médio para alto.

Uma pesquisa do Ibope, tema da segunda reportagem do Estado, mostra que a violência é o maior motivo de medo entre as mulheres.Violência provocada por bebida (81% dos casos) e ciúmes (63% dos casos). Para a bebida, até se pode encontrar tratamento e cura. Quanto ao ciúme (46% dos entrevistados concordam em que a mulher que trai deve sofrer violência), poderia haver alguma ajuda da mídia – mostrando, por exemplo, caminhos civilizados para resolver questões ‘insuportáveis’ como a infidelidade.

Mas qual é a postura das revistas femininas? Relacionamentos amorosos são tema constante das publicações dirigidas às mulheres. Só que, em vez de discutir atitudes, motivações e conseqüências, as revistas perdem tempo com matérias que ensinam truques e táticas de conquista. O que vai acontecer depois é problema de cada um. Como se suas leitoras vivessem num mundo de fantasia, no qual o ‘casaram-se e foram felizes para sempre’ fosse o caminho inevitável dos relacionamentos afetivos.

Pautas freqüentes

Se no mundo islâmico as mulheres aceitam a punição porque não têm como reagir – e porque o direito foi dados aos homens por Alá –, no mundo ocidental as mulheres a aceitam em nome da estabilidade familiar: 11% dos pesquisados pelo Ibope concordam com que a mulher se submeta à violência pela estabilidade familiar.

Tem razão a supervisora das delegacias da mulher em São Paulo, quando diz que é preciso mudar a cultura. As mulheres têm que denunciar, os culpados têm que ser punidos e a mídia, que tem como uma de suas funções formar, além de informar, precisa assumir sua responsabilidade. Cada ato de violência contra mulheres, homens e crianças deveria render mais do que uma boa manchete.

O papel da imprensa, nesse caso, deveria ser o de alerta, tentando evitar a banalização da violência na nossa vida.

Mulheres estupradas, moradores de rua assassinados, crianças esmolando e roubando nas ruas – todos assuntos banalizados pela imprensa – e a forma de resolver tudo isso deveriam render mais do que uma ocasional manchete. São temas que deveriam ser debatidos com freqüência, até se tornarem tão raros que voltariam a ser notícia.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/12/2004 Khaled Salama

    É possível constatar que a autora não conhece nada do mundo islâmico. Sugiro que Lígia Martins de Almeida leia um pouco mais e pesquise um pouco mais antes de criticar toda uma religião ou todo um continente em função de casos isolados. Não é a primeira vez que reclamo da atitude da jornalista e, enquanto eu ver injustiças, vou continuar dando minha repudiando seus textos. ELa fala como se as mulheres islâmicas estivessem pedindo socorro para o mundo ocidental o que, obviamente, não ocorre.

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