Sábado, 23 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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FEITOS & DESFEITAS >

Alguém na AP é contra alguém no Brasil?

Por Rodrigo Panchiniak Fernandes em 17/02/2009 na edição 525

Um dia antes de o G1 publicar ‘A gente não quer ir embora, diz Tom Cruise’, a Fox News propagou ‘Reporters Become Fans When Tom Cruise Visits Brazil’, da Associated Press. Enquanto a matéria do G1 vendia o Brasil aos brasileiros, através da aprovação do país assinada pelo ator americano – ‘Gostamos de todos os momentos no Brasil. A gente não quer ir embora’ –, o texto da Associated Press enfatizava o ridículo na nação e em seus jornalistas anglófilos.

Segundo a AP, os jornalistas brasileiros furaram a segurança para aparecerem em fotos ao lado do ator, em um inapropriado ato de tietagem em serviço, ao mesmo tempo em que o ator confundia tango com samba e gracias com obrigado. A minha perplexidade é: por que o mesmo fato gerou duas notícias tão diferentes?

Fico com a impressão de que os bastidores destas notícias são mais importantes que as próprias notícias. O que não foi dito? O que ocorreu e ficou oculto aos leitores? O que levou a Associated Press a transformar os mistakes do ator em notícias internacionais? Ainda, a AP reconhecer estes mistakes indica que já não deveriam ser mais tão comuns, em virtude do dilatado espaço noticioso que se tem dado ao Brasil?

‘Internacional’ e ‘importante’

Estas são as minhas dúvidas. Mas não me privo de relatar também as minhas desconfianças. Tanto por experiência pessoal no exterior, em viagens de estudo à Europa, quanto por experiências virtuais nas salas Freenode em Internet Relay Chat (IRC), percebo que há um sentimento antibrasileiro, propagado inclusive nos meios intelectuais. Este sentimento torna-se tão mais proeminente quanto maior a visibilidade do país. Isto faz com que a Associated Press tenha emitido uma notícia cujo pano de fundo permite antever respeito e desrespeito simultâneos pelo maior país da América do Sul? Trata-se de um reflexo da geopolítica? Ou isto seria alguma intriga de produtoras rivais de filmes lutando pelo imensamente rentável mercado das salas de cinema brasileiras?

Depois de reler o texto acima, enquanto procurava respostas e trocava mensagens com o editor deste Observatório, deparei com a expressão ‘notícias internacionais’. O que é uma notícia internacional?, perguntei filosoficamente à minha paciente Xantipa. É uma notícia que interessa a pelo menos dois países, encerrou o assunto.

Sim, e também não. Neste caso, a multiplicidade de sentidos da expressão chamada por lingüistas de ‘natural’ depende de um fator gritantemente arbitrário: as fronteiras. O campeonato nacional lusitano será sempre decidido pelo Porto e pelo Sporting, dizem os opositores do Benfica. O campeonato brasileiro da série A agora tem a relevante participação do Avaí, dizem os avainos. Há uma clara diferença, talvez mensurável em quilômetros quadrados ou somatórios de times/equipas profissionais, nos sentidos da mesma palavra nestas duas variações do idioma de Florbela Espanca. Normalmente incluímos ‘internacional’ ao campo semântico de ‘importante’ e subvalorizamos a importância das vizinhas Guianas. Assim, o silogismo manda: se, e somente se, como dizem os lógicos, toda notícia internacional é uma notícia importante, então toda notícia da AP é uma notícia internacional. Esta é a razão pela qual um dia atrás e três parágrafos acima chamei de internacional a notícia (pasmem!) produzida dentro deste país de Deus. Que seja.

Gracias ao invés de obrigado

E que sejam ridículos os jornalistas deste país ridículo. Mas, por favor, que não seja ainda relevante o tema deste texto sobre a já esquecida hospedagem do Tom no Palace. E que não seja assim relevante, principalmente, por este assunto tão tristemente relevante.

O Mediterrâneo é pequeno o suficiente para poder ser atravessado a nado por um inglês patrocinado, e grande o suficiente para que os pescadores da Sicília recolham muitas roupas não italianas em suas redes. Dos corpos, nem sempre se tem notícia de que chegaram a alguma terra.

Mas quem não sabe que é perigoso visitar o Rio de Janeiro e falar um idioma estrangeiro, ainda mais se este é exercitado através de um telefone portátil? Aqui, desde o norte da ilha da chuvosa Santa Catarina, sabemos que mesmo o carioca precisa se precaver carregando, quando o contexto exige, no próprio carioquês. Não são alvos de xenofobia os turistas esfaqueados? Uma xenofobia foucaultianamente apontada contra seus corpos, tanto quanto não sejam estes mesmos os objetos do assalto, quando, então, teríamos o caso extraordinário da xenofilia. Profundo, não?

Vejamos agora se é possível finalizar esta delonga. A Associated Press é xenófoba? Não. Mas veja lá se não dá notícia o mau comportamento dos donos da Petróleo Brasileiro SA. É um mistake dizer gracias no lugar de obrigado? Não. Mas o Pelé é melhor. O Brasil é importante geopoliticamente? Não. Mas ‘apenas se vendes o suficiente no Brasil e no Japão, tens um filme de sucesso nos Estados Unidos’, disse, em entrevista a veículo especializado, o então bem-nascido Will Smith.

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Doutorando em lingüística e professor substituto do Departamento de Letras e Literatura Vernácula da Universidade Federal de Santa Catarina

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