Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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FEITOS & DESFEITAS >

Alguma opção além do suicídio?

25/08/2009 na edição 552

‘Eu não sou normal!’ Assim, iniciei minha fala no lançamento do livro A
Ditadura da Mídia
, de Altamiro Borges, em Governador Valadares, citando
alguns aspectos de meu currículo para que ninguém tivesse qualquer dúvida a este
respeito. A cidade também é conhecida por Governador Valadólares, em
função da grande migração de moradores desta cidade para os EUA e o decorrente
envio de dinheiro estadunidense para lá. O evento foi no auditório da Univale –
Universidade do Vale do Rio Doce.


Convidado para dizer algo sobre a questão da comunicação, amplifiquei a
palestra do Miro para as demais ditaduras (política, econômica, social, racial,
agrária, de gênero etc.) e para a ditadura do patrão sobre o profissional da
comunicação, como venho fazendo há algum tempo. Segundo Miro, não adianta fazer
uma excelente matéria, pois o editor vai retirar tudo que não interessa para a
empresa de comunicação divulgar. Então, digo eu: Ele se torna um verdadeiro
escravo do patrão. Daí, Miro constata que vem a frustração dos ideais do
estudante de jornalismo, ao enfrentar a dura realidade das redações.


O jornal Pauta, do Sindicato dos Jornalistas de MG veiculou matéria,
meses atrás sobre as doenças de cunho psicológico que sofre um número
relativamente maior que a média da população, fruto deste conflito interior pelo
qual passa o profissional. Policiais também padecem do mesmo drama…


Convidei-os a acompanhar pessoas como Nelson Mandela e Antonio Gramsci, cuja
obra foi citada tanto pelo Miro quanto por mim como exemplo de jornalismo,
filosofia e política.


‘Negócios da China’


Basta permanecer preso por uns vinte anos, para refletir melhor sobre a
realidade, e descobrir a diferença entre ela, a ilusão e o ideal. Entre os
realistas, alienados e idealistas. Mas, ressaltei que tal experiência extrema,
poderia ser evitada, caso exercitassem a mesma reflexão que eles, mesmo
desfrutando da liberdade física que temos hoje, coisa difícil numa sociedade
viciada no ativismo aleatório, no hedonismo e no consumismo desenfreado,
compulsivo e compulsório.


Exortei os presentes para que saíssem da matriz do pensamento único
(Matrix, o filme) e lutassem para mudar o sistema que nos escraviza
também, a quase todos, através do Estado, da escola e da mídia. Liberado para o
debate, um jovem coloca esta questão em termos chocantes: Qual a saída, então,
diante da dificuldade de romper com o sistema, para um jornalista, além de meter
um tiro na própria cabeça?


Miro focou alternativas como a liberdade reinante (por enquanto) na rede
mundial de computadores (o AI-5 Digital vem aí!), não perder a dignidade, não
ceder, não se vender, como tantos o fazem, desonrando a profissão. A
continuidade da luta pela obrigatoriedade do diploma, criação do Conselho
Federal de Jornalismo e da Ancinav – Agência Nacional do Cinema e do
Audiovisual.


Raros atingiram o descontentamento e a crítica severa a tais jornalistas,
como Aloísio Biondi em seu texto testamento, Pela Culatra, escrito na era
FHC:




‘Defende-se o conformismo dos jovens castrados e dos ‘velhos profissionais’
aviltados. Defende-se a manipulação da opinião pública, as manchetes
distorcidas, as notícias escondidas, o abafamento dos escândalos que só vêm à
tona quando (e enquanto, e enquanto) interessa a grupos econômicos `deixados de
lado´ nos negócios da China, a ocultação dos prejuízos de 13 bilhões de reais do
Banco Central e os 15 bilhões despejados no Banco Nacional, a vergonhosa entrega
dos trilhões de reais do petróleo brasileiro a multinacionais’ [ver
aqui
].


Lavagem cerebral



Procurei materializar minha visão do problema no esquema acima, parte do qual
rabisquei no quadro disponível naquele auditório.


Os realistas nada mais fazem que manter a realidade como ela é, tornando-se
conservadores do atual sistema de coisas, presos em seu egoísmo e consumismo,
sustentando a voracidade do capitalismo. São as pessoas que tem um comportamento
altamente previsível dentro do que consideramos politicamente correto.


Outro grande grupo, a maioria, também conservador, vive perdido em ilusões de
um sistema de ensino e da mídia, alimentando-se de um placebo de vida, de um
mundo virtual, de uma manipulação da realidade. Acredita, pela fé religiosa, em
tudo que seus professores lhes ensinaram ou no que dizem os meios de
comunicação. Ambos sofrem de uma enfermidade denominada ‘normose’. Uma hipnose
coletiva!


Um terceiro grupo, uma pequena minoria, sonha e luta por um mundo melhor, a
despeito de todos os incomensuráveis obstáculos existentes. Um mundo diferente,
tanto da realidade que conseguem perceber, apesar dos apelos fantasiosos da
educação que receberam do Estado ou de uma escola particular a ele submissa.
Também estão imunes à lavagem cerebral imposta pela mídia à grande maioria da
população.


Sonhador, maluco, perigoso


Eles têm a missão de ousar, de investir suas existências na construção de um
sistema de vida melhor, mesmo em prejuízo de seus interesses particulares,
dentro de um conceito menos materialista e mais humano. Um mundo melhor não
apenas para si, como o fazem os conservadores e alienados, mas para todos. Fazer
com que ‘Brasil, um país de todos’, deixe de ser um emblema demagógico e sem
sentido, em algo real, num futuro ainda distante e invisível para os demais.


Os realistas e alienados acreditam que estamos em uma democracia, mas… Mas
não sabem com quantos ‘mas’ se faz uma ditadura. Os idealistas têm um padrão de
democracia, como sendo realmente o governo do povo, e enxergam uma ditadura onde
os demais vêem uma democracia com restrições ou não. Para um, o limite é a
realidade; para outro, é a ilusão. Ambos admitem ser possível uma democracia,
onde o povo vota, mas não governa, nem participa. Uma democracia
impopular…


Os idealistas lutam pela construção de uma democracia de verdade, enquanto os
demais querem apenas aperfeiçoar uma democracia supostamente já existente,
segundo eles.


Em síntese: ou a pessoa fica doente ou doida, por alienar-se e vender sua
consciência para um patrão, sendo tolhida naquilo que tem de melhor dentro de
si, necessitando das inúmeras formas de compensação oferecidas inocentemente
como lazer, ou luta contra tudo isto e também passa a ser vista como alguém
diferente, sonhador, maluco, um indivíduo perigoso, querendo atrapalhar o
comodismo dos demais, satisfeitos com tal sistema.


‘Progresso depende dos loucos’


Quem quiser se aprofundar mais nesse assunto, além de A Ditadura da
Mídia
, deve ler também alguns textos sugeridos aqui.


O Brasil Privatizado, de Aloysio Biondi, está disponível gratuitamente aqui.


Ao encerrar minha fala, convidei-os a participar da Comissão Valadarense
Pró-Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) e a se juntarem a estes
‘porras-loucas’, que como eu e alguns ali, recusam-se a contribuir para manter o
mundo como está e a viver a ilusão criada pelos sistemas de ensino e
comunicação, a serviço dos poderosos.


Estendo meu convite aos que conseguirem ler estas bem digitadas linhas até o
fim. Temos uma comissão nacional e várias estaduais: ver aqui e aqui. Convite em vídeo, no
YouTube.




‘O homem sensato adapta-se ao mundo.


O insensato faz exatamente o contrário…


Portanto, todo o progresso depende dos loucos!’ (Bertrand Russel com um toque
de Millôr Fernandes)

******

Engenheiro civil

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