Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Aliado ou concorrente?

Por Luciano Martins Costa em 29/01/2014 na edição 783

A imprensa brasileira não deu muita importância para o lançamento da edição brasileira do agregador de conteúdos jornalísticos Huffington Post, que por aqui se chama Brasil Post (ver aqui). Criado pela jornalista e empresária greco-americana Ariana Huffington, nascida Stassinopoulou, e adquirido em 2011 pela AOL (America Online), o site de notícias e comentários chega ao Brasil a bordo de uma associação com a Editora Abril.

Quais seriam as expectativas na mídia tradicional brasileira com a chegada do novo e poderoso protagonista?

A nota publicada na edição de quarta-feira (29/1) pela Folha de S.Paulo não permite avaliar o efeito do ingresso desse concorrente no congestionado mercado nacional de informações de interesse público. Mas uma análise no formato do Brasil Post e nas ideias defendidas por Ariana Huffington e o diretor editorial Ricardo Anderáos revela que o empreendimento tem potencial para causar um impacto considerável no cenário da imprensa brasileira.

Apesar de a associação com o grupo Abril, que na última década enveredou por um jornalismo partidário, tendencioso e conservador, sugerir que se trata de apenas mais um entre os títulos que formam a imprensa hegemônica no país, alguns sinais dão conta de que estamos diante de uma novidade que pode causar impacto.

Pelo menos em sua edição inaugural, o Brasil Post mostra um equilíbrio de opiniões raramente encontrado na mídia nacional, apesar de não oferecer exatamente um conteúdo inovador. Aparentemente, não faz parte de seu perfil exibir conteúdos radicais como os que têm caracterizado a concorrência.

Aliás, ao apresentar um amplo leque de blogs de autores não remunerados, e ao reproduzir noticiários de outros veículos, o modelo serve tanto para desarmar a concorrência como para facilitar sua inserção nas redes sociais digitais, convidando o leitor a participar da interpretação dos acontecimentos.

Uma plataforma tecnológica voltada claramente para a interação com a audiência parece ser o patrimônio mais valioso desse agregador de informações e opiniões.

A disputa pela atenção

Esse pode vir a ser o elemento diferencial do Brasil Post: o potencial de atrair e reter o leitor pela diversidade de abordagens sobre eventos do cotidiano, com a ampla oferta de interatividade. Uma janela aberta para a postagem de imagens e notícias produzidas pelo usuário pode contribuir para estabelecer rapidamente uma relação de fidelidade com a audiência, aproveitando a característica de assertividade que se observa nos usuários mais jovens.

O cenário é favorável à oferta de novidades, porque, pressionadas pela necessidade de consolidar rapidamente a transição entre os meios tradicionais e as novas plataformas de comunicação, as empresas hegemônicas no setor tendem a fazer mais do mesmo. Por exemplo, a Folha de S. Paulo anuncia na quarta-feira (29), em reportagem publicada ao lado da notícia sobre o advento do Post, que acaba de renovar seu aplicativo para tablets e telefones celulares. A principal inovação é a possibilidade de mover os conteúdos arrastando os ícones com o dedo. No mais, o efeito visual aproxima ainda mais a versão para aparelhos móveis da feição que o jornal tem no papel.

Trata-se de uma decisão controversa, que demonstra o apego da empresa ao suporte original de notícias, o que pode enviar uma mensagem subliminar de sentido anacrônico aos leitores mais jovens.

Uma das grandes discussões entre os analistas dos novos meios é a chance de sobrevivência de antigas marcas, associadas ao meio jornal ou ao sistema de emissão televisiva. Em tempos de grande protagonismo dos indivíduos, quando toda uma nova geração se define pela interatividade, pela maior autonomia e por uma ampla disponibilidade de alternativas, a tentativa de condicionar e direcionar a atenção do público para um ponto fixo no ambiente hipermediado pode se revelar um erro fatal.

O advento da versão brasileira do Huffington Post pode não representar ainda o ponto de mutação que muitos observadores esperam no cenário da imprensa e do entretenimento, mas certamente é um sintoma de que há espaço para novidades no restrito mercado brasileiro de informação. Como se sabe, a natureza da nova mídia é a concorrência pelo tempo e a atenção das pessoas. A mídia tradicional do Brasil tem feito de tudo para repelir a audiência.

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