Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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FEITOS & DESFEITAS > NAS ONDAS DO RÁDIO

Alô, amigos da Mayrink

Por Sylvio Abreu em 26/05/2015 na edição 852
Reproduzido dO TREM Itabirano nº 116, abril de 2015

Eu era bem garoto e já admirava os programas de humor da rádio Mayrink Veiga.  Além do programa de músicas variadas Peça Bis pelo Telefone, em que, à tarde, concorriam na preferência do ouvinte as músicas mais ouvidas da praça, na época. O auge da emissora se deu entre 1960 e 64.

A Mayrink, como diziam os íntimos, foi fundada em 21 de janeiro de 1926 e se tornou ícone na famosa Era do Rádio. Não havia televisão, a gente sabia tudo pelo rádio. A estética era abstrata, as mulheres de voz bonita é que eram as lindas e gostosas.

Foi líder de audiência até o advento da rádio Nacional do Rio de Janeiro e tinha direito à concessão do Canal 2, do Rio, mas não tiveram como instalá-lo e foi vendido à TV Excelsior.

Em 1962, um episódio heroico: a Mayrink participou da chamada Cadeia da Legalidade – rede de rádios brasileira organizada por Leonel Brizola, o deputado mais votado em toda a história do Rio de Janeiro de então – para defender a posse legítima do vice-presidente eleito João Goulart, na presidência da República, com a renúncia de Jânio Quadros. Pagou caro: fechada pela ditadura, em 1965.

Vamos aos programas de humor que transmitiu, era aí que eu queria chegar.

A Cidade se Diverte, bem como os demais programas que cito aqui, tinha o elenco da emissora, constituído, quase que invariavelmente, por Matinhos, Celma Lopes, Altino Diniz, Jaime Filho, Ema e Valter d’Ávila, Zé Trindade, Brandão Filho, Chico Anysio, Antônio Carlos, Sônia Mamede, Tutuca e outros. Vai da Valsa tinha, além desses, Haroldo Barbosa. Marmelândia, o País das Maravilhas era escrito por Max Nunes e Afonso Brandão. PRK-30 era um programa exclusivo de Lauro Borges e Castro Barbosa, sucesso também na rádio Nacional de São Paulo, que faziam centenas de vozes e ruídos necessários à animação.

Também contavam com o famoso elenco Alegria da Rua e Da Boca pra Fora, que tinha texto do jornalista e humorista Sérgio Porto, o popular Stanislaw Ponte Preta.

Miss Campeonato, também escrito por Sérgio Porto, tinha Rose Rondelli, a Miss Campeonato, Ruy Porto, Zé Trindade, Tutuca, Apolo Correa, Matinhos e Duarte Moraes, entre outros.

O programa Peça Bis pelo Telefone, que durou exatamente dois anos, tocava os sucessos populares do momento: Ângela Maria, Anísio Silva, Cely Campelo, Miltinho, Agostinho dos Santos, Cauby Peixoto, Orlando Dias e outros.

Num primeiro momento, eram tocadas todas as músicas gravadas na época. Depois, eram reveladas as escolhas feitas pelos ouvintes em telefonemas – imagine quantas ligações elegiam a líder. As músicas, no segundo instante, eram apresentadas em ordem inversa: o décimo lugar, o nono, o oitavo, até chegar à campeã da tarde. Algumas ficavam muitos dias na liderança, outras sumiam logo.

Em suas primeiras programações, as televisões usaram muito essa forma, ainda estática, em que no máximo o artista ensaiava uns passos. É que os telespectadores, agora, queriam ver quem era Anísio Silva, Ângela Maria…

Alguns se decepcionavam com o visual de seus mitos, não eram nada daquilo que haviam imaginado. Mas, para outros, era tarde: já haviam se apaixonado pela voz.

Tenho dúvida sobre se Jorge Loredo, José Vasconcelos, Castrinho, Geraldo Alves, César de Alencar, Deise Lucide, Zezé Macedo e Renata Fronzieram eram do estafe da Mayrink. E quanto a Brandão Filho, não estou bem certo se pertencia ao cast da Mayrink. Cartas para a redação. Ou então telefonemas.

Um detalhe: a Neusa era a mulher mais gostosa na área onde eu morava. Eu tinha 12 anos. Sabia imitar Agostinho dos Santos, que andei comparando ao Tutuca da música popular, por causa de demorar a pronunciar as palavras e enfatizar alguma sílabas.

Neusa era vidrada no Agostinho dos Santos e, como era minha vizinha, eu ficava na janela cantando para ela ouvir. A ela ensinei várias letras que ele cantava. Um dia, me deu um beijo na boca e disse: “Ah, se você não fosse uma criança”.

Deixei passar a chance, bobo que era. Pois, na verdade, eu já usava o banheiro nas horas de emergência, quando via todas as beldades de minha rua, meu bairro, minha cidade…

***

Sylvio Abreu é jornalista e contista

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