Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Ambição governamental, Olimpíadas e Copa de 2014

Por Fabiano Angélico em 08/04/2008 na edição 480

Caderno especial da Folha de S.Paulo sobre os Jogos Olímpicos publicado no domingo (6/4) estampa um montante na capa: R$ 1.192.976.259,27. Essa é quantia que o governo federal e suas empresas investiram desde 2005 no esporte de alto rendimento, informa o texto de abertura do especial. O caderno não traz dados sobre previsão de desembolso nos próximos anos, embora indique que os valores deverão ser ainda maiores.

Uma outra matéria do mesmo jornal, publicada, sem destaque, em 18 de março, já mencionava os investimentos estatais, embora o texto focasse na questão das metas estabelecidas pelo governo para as conquistas olímpicas do Brasil. ‘Governo contraria COB e traça metas’ era o título de matéria da Folha sobre plano elaborado pelo Ministério do Esporte que, entre outras coisas, busca melhorar a performance brasileira nos próximos Jogos Olímpicos.

Na reportagem, lê-se que o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) tem a ‘tradição’ de ‘não realizar projeções’. O jornal também nos conta que, ao ser consultado sobre o plano do governo, o COB afirmou que o importante é ‘dar suporte’ aos atletas, ‘independentemente do número de medalhas’. O Comitê diz ainda, sempre segundo a Folha, que ‘desconhece os critérios, as argumentações e a projeção do ministério’.

Diante de tão pouca sinergia (para usar um termo em moda) entre os dois entes, é surpreendente ler, na seqüência da matéria, que é exatamente o COB o órgão que receberá dinheiro público para implementar as ações com as quais se pretende alcançar a meta do governo.

Os repasses governamentais previstos para os próximos anos, porém, não são mencionados no texto, embora o montante repassado entre 2001 e 2006 (quase R$ 400 milhões) esteja na matéria.

O fio da meada

A reportagem de 18/3 e o caderno especial de 6/4 da Folha trazem a ponta do fio. Os jornalistas esportivos têm agora uma grande pauta em mãos. Cabe ao nosso jornalismo esportivo a tarefa de desenrolar o resto da história: quanto será repassado ao COB nos próximos anos? De que forma? Quem fiscalizará o uso dessa montanha de dinheiro? De que forma se dará este monitoramento? Seria importante que os jornais começassem a preparar seus profissionais para o acompanhamento desses gastos.

Assim, quando um Diogo Silva (lutador de taekwondo, ouro no Pan-2007) disser que falta apoio, a declaração não pegará a imprensa desprevenida. E quando um atleta ou uma equipe obtiver êxitos, as conquistas poderão ser melhor compreendidas se os jornais tiverem noticiado que as verbas para o apoio àquele esporte de fato chegaram aos esportistas e não ficaram pelo caminho.

Uma pequena contribuição para a pauta: estudo do NAO (o ‘Tribunal de Contas da União’ na Inglaterra) divulgado em março aponta os riscos de um plano similar, desenvolvido pelo governo inglês, que estabeleceu como meta para a delegação da Grã-Bretanha terminar em quarto lugar nas Olimpíadas de 2012, em Londres.

Lá, como cá, na ambição de fazer bonito em grandes eventos esportivos, o governo vai repassar verbas para um ente não-governamental.

Enfim, os jornalistas esportivos, que sempre carregaram a fama, às vezes injusta, de fazer matérias ‘menos importantes’, têm a oportunidade de dar uma bela contribuição à sociedade brasileira e, de tabela, faturar cobiçados prêmios de jornalismo. De quebra, ainda, treinam o olhar para a grande pauta dos próximos anos: a preparação à Copa de 2014.

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Coordenador de projetos da Transparência Brasil

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