Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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FEITOS & DESFEITAS >

Apenas um nome e uma história

Por Thaís Fernandes em 23/06/2015 na edição 856

Uma organização que já conta 37 anos dedicados à promoção do debate sobre temas relacionados a ciência, tecnologia e inovação e à democratização do conhecimento científico tem passado por momentos críticos. Há mais de um ano, a Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) está com suas atividades paralisadas em consequência de problemas jurídicos e financeiros. Jornalistas e divulgadores da ciência brasileiros, assim como professores e estudiosos da área, carecem atualmente de uma entidade representativa no Brasil e no exterior.

A crise teve início em 2011, quando a última diretoria enfrentou obstáculos jurídicos para tomar posse. Presidente eleita na época, a jornalista Mariluce Moura contou, em entrevista à CH On-line, que havia uma falha no registro da diretoria anterior no cartório competente, o que impediu que a nova diretoria assumisse legalmente suas funções.

Essa situação comprometeu a entrada e a movimentação de recursos financeiros na organização. “Isso paralisou nossa possibilidade de ação por algum tempo, pois não tínhamos competência legal para movimentar a conta bancária da ABJC e ter acesso aos recursos que lhe eram destinados; chegamos a pagar pessoalmente as contas para manter a associação”, conta Moura, criadora da revista Pesquisa Fapesp e diretora da Aretê Editora e Comunicação, da revista Bahia Ciência e do projeto de divulgação científica ‘Ciência na rua’.

Para regularizar a situação, foi preciso comprovar a existência da diretoria anterior e a eleição da nova diretoria. “Esse processo levou quase dois anos, pois os documentos tinham que ser assinados por várias pessoas, que estavam espalhadas por todo o país”, lembra o jornalista Ricardo Zorzetto, editor de ciência da Pesquisa Fapesp e diretor administrativo da ABJC na época.

Quando a nova diretoria foi finalmente reconhecida, em abril de 2013, estava a menos de um mês do fim de seu mandato, que é de dois anos. Outro fator complicador: de acordo com o estatuto da ABJC, para convocar novas eleições, o anúncio deve ser feito com antecedência mínima de 90 dias. “Tínhamos acabado de resolver um problema e a situação voltou a ficar irregular”, comenta Zorzetto.

O grupo conseguiu resolver a questão e iniciar um novo processo eleitoral no início de 2014, mas não houve interessados. “Nós chegamos a um ponto de exaustão”, diz Moura. ”As pessoas se desinteressaram e ficou tudo em suspenso”, completa Zorzetto.

Sem representação

Com a interrupção das atividades da ABJC, o jornalismo científico brasileiro fica sem representação formal junto às sociedades científicas do país e no debate sobre a cultura e o jornalismo de ciência. “Existe inclusive a cobrança de entidades internacionais para a participação brasileira no debate fora do país”, afirma Moura.

Sem a ABJC, perde-se uma instituição que poderia estar lutando por mais espaço para o jornalismo científico, que hoje vive uma fase de encolhimento no mercado, e buscando melhorar a formação de recursos humanos para a área. “A ABJC poderia reforçar a importância do jornalismo de ciência para o país”, analisa Zorzetto.

Moura ressalta que a ABJC teve papel histórico na organização da comunicação para o desenvolvimento científico do país e deu contribuição fundamental para o debate latino-americano sobre jornalismo científico. “A associação foi responsável por uma visão independente e crítica no jornalismo suscitado pelo desenvolvimento da ciência e tecnologia, mas talvez não tenha conseguido se manter presente frente às questões atuais”, afirma a jornalista. “Hoje somos apenas um nome e uma história”, lamenta. O site da associação também saiu do ar.

Para resolver essa situação, seria preciso recompor os documentos e reconhecer um grupo de jornalistas como parte de uma diretoria de transição, para que depois um outro grupo interessado em reconstruir a associação possa assumir. “É algo trabalhoso e que demanda tempo”, enfatiza Zorzetto. Enquanto isso, resta a nós, jornalistas e divulgadores da ciência, refletirmos sobre nossa atuação diante dessa crise de representação e dos desafios que se colocam para a nossa atividade.

***

Thaís Fernandes, do Instituto Ciência Hoje/ RJ

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