Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > FALTA DE FARO

Apenas uma questão de suíte

Por Daniele Barizon em 12/08/2008 na edição 498

No jargão jornalístico, suíte (do francês suite, seqüência, série) significa retomar um assunto, perscrutar seus desdobramentos, a fim de transformá-lo outra vez em notícia. A maior parte das editorias recomenda, no encadeamento de um tema, que fatos anteriores sejam relembrados. Procedimento corriqueiro, portanto, repisar matérias. O que fomenta a crítica, no encalço deste processo, é a tendência das sucessivas repetições – que quase ou nada acrescentam à pauta original – estimuladas para cobrir ‘buracos’ ou simplesmente alavancar audiência, pela exploração incessante dos chamados casos de comoção nacional.

O problema, que não é recente, agrava-se no cenário atual. A velocidade com que a informação hoje circula, e a necessidade de suprir as demandas dos diversos meios em tempo real, alterou de modo significativo a rotina das redações. A sensação de efemeridade, que empresta ao profissional a liberdade de discorrer sobre o que quer que seja de maneira despreocupada e superficial (afinal, logo outro argumento irá sobrepô-lo), nunca esteve tão latente.

Transcrever as notas (mal) apuradas, novidades ou seqüências torna-se simples ato mecânico. Acrescente-se ao quadro uma antiga tendência editorial, agora facilitada pela instantaneidade da internet: a elaboração de pautas através da análise de abordagens feitas por veículos concorrentes. Não há dúvida de que temos aí um círculo vicioso.

Várias peculiaridades

Como, então, explicar outra deficiência, que parece contraditória se comparada às citadas: a falta de espaço na mídia para a retomada de algumas notícias? Com toda a discussão acerca dos erros cometidos pela polícia do Rio de Janeiro e polêmicas relacionadas – como a troca de fuzis por armas menos letais, por exemplo –, o que explica o silêncio da imprensa sobre o julgamento do militar Marcos Alves da Silva, um dos acusados pelo Ministério Público da morte de Hanry Silva Gomes de Siqueira, 16 anos, na comunidade de Lins e Vasconcelos, ocorrida em novembro de 2002?

Exposto a princípio como traficante, as circunstâncias sobre o assassinato do rapaz vieram à tona muito mais tarde, através dos esforços de sua mãe, que literalmente atuou como repórter investigativa, reunindo provas indispensáveis para levar adiante o processo. Entre as várias peculiaridades do caso, estão a quantidade de advogados do réu, aparentemente incompatível com seu salário, a mãe-repórter da vítima ser apontada nos autos como assistente de acusação, e o fato de o advogado contratado para auxiliar na promotoria ser o mesmo que defende o ex-policial Anderson Souza, indiciado pela morte do milionário René Sena.

Falhas constantes

Detalhes talvez sem relevância, mas que, no mínimo, suscitam curiosidade. Assim como tantos outros, perdidos no esquecimento e na burocracia do tempo, eventualmente ressuscitados por insatisfatórias notas de rodapé. Perde o editor, perde o jornalista e perde o leitor, a quem no fim das contas poderia interessar o aprofundamento da matéria.

A reinserção de determinados assuntos, que podem ou não vir ao encontro de questões presentes, quando trazidos à baila com o objetivo claro e desinteressado de fazer cumprir função essencial do jornalismo – manter a sociedade informada – é mais uma opção contra as constantes falhas oriundas de procedimento tão corrente – a simples e censurada suíte.

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Diretora teatral e estudante de Jornalismo, Rio de Janeiro, RJ

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