Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Apocalipse no futebol carioca

Por Deonisio da Silva em 08/09/2009 na edição 554

O campeonato nacional de futebol é disputado por vinte times que semelham uma segunda divisão. As estrelas do futebol brasileiro alegram outras torcidas, principalmente européias.


Para certificar-se da incômoda verdade, basta dar uma olhada na atual seleção brasileira. Quais os convocados que jogam no Brasil?


Ainda assim, o campeonato está na sua segunda metade e não há nenhum time do Rio de Janeiro entre os dez primeiros. Mais do que isso: o time mais bem colocado é o Flamengo, em 11º lugar. Pior: o Fluminense está em último. O Botafogo, em antepenúltimo, isto é, em terceiro, de trás pra frente. Pior do que o Botafogo, só o Sport, de Recife. E melhores do que Botafogo e Fluminense estão Santo André e Náutico, por exemplo.


Linha infernal


Este escritor, mesmo tendo passado a infância e a adolescência no Brasil meridional, veio a torcer pelo Botafogo, apesar de seu professor preferido no ginásio torcer para o Bangu. Mas que time fascinou o menino que um dia fui? Manga e Nilton Santos, destaques na defesa. E do meio de campo em diante um quinteto que brilhava no time e na seleção brasileira: Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagalo.


Este ataque só não foi titular nas seleções brasileiras de 1958 e 1962 porque Quarentinha perdeu o lugar para Vavá (do Vasco) e Amarildo tornou-se em 1962 reserva do reserva de 1958, Pelé (do Santos).


E não pensem que era fácil fazer gols no Fluminense do goleiro Castilho. Que era moleza enfrentar o Flamengo do meia Gerson. Ou derrotar o Vasco de Vavá.


Quanto aos clubes de São Paulo, sempre foram no mínimo assustadores para seus adversários. Os times paulistas apavoravam com o Santos, que começava com Gilmar e tinha lá na frente uma linha infernal: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Todos reservas na seleção brasileira. Aliás, acho que Dorval nem era convocado. É verdade que Pelé foi reserva por muito pouco tempo.


Avisos tremendos


No final da década de 1960 e alvorecer da de 70 despontaram o Cruzeiro de Raul, Piazza, Dirceu Lopes, Zé Carlos, Tostão, e o Atlético do goleiro João Leite e do atacante Reinaldo. E já havia o Grêmio de Everaldo (lateral esquerdo tricampeão do mundo pela seleção brasileira, no México), que seria campeão mundial na década seguinte.


A esse tempo (década de 1970), surgiu o Internacional de Falcão, Paulo César Carpegiani, Valdomiro, Claudiomiro, tricampeão brasileiro (75, 76 e 79). Todos liderados pelo chileno Figueroa.


Descentralizava-se o futebol no Brasil. O eixo Rio-São Paulo não tinha mais hegemonia nenhuma. Famosos times do Rio tornaram-se páreo fácil para desconhecidos times do interior de São Paulo, como Ponte Preta e Guarani, de Campinas; Internacional, de Limeira; Comercial, de Ribeirão Preto.


Coritiba e Atlético, do Paraná, não apenas não se assustavam mais com times do Rio e de São Paulo, como passavam a impor-lhes derrotas humilhantes, e não com o bafo da torcida da casa, mas nos templos do adversário, como o Maracanã, o Pacaembu, o Morumbi.


Eram avisos tremendos. E nasceram muitos tabus. O Flamengo não vence o Atlético do Paraná em Curitiba há mais de três décadas.


Ídolos no rádio


E hoje, como andam as coisas? Dos quatro primeiros, dois são de São Paulo, um é do Rio Grande do Sul e outro é de Goiás. Do quinto ao décimo, temos Atlético (MG), Corínthians (SP), Avaí (SC), Grêmio (RS), Barueri (SP) e Santos (SP).


Por incrível que pareça, o único time do Rio em boa situação é o Vasco da Gama que, rebaixado em 2008, lidera a segunda divisão.


Os clubes do Rio de Janeiro precisam mirar-se no exemplo do Internacional de Porto Alegre. Depois de um longo inverno nas décadas de 1980 e 1990, recuperou-se, arrebatou vários títulos importantes, nacionais e internacionais, culminando com a conquista do campeonato mundial, derrotando na final o Barcelona. Organizou a casa. Exporta jogadores, que, aliás, não fazem falta nenhuma. Ao contrário, a saída deles permite revelações impressionantes da prata da casa. E os titulares que se cuidem. Para cada titular do Internacional, há pelo menos dois outros na mesma posição, loucos para mostrarem que jogam melhor do que ele.


Se valessem os critérios vigentes quando o campeonato nacional era o Torneio Rio-São Paulo, hoje não haveria um só time do Rio de Janeiro na disputa.


Mas há ainda muitos outros complexos fatores a considerar. Se a Copa de 2014 for realizada no Brasil, nenhum jogador da seleção brasileira será nosso conhecido. A não ser pela televisão. Já não importará em que estádio a seleção se apresentará. A rigor, ela não será ‘a pátria de calções e chuteiras’, como um dia sonhou Nelson Rodrigues.


Novidade? Nem tanto! Os brasileiros que não moravam no Rio de Janeiro nem em São Paulo conheceram seus ídolos pelo rádio. Hoje, pela televisão.


Mas penso que o que está acontecendo no Rio de Janeiro em matéria de futebol antecipa o apocalipse.

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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