Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > CASO BORIS CASOY

Apresentador apenas expressou o que todos eles pensam

Por Gabriel Brito em 02/02/2010 na edição 575

No último dia do ano, os telespectadores do Jornal da Band tiveram a oportunidade de se estarrecerem um pouquinho à toa antes de dar vivas ao 2010 que amanheceria em instantes. Tudo porque o apresentador do programa, o prestigiado Boris Casoy, cometeu uma indefensável gafe enquanto se acreditava em off.

O motivo que levou um dos maiores defensores públicos da ‘moral e bons costumes’ na vida política e cotidiana brasileira a se desnudar foi acima de tudo gratuito, o que evidencia um caráter rançoso e incorrigivelmente preconceituoso.

Após a exibição das tradicionais matérias de fim de ano, no velho estilo água com açúcar que a programação da época nos brinda, dois garis são convidados pela equipe de reportagem a desejarem um bom réveillon a todos. Raro e hiper-conveniente momento de dar aos pobres a chance de se pronunciarem na televisão. Nada de reclamo social, apenas uma inocente saudação de festas.

No entanto, a mensagem proferida pelos dois trabalhadores foi mais que suficiente para fustigar e acionar o ódio de classe de Casoy. ‘Que merda. Dois garis desejando feliz ano novo… o mais baixo da escala de trabalho’, comentou com seus companheiros de estúdio.

Uma medida absolutamente normal

Vale lembrar que o apresentador concentra grande parte de seu público admirador exatamente nas camadas que abomina, onde o discurso moralista e ‘caçador’ (ontem de comunistas, hoje supostamente de corruptos) encontra eco e simpatia. Afinal, a total desorientação política e ideológica que assola nosso povo encontra uma zona de sentido no que é a mazela mais escancarada e propalada do sistema vigente, a corrupção.

Dessa forma, um discurso de intolerância com alguns agentes da ordem pegos em flagrante apetece o público, mesmo que não haja o mínimo questionamento a respeito de toda a lógica que permite a eterna reprodução de tais ‘desvios de conduta’. Por isso que bordões do apresentador como o ‘Isto é uma vergonha’ tornam-se tão famosos e sempre caem na boca do povo.

Como se viu nas discussões que cercaram a primeira Conferência Nacional de Comunicação, a mídia gorda fez todo o possível para esvaziar os debates e desqualificar as reivindicações populares de mudança nos marcos da comunicação brasileira. No entanto, o que é de fazer tapar o nariz é ver os veículos tradicionais e dominantes massacrarem o público com a idéia de que o lado oposto à mídia empresarial, ao lado de setores do governo praticamente tachados de stalinistas, pretende implantar um controle totalitário sobre a imprensa.

O argumento é simples e, como sempre, nada elaborado. O governo tem a intenção de instituir um controle social sobre a mídia e seus conteúdos, o que é absolutamente normal mundo afora, a começar pelos países mais poderosos. Logo, quer-se praticar a censura e o controle abusivo do que se produz, concluem.

Episódio altamente positivo

Mentem, escondem e dissimulam do público que os verdadeiros propósitos de um controle social da mídia, que na verdade serviria muito à cidadania nacional, nada mais é que um direito essencial de uma sociedade que se deseja democrática. Serviria também para combater as incontáveis manifestações de preconceito e rotulações sociais.

Todo esse interlúdio para lembrar que o mesmo tipo de jornalista da grande mídia que dispara seu ódio aos pobres é o mesmo que se arvora em defensor das liberdades de expressão e de imprensa. Dá para notar como gente da estirpe do asqueroso apresentador está preparada para ser a bandeira de tais direitos… É de se imaginar como os movimentos de protesto social teriam vez e voz com os Casoys da vida. Aliás, têm de sobra, hoje em dia…

E são os veículos que empregam gente como o ex-integrante do CCC que defendem a completa manutenção do atual estado de coisas em nossas comunicações. Sem Lei de Imprensa, sem regulação da profissão de jornalista, sem revisão das concessões audiovisuais, sem combate ao monopólio, sem cumprimento das contrapartidas sociais exigidas na Constituição… Enfim, uma autêntica terra de ninguém, onde o mais forte (leia-se, mais poderoso economicamente) é quem sobrevive. No caso, Globo, Band, Record, SBT e Cia. Qualquer coisa que afete o status quo acima mencionado é totalitarismo, afronta ao Estado democrático de Direito.

No frigir dos ovos, o episódio é altamente positivo. Se servir para abrir os olhos de boa parte da população para o que realmente pensam seus ‘advogados da imprensa independente’, Boris Casoy terá prestado seu primeiro grande serviço ao país.

Defensores da democracia

Que o telespectador que não trabalha de carro importado em prédio espelhado da Avenida Paulista se dê conta de que Boris Casoy apenas foi sincero. E que, se trabalha na Band como âncora do horário nobre, é porque seu pensamento e conduta casam perfeitamente com o de quem é dono do circo. É essa camarilha que estupra diariamente o jornalismo e que repugna o controle social na comunicação. Eis a ilação a ser feita do episódio. A mídia only business tem ojeriza da participação da sociedade na comunicação. Pretende vomitar suas verdades, e preconceitos, de cima para baixo, por todo o sempre.

Resta ao povo brasileiro decidir se pretende ser representado apenas por essa corrente da comunicação e do jornalismo e se essa realmente é a única habilitada a defender a democracia e uma sociedade justa e livre para se expressar.

Ah, sim! Completamente acuado pela ‘entregada’, o apresentador simulou um pedido de desculpas no dia seguinte. Além de a mensagem ter sido mais curta que a de ofensa aos garis, é de uma frieza típica dos cínicos. Não merece nem ser levada em conta neste espaço, pois é evidente que, no devido momento, Casoy mostrou sua autenticidade. Ele já tinha sido sincero o suficiente e a mensagem lida no teleprompter é de validade moral nula.

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Nota: Por tabela, também fica novamente ressaltado porque nossa gloriosa mídia ‘livre e independente’ empreende incansável campanha contra a revelação da história do país.

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Jornalista

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