Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > Edição: Beatriz Singer (com Dennis Barbosa)INQUÉRITO HUTTON

As constatações do inquérito

03/02/2004 na edição 262

O relatório do lorde Hutton veio a público em 28/1/04. Na opinião de Owen Gibson e Ciar Byrne [The Guardian, 28/1/04], o resultado foi o pior possível para a BBC ao descrever seu sistema editorial como ‘defensivo’ e declarar que a comissão de diretores liderada pelo presidente Gavyn Davies falhou em seu dever de agir como reguladora independente.

Segundo as determinações do juiz, o premiê Tony Blair está livre de qualquer envolvimento direto com o suicídio de David Kelly. O governo não agiu de forma ‘desonrosa, encoberta ou dúbia’ ao revelar a identidade de Kelly. Hutton também afirmou que ficou satisfeito em constatar que nenhum dos envolvidos no caso poderia ter antevisto o suicídio de Kelly.

Blair, logicamente, elogiou o trabalho ‘extraordinário, profundo, detalhado e claro’ do juiz e exigiu que a BBC retire as alegações de que ele deformou informações sobre armas no Iraque, afirmando-as mentirosas.

Aparentemente, o comunicado de Hutton, televisionado em cadeia nacional, alivia Blair após a maior crise de seus sete anos no gabinete, afirma Thomas Wagner, em reportagem distribuída pela AP [28/1/04]. Hutton diz que é infundada a reportagem da BBC que dizia que o governo sabia que a informação sobre a possibilidade do disparo das armas iraquianas em 45 minutos era errada, e mesmo assim resolver colocá-la no dossiê. Ao desafiar a integridade do premiê britânico, a BBC manchou a reputação de Blair e a sua própria.

Hutton criticou duramente a maneira defensiva da BBC de lidar com a reportagem de Gilligan, afirmando que os editores não souberam checar apropriadamente as anotações do repórter e não investigaram as reclamações subseqüentes do governo. Os diretores da BBC deveriam ter ‘questionado se era certo a BBC sustentar que transmitiu a afirmação [de Gilligan] em nome do interesse público’, disse Hutton. Ele lembrou que Richard Sambrook, chefe de reportagem, respondeu às reclamações de Alastair Campbell sem sequer ver as anotações de Gilligan. E ‘quando a administração da BBC de fato viu as anotações, não percebeu que elas não indicavam realmente a mais séria das alegações que foi ao ar às 6h07 da manhã’.

A transcrição da gravação de alguns minutos de uma reunião dos diretores da corporação, divulgada no dia 6/7/03, mostrou que a comissão já tinha suas próprias dúvidas em relação à transmissão de Gilligan. No entanto, acharam que defender o jornalismo da BBC era mais importante que expressar sua preocupação sobre a reportagem.

A comissão diretora da BBC também foi alvo de críticas de lorde Hutton. Se tivessem investigado a reportagem de Gilligan, diz o relatório, ‘provavelmente descobririam que as observações não corroboram a alegação de que o governo sabia que a história dos 45 minutos era provavelmente errada’. O juiz também afirmou que Kelly agiu mal ao se encontrar em particular com Gilligan e violou regras sobre o contato de funcionários do governo com a mídia.

‘O que o relatório deixa claro é que o primeiro-ministro disse a verdade, o governo disse a verdade, eu disse a verdade’, concluiu Alastair Campbell, ex-diretor de comunicações de Blair acusado de ‘exagerar’ no dossiê. ‘Já a BBC, desde o presidente até o diretor-geral, não disse [a verdade]’.

O ataque, amplo e inequívoco, foi tiro certo da reputação de Greg Dyke, diretor-geral, Gavyn Davies, presidente, e Richard Sambrook. Os dois primeiros já anunciaram pedido de demissão [veja próximo texto]. Antes disso, Dyke havia enviado um e-mail à equipe dizendo que a BBC apenas levaria o relatório a sério se concordasse com suas conclusões.

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