Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > FRANCA, SP

As enchentes, a foto e a vida

Por Rogério Christofoletti em 25/01/2007 na edição 417

2007 mal começou e já temos uma avalanche de imagens que rechearão qualquer retrospectiva no final do ano. Mas, modestamente, penso que já temos uma das imagens do ano, talvez a mais forte, a mais dramática, a mais humana, a mais pungente. Falo da seqüência que o repórter-fotográfico Tiago Brandão, do jornal Comércio da Franca, fez da mãe salvando seu filho do afogamento.


A seqüência tira o fôlego quando se percebe a precariedade do local, um poço cheio de água encardida, rodeado de barras de ferro retorcidas, numa autêntica arapuca. A mãe, uma sapateira humilde, sem saber nadar se atirou para salvar um dos gêmeos, que se debatia na água. Populares ajudaram, inclusive o motorista do jornal. Ele e o fotógrafo faziam matérias de rescaldo das chuvas em Franca (SP). Tiago, que não sabe nadar, não pulou na água. Ficou em terra, clicando. Suas imagens foram (e estão sendo) repetidas em jornais, emissoras de TV e portais da internet pelo Brasil afora.


Claro que a atitude do fotógrafo chamou a atenção de muita gente. A pergunta que não calou foi: por que, ao invés de fotografar, ele não ajudou aquela mãe desesperada?


O G1 trouxe matéria com o profissional, tangenciando inclusive prováveis rendimentos dele com as fotos. No próprio Comércio da Franca, na seção de comentários às notícias, uma guerra entre defensores da atitude de Tiago Brandão e seus críticos. Os xingamentos mais frequëntes ressaltavam suas qualidades de desumano, de mercenário, de antiético. Era justamente nisso que eu queria chegar…


Tragédia humana


O episódio lembra muito uma crítica que James Fallows, ex-editor do The New York Times, fez certa vez, ao questionar: ‘Jornalista é gente?’ O foco de Fallows era uma foto – já clássica – em que coloca num mesmo enquadramento uma criança esquálida em algum país perdido na África e um abutre. A fragilidade da criança e o olhar fixo da ave de rapina nos fazem pensar que é tudo uma questão de tempo, apenas isso.


A foto famosa foi feita pelo fotógrafo sul-africano Kevin Carter, no Sudão. O trabalho lhe rendeu um prêmio Pulitzer nos anos 1990, e pelo que consta, Carter teria se suicidado tempos depois, deprimido com a violência mundial e com a morte de um amigo. Consta também que Carter teve que responder centenas de vezes à pergunta que Tiago Brandão ouve nesses dias: por que não ajudou a criança antes de clicar na máquina?


Carter respondeu que espantou o abutre após a foto e ficou horas a fio observando a criança esquálida que morria. Nada podia fazer. Era uma questão de tempo. Ficou ali ‘chorando e fumando’. Fez as fotos e o mundo se emocionou e se indignou com a fome na África, com as guerras civis que dizimam países inteiros naquele continente esquecido e com as dinastias de ditadores-vassalos que escravizam seus povos em troca de migalhas atiradas por países mais ricos ou corporações transnacionais.


Foi graças aos cliques de Kevin Carter que tivemos – pelo menos num segundo – a dimensão mais clara de uma tragédia humana que, se não desconhecíamos, ignorávamos.


É graças aos cliques de Tiago Brandão que pudemos ter – mais uma vez – a dimensão do amor humano, da tragédia da natureza, do descaso dos humanos com os mais pobres etc., etc.


Como agir?


Não estou endeusando nem Carter nem Brandão. Não. Eles também são humanos. E estavam no local e na hora onde a vida acontecia. Poderia haver mais gente. Deveria haver. Mas eles registraram de algum modo aquilo. Perpetuaram aqueles instantes de vida e de morte.


Eu penso que o jornalismo deve se ocupar disso também: registrar nossas passagens pela vida. A função de jornalistas não é se precipitar sobre o acidentado, tentando confortá-lo. Enquanto os profissionais do resgate não chegam, há trabalho a fazer. O registro precisa ser feito. Se o editor vai usar ou não a foto do ensangüentado na capa é outra história. Mas o fotojornalista (nem o cinegrafista) pode perder o momento, o timing da vida, o pulso do fato. Tem que registrar, tem que perpetuar. É isso que esperam de nós. Que estejamos diante dos acontecimentos e possamos narrá-los, dando conta de como tudo se deu.


Talvez Carter até quisesse salvar a criança esquelética deitada sobre a relva. Mas quantos cuidados alguém em alto estado de desnutrição necessita? Como agir? Entupir-lhe a boca de comida? Dar água até saciar-lhe a vontade? O que fazer quando não se sabe como agir a não ser testemunhar aquilo?


Talvez Tiago Brandão até quisesse mergulhar e salvar a criança que se afogava. Talvez, porque Tiago afirmou não saber nadar. E se isso for verdade, ele deveria deixar de fotografar e se atirar, podendo inclusive morrer? Sei de muita gente que responderia que sim. E aí, talvez, tivéssemos um cadáver. E nenhuma foto, nenhum vestígio de como tudo aconteceu.


Mais preparados


É evidentemente uma questão de ética. A foto ou a vida? Abrir mão do fato e intervir nos rumos dos acontecimentos? Assistir ou participar? É claro que não tenho nem a metade das respostas às questões que lanço aqui. De qualquer forma, sei que não existe uma fórmula também. É preciso pensar rápido nessas situações. Considerar os acontecimentos e as possíveis conseqüências. Ler o cenário ao seu redor. Medir as conseqüências e antecipar os desdobramentos de uma ação ou outra.


Sei também que muita gente dirá: mas não há tempo para pensar, é necessário agir. Sim, e aí nos deixamos conduzir pelo chamado Instinto. (Aliás, o episódio de Franca trouxe à tona duas dimensões do instinto: o da mãe, que se arrisca para preservar a prole, e o do jornalista, que não se desvia do seu compromisso profissional).


Recuso a ladainha do instinto. Reforço a necessidade de pensar, de considerar, de raciocinar rápido. É preciso refletir para fazer escolhas, e agir. Optar entre uma ação ou outra não pode ficar a cargo do nosso instinto. Friso que é necessário cada vez mais que nós, jornalistas, pensemos, discutamos, argumentemos nossas escolhas e caminhos. Seja na redação, seja junto à sociedade. Seja depois de episódios como este, seja em outras situações.


Quanto mais pensarmos e falarmos sobre isso, mais preparados estaremos para refletir rápido e agir com segurança e confiança. Eu rechaço o instinto nessa hora. E me lembro de frase de um jornalista americano que dizia: ‘É necessário agir por reflexão e não por reflexo’.

******

Professor do curso de Comunicação Social – Jornalismo e do Mestrado em Educação da Universidade do Vale do Itajaí; responsável pelo projeto Monitor de Mídia e integrante da Rede Nacional dos Observatórios de Imprensa (Renoi); texto publicado originalmente no blog do autor

Todos os comentários

  1. Comentou em 31/01/2007 Luiz Mendes

    Jornalista jamais erra. Erramos nós, simples mortais, que mesmo sem saber nadar, procuraríamos algum outro meio de ajudar. Erramos nós que que não nos omitimos e não esperamos que os outros façam as coisas. Erramos nós, por teimar que existe vida, além das matérias jornalísticas e que a vida não existe apenas quando é retratada pelo jornalismo.

  2. Comentou em 31/01/2007 Luiz Mendes

    Jornalista jamais erra. Erramos nós, simples mortais, que mesmo sem saber nadar, procuraríamos algum outro meio de ajudar. Erramos nós que que não nos omitimos e não esperamos que os outros façam as coisas. Erramos nós, por teimar que existe vida, além das matérias jornalísticas e que a vida não existe apenas quando é retratada pelo jornalismo.

  3. Comentou em 26/01/2007 Martins Araujo Araujo

    Com certeza o fotografo agiu corretamente, se não sabia nadar em
    nada ajudaria, e ai sim, fotografou o acontecimento.
    Mas se ele em vez de fotografar procurasse ajudar, ou quem sabe até entrando na agua, certamente seria tratado como herói, e o salvamento teria até maior repercussão.
    Acredito que o sentimento de solidariedade,esta muito acima de qualquer outro sentimento, ou instintos.

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