Terça-feira, 13 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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FEITOS & DESFEITAS >

As mais graves malícias da política

Por Eduardo D´Amato em 17/11/2009 na edição 564

O portal G1 publicou recentemente algumas rápidas entrevistas com ex-celebridades. Gente que já não está no auge de sua perene visibilidade, e que, por isso mesmo, vê na eleição fácil a oportunidade de recuperar seu passado de glórias. Na impossibilidade de permanecer em evidência nas artes da carreira artística, seu novo objetivo é tornar-se ilustre como deputado estadual ou federal. Uma nova promessa num mundo um pouco mais seguro – afinal, políticos controlam seu próprio salário e tudo depende, em geral, da própria esperteza.

Por outro lado, os profissionais que fazem o G1, e que publicaram as tais entrevistas, sabem bem que trabalham para a maior e mais forte fábrica de factóides existente no Brasil. Julgam diferenciar-se dos responsáveis por programas de auditório e reality shows pelo fato de serem jornalistas. Por isso se indignam a apontar, embora não possam atirar na direção de uma sociedade menos artificial. Também se sentem ofendidos pela intromissão do entretenimento na face grave da sociedade.

E essas entrevistas publicadas na internet contribuem. Ajudam a comer a melancia sem ter de cuspir o caroço. Afinal, realizar entrevista é um trabalho maçante e muitas vezes humilhante, ainda mais com supostas e arrogantes celebridades. Já com o texto pronto, acessível na internet, é possível recriar sem o desconforto do trabalho atomizado. Aliás, a discussão da propriedade intelectual na internet deveria antes ter como referência o que é intelectual e o que não é porque a informação bruta merece ser lapidada.

Se o Lula pode, ele também pode

E o mais interessante é que todas as ex-celebridades, da mesma forma que os usurpadores do pseudo-talento alheio que encontramos nas emissoras de TV, ou os condicionados jornalistas de redações, da mesma forma que os ratos do submundo da internet, todos estão bem intencionados. Gente como o Gaúcho da Fronteira – que quer ser deputado estadual pelo Rio Grande porque é contra a proibição dos showmícios, já que essa medida tira o trabalho dos que, como ele, vivem de música – não pode estar errada.

Pura também é a prostituta Gabriela Leite, conhecida por liderar um movimento que defende o trabalho e a dignidade das profissionais da noite em São Paulo. Ela quer apenas combater o conservadorismo moral, corajosamente, e fazer avançar a visão da sociedade sobre a sexualidade que, como bem dizia Foucault, é uma das mais fortes e importantes formas de controle instituída. Tem como projeto em sua futura legislatura a aposentadoria para as prostitutas.

Como criticar Danrlei, ex-goleiro do Grêmio, cuja campanha enfocará a inclusão social através do esporte e com a contrapartida do estudo, ou até o ex-Big Brother Cleber Bam-Bam que, dono de uma sinceridade de dar inveja a muito político, declara desavergonhado que é sua assessoria política ainda vai definir o que vai ser falado na campanha. Entre as bandeiras que pretende defender: educação e cultura. ‘É o que o povo quer, não é?’ Afinal, se o Lula pode, ele também pode.

A máquina de moer carne

Não podemos esquecer que estes que hoje se candidatam a deputados até pouco tempo eram cobaias midiáticas, muitas delas sem mérito ou demérito, na maioria das vezes gente simples que buscava e ainda busca um lugar ao sol. Então, por que condená-las a vilãs, como se nós mesmo fossemos puritanos intocáveis? Ao contrário, a sensibilidade está em reconhecer que essas pessoas estão sendo novamente tragadas para dentro de uma mesma máquina, como se fossem pedaços de carne dura que custa a moer.

As tais celebridades que, vistas de relance, poderiam levar o país à ignorância e ao amadorismo político, são apenas vítimas instrumentalizadas pelos verdadeiros tiranos, que pagam jornalistas para gerar personagens caricatos, que por sua vez se utilizam de blogueiros e twiteiros para criar polêmicas e gerar o debate que alimenta a máquina de moer carne. Mas insistimos em confiar nos políticos que dominam a linguagem formal, a educação formal, o discurso politicamente correto. Num ponto, todos têm razão: o problema está em não entender onde estão as mais graves malícias da política.

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Jornalista e assessor de comunicação, Fortaleza, CE

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