Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > GLOBO REPÓRTER

Às margens do jornalismo sério

Por Lilian Reichert Coelho em 09/02/2010 na edição 576

Mais uma vez, a Rede Globo perdeu oportunidade de realizar jornalismo em profundidade, mostrando-se incapaz de contextualizar, humanizar e interpretar a (dura, e não idílica) realidade vivida pelas populações ribeirinhas da região amazônica. No programa Globo Repórter exibido no dia 22 de janeiro, a emissora preferiu espetacularizar e manter estereótipos historicamente cristalizados pelos discursos do poder sobre o ‘povo’ brasileiro. Com isso, apenas endossa o que teóricos da comunicação denominam ‘hipótese do reforço’. Isso significa que, ao invés de atuarem no sentido de problematizar questões relevantes, a fim de operar transformações, os meios de comunicação massivos tendem, sobremaneira, a seguir o caminho mais simples, apenas reforçando valores, comportamentos e ideias cujas crenças e performances já são dominantes no contexto social.

Aproveitando-se da ingenuidade, da fé e da ignorância daqueles mantidos à margem da sociedade pelos governantes e pela própria sociedade brasileira que, indiferente, cerra os olhos para a existência famélica e resignada de grande parte da população, a referida emissora optou por perpetuar sempiternos enquadramentos, bem ao gosto da classe média.

Um deles refere-se aos pobres, que só vivem para se reproduzir incansavelmente, bestas ignaras sem domínio dos próprios instintos. Ao exibir um casal, diz a repórter: ‘As melancias do Antônio e da Mayara nasceram onde antes só se chegava remando. Com apenas três meses, Ibson já acompanhava os pais. E, pelo visto, logo-logo, vai ter mais gente na família: Antônio acha que a mulher está grávida. E assim, a vida dos ribeirinhos segue o curso do rio. Nascendo a cada estação.’

Uma certa imagem

Em um berçário de gaivotas, na seca, as aves fazem o ninho na praia que se forma. A homologia entre a vida natural e a vida humana é explícita; pretende-se poética, mas é bem rasteira, no padrão ‘Homer Simpson’ perseguido pela emissora, mas funciona no sentido pretendido, que é reiterar argumentos deterministas encaixados na leitura usual sobre os pobres urbanos. E também, pelo visto, aos espectadores do Globo Repórter, incapazes, coitados, de lidar com interpretações um pouco mais complexas da realidade.

Pior. Tudo isso, tanto a ignorância de uns quanto a de outros, foi acentuado pelo programa como algo natural, parte indomável da vida daqueles que ‘preferem’ viver junto ao rio, à natureza, qual povo edênico no ‘paraíso perdido’ dos rincões do Brasil que o Brasil do espectador do programa desconhece. E, se depender do Globo Repórter, vai continuar desconhecendo…

Por falar em ‘paraíso perdido’, evidentemente não foi gratuita a remissão que Euclides da Cunha fez a John Milton, pensando atribuir o mesmo título a um ‘segundo livro vingador’, neste caso, não sobre o sertão, mas sobre a Amazônia, após a expedição de 1905, viagem que o fez se encantar e se horrorizar com a vida dos seringueiros, em geral nordestinos migrantes escravizados.

No centenário da morte de Euclides da Cunha, o Estado de S.Paulo publicou um caderno especial sobre a Amazônia para cuja produção a equipe responsável, composta pelo repórter Daniel Piza e pelo fotógrafo Tiago Queiroz, refez o trajeto do diletante escritor, que resultou também no documentário homônimo ao projeto de Cunha, disponível aqui. Os textos que Euclides da Cunha não teve oportunidade de reunir em um único livro, consolidando seu sonho cidadão, estão disponíveis para download no site Domínio Público.

No que concerne ao importante fator humanização, tão caro a qualquer reportagem que se preze, o Globo Repórter primou pela construção de tipos, ajustando-se ao modo dos programas de apelo popularesco, chamando os personagens de ‘Iracema das garrafas’, ‘Aluiziano dos porcos’, ‘Mazonice e as crianças’. Na verdade, donas-de-casa-sem-casa, todos vivendo ao sabor dos ciclos e contingências da natureza e das vontades de Deus. Mesmo mostrando os rostos, os nomes completos dos ‘personagens’, não há lugar para a leitura vertical das subjetividades expostas, pois o objetivo é, claramente, confirmar certa imagem da ‘vida ribeirinha’, assim mesmo, de modo generalizado e sem abordagem multiangular.

Opinião minimizada e distorcida

O que se apresenta é um olhar (pseudo)romântico, desarticulado, das questões ambientais e sociais, relegando os pobres ao que eles mais conhecem e se resignam: os desígnios e castigos de Deus. Nesse intuito, afirma a repórter: ‘É assim que se vive na região. As águas avançam. Os ribeirinhos recuam, entrincheirados pela mobília que conseguiram salvar. Maria se conforma: `Não posso ficar com raiva porque a gente não dá jeito, né? É Deus quem manda, a gente tem que se conformar. A gente se conforma com a vontade de Deus. É da vida´.’

Além do conformismo político travestido de apego religioso, a ‘grande reportagem’ exibida pela Rede Globo optou pela repetição do recurso ao modo de olhar etnocêntrico, sobretudo quando o estrangeiro está em posição de vantagem em direção aos outros, ‘eles’, os exóticos, interpretando-os sem conhecê-los, como se selvagens fossem, naturalmente destinados por Deus para viver à margem. No caso das populações ribeirinhas, literalmente.

Do ponto de vista jornalístico, o mais degradante é que, de maneira pretensamente informativa, o programa minimiza e até distorce a opinião de uma das únicas especialistas ouvidas durante toda a matéria. Ao editar a fala, de tom negativo, da especialista, inserindo, logo após, fala conformada de uma das ribeirinhas, a emissora presta um desserviço ao espectador, a quem deve respeito. Ao proceder dessa forma, negando a opinião da entrevistada, que poderia ser utilizada como contraponto ao conformismo dos não naturalmente ignorantes, o programa deixa de atuar em favor da politização do público.

Secas e cheias

Ao contrário do discurso apaziguador e redutor do programa, Edila Moura, socióloga da Universidade Federal do Pará e do Instituto Mamirauá afirma, nos poucos segundos a ela destinados, que ‘os desafios ainda são grandes, principalmente no que diz respeito ao saneamento e ao uso de água potável por essas comunidades ribeirinhas e o acesso aos serviços de saúde e educação básica’. Imediatamente, insere-se a fala da ribeirinha Marlene, que diz: ‘Eu sou feliz. Graças a Deus sou feliz. Muito, muito, muito. As pessoas dizem: `Eu não sei o que vocês fazem naquele buraco!´ Só que esse buraco aqui, tem muita coisa para nos oferecer.’ Ao que a repórter complementa: ‘É preciso aguentar firme.’ Que a mulher seja conformada, vá lá, dada a história de nosso país e os esforços para que os ignorantes e os pobres assim permaneçam, mas que um programa pretensamente jornalístico reitere o conformismo, isso não se pode aceitar.

O saldo de tudo isso é que, assim como a Rede Globo parece repetir o mito da democracia racial inserindo, sem problematizar, uma bela e inexpressiva protagonista negra na cor-de-rosa novela das oito, também repete ad infinitum o preconceito das classes médias contra aqueles que ela própria relega às margens, dos rios, do ‘asfalto’, da história, da sociedade. É o determinismo que ‘acomete’ os pobres brasileiros o principal, terrível e execrável mote do programa sob foco: as mulheres continuarão parindo incessantemente crianças destinadas a morrer afogadas nos rios; as crianças vão internalizar o difícil tipo de vida dos pais, compreendendo-o como única possibilidade de existência; as secas vão continuar se alternando com as cheias e o Globo Repórter não vai se importar com o fato de as secas serem cada vez mais secas e as cheias cada vez mais cheias.

É deselegante falar de tristeza

Com isso, a classe média pode sentir alívio, dada a beleza inconteste das imagens, devidamente articuladas com a trilha sonora, impondo o sentido do selvagem domesticável e contrariando o olhar profundo de Euclides da Cunha, que tentou mostrar o paradoxo. Em cem anos, parece que pouco mudou. O Bolsa Família garante o mínimo, perenizando a condição marginal dessa gente enquanto, nas grandes cidades, outros pobres morrem ou perdem tudo o que têm em deslizamentos de encostas, enchentes e outras desgraças atribuídas à revolta da natureza que, repentina e inexplicavelmente, decidiu se enfurecer.

Mas, quem se importa? Como diria a repórter responsável pela matéria do Globo Repórter: ‘É a vida!’ No final das contas, a mensagem da Globo parece ser a seguinte: às vésperas do carnaval, já chega a desgraceira das chuvas no sul e sudeste, que tão bem serviram para alimentar os telejornais de janeiro, sem esquecer o terremoto do Haiti. Porém, é até deselegante falar de tristeza, de pobreza, já que a ordem do mundo está perfeitamente garantida (ufa!) com as belas pernas de Ivete Sangalo e as baboseiras tatibitati-repetição-da-mesma-sílaba das canções da axé music a todo vapor no maior carnaval do mundo…

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Jornalista, mestre e doutora em Letras, docente no curso de Jornalismo da Faculdade Social da Bahia, Salvador, BA

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